Como o genro de Trump abriu a porta da Casa Branca ao herdeiro saudita

Jared Kushner apadrinhou a aliança estreita entre a Administração Trump e o príncipe herdeiro saudita, que está debaixo de fogo da comunidade internacional devido ao desaparecimento do jornalista dissidente na Turquia.

Fotogaleria
Trump recebeu príncipe saudita na Casa Branca, em Março Reuters/Jonathan Ernst
Fotogaleria
Trump com o genro, Jared Kushner Reuters/KEVIN LAMARQUE

Os Estados Unidos estão a começar a sofrer as consequências da aposta sem reservas da Administração Trump em Mohammed bin Salman (MBS), príncipe herdeiro da Arábia Saudita, por quem Jared Kushner, genro e conselheiro do Presidente norte-americano, pôs as mãos no fogo e certificou ser o homem ideal para diversificar a economia saudita e modernizar a sua sociedade ultraconservadora. 

O desaparecimento, na Turquia, do jornalista e dissidente saudita Jamal Khashoggi – um crítico de MBS – e as suspeitas cada vez mais maiores de que terá sido assassinado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, espoletaram um coro de críticas da comunidade internacional e deixaram Washington na posição embaraçosa de ter de defender o seu aliado contra quaisquer conclusões precipitadas sobre o caso.

A aliança entre EUA e Arábia Saudita tem décadas, mas ganhou novo fôlego após a eleição de Donald Trump. Depois de Barack Obama ter procurado equilibrar a balança no Médio Oriente com uma aproximação ao Irão, o seu sucessor definiu bem cedo que era com os sauditas que queria cooperar na região – sem esquecer, está claro, Israel.

Foi, por isso, em Riad, onde o rei Salman o recebeu com uma festa magnificente, que o Presidente se estreou em visitas de Estado e que se declarou abertamente correligionário da resistência saudita a Teerão.

Grande parte deste plano para dar um novo ímpeto à relação com Riad – que incluiu novo acordo bilionário de venda de armamento norte-americano – teve o dedo de Kushner. O marido de Ivanka Trump foi o seu grande promotor dentro da Administração e em grande medida por causa de MBS.

O conselheiro presidencial tornou-se muito próximo do herdeiro do trono saudita – que no ano passado substituiu o primo Mohamed bin Nayef na linha de sucessão, por decisão do monarca –, ao ponto de falarem várias vezes ao telefone, sem a presença de funcionários da Administração e sem que Kushner apresente registos dessas conversas, e de o norte-americano ter organizado o mais recente périplo de MBS pelos EUA. 

As idades próximas e as posições de destaque nas respectivas máquinas governamentais dos seus países aproximaram-nos nos últimos anos. “Também [Kushner] é um ‘príncipe’ jovem e sedento de poder, sem qualquer currículo ou experiência de governação”, escreve o Washington Post.

A verdade é que Kushner conseguiu convencer Trump a apostar em MBS – contra as advertências de diplomatas, serviços secretos e funcionários da Casa Branca, que o rotulam de “ingénuo”, “inexperiente” e “ambicioso” –, apresentando-o ao Presidente como um líder progressista, moderno, competitivo e vanguardista, e alguém determinado em liderar uma “revolução” económica e social na Arábia Saudita.

Mais do que isso, Kushner apontou MBS como o aliado certo, no lugar certo, para no futuro poder vir a dar aos EUA um papel de destaque na resolução do interminável processo de paz israelo-palestiniano – para o qual o genro de Trump tem o seu próprio plano.

Os EUA fecharam, por isso, os olhos à estratégia de MBS para a consolidação do seu poder, que incluiu a detenção e o afastamento de príncipes, clérigos, jornalistas, intelectuais, ministros, empresários, militares e funcionários públicos, todos eles suspeitos ou acusados de corrupção. Mas a suspeita de envolvimento do príncipe herdeiro no “caso Khashoggi” fez soar os alarmes em Washington, por sugerir que M.B.S. tem carta-branca dos EUA para eliminar opositores.

Segundo o Washington Post, a oposição defende que Trump e Kushner foram demasiado ingénuos em confiar em MBS e que estão a ser manipulados pelo príncipe, que está a valer-se do desinteresse tácito americano para cimentar o seu poder internamente e continuar a desrespeitar os direitos humanos na região. 

Já os defensores do Presidente preferem destacar a abordagem realista da aliança. “Não acho que [Trump e Kushner] tenham sido enganados pelo príncipe. O que quiseram foi definir uma estratégia para o Médio Oriente, na qual um governo que não é perfeito é o elemento-chave para limitar as ambições iranianas na região”, defendeu na CNN o senador republicano Marco Rubio.

Certo é que as suspeitas sobre o desaparecimento de Khashoggi já estão a fazer estremecer a aliança entre a Casa de Saud e a “Casa de Trump”. De regresso de Riad, o secretário de Estado, Mike Pompeo, pediu mais tempo para se conhecerem os resultados das investigações. E após conversa com Trump, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, seguiu o exemplo britânico, holandês e francês, e também já não vai à cimeira de investimento da próxima semana, organizada por MBS.

Sugerir correcção
Ler 1 comentários