Editorial

O efeito Galamba

Quando se nomeia João Galamba, com o seu perfil político combativo, com o seu posicionamento à esquerda do PS e a sua proximidade ao BE, que questiona as “rendas excessivas”, o efeito da queda de Seguro Sanches fica diminuído.

Na sua página de Facebook, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, colocou ontem um post que sintetizava o que muitos pensavam sobre uma das nomeações incluídas na vasta remodelação governamental: “Como estragar uma remodelação. Galamba para a secretaria de Estado da Energia ou... Ministry  of  Silly  Walk”.

O citado “Ministério dos Andares Patetas” (o nome é auto-explicativo) é um sketch dos Monty Python que, supõe-se, serve para sublinhar a ideia que um perfil como o de João Galamba numa pasta como a da Energia tem a sua dose de absurdo. Faltar-lhe-ão, por exemplo, as credenciais técnicas para o lugar. Essa foi a linha crítica seguida por muitos dos críticos da nomeação, acrescentando outros a aversão que a figura lhes suscita por ter nascido para a política activa pela mão de José Sócrates.

De uma coisa António Costa não teria dúvidas ao fazer esta escolha: Galamba serviria de “pára-raios” para concentrar críticas que pudessem sobrevir a estas mudanças. Prova disso é que até o líder do PSD se deixou apanhar na armadilha de se concentrar no particular, ao formular uma crítica que também parece sair de um sketch dos Monty Python, a de se estar a “partidarizar o pasta da Energia”. Como se um Governo devesse ser, de alguma forma, imune ao partido que o suporta.

Mas isto é curto para explicar por que é que o hábil primeiro-ministro decidiu arranjar um problema numa remodelação até aí saudada por quase todos como muito boa. Pode pensar-se que talvez esta fosse uma forma de compensar a facção de Pedro Nuno Santos que, como bem apontou São José Almeida esta terça-feira, não chegou a ministro como pretenderia. Mas por que não lhe dar uma outra pasta qualquer mais consentânea com o seu currículo?

Talvez a explicação não esteja em quem entra, mas em quem sai. Quando um telejornal nacional abre o seu noticiário no dia da maior remodelação ministerial em 17 anos com o foco no secretário de Estado da Energia que sai, alegando que se está perante uma cedência aos lóbis da energia, é fácil perceber a dimensão do problema político criado, principalmente quando o novo ministro da Economia chegou a aconselhar os donos da EDP. Mas quando se nomeia João Galamba, com o seu perfil político combativo, com o seu posicionamento à esquerda do PS e a sua proximidade ao Bloco de Esquerda, que questiona as “rendas excessivas”, o efeito da queda de Seguro Sanches fica diminuído.