Opinião

Montserrat Caballé (1933-2018). Um timbre celestial

Frequentou muito o São Carlos, que tinha sido um teatro importante na sua carreira.

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Monserrat Caballé Reuters/Victor Fraile

A beleza imaculada do timbre, os divinos pianissimi – eis o que distinguiu Monserrat Caballé, muito mais que os dons propriamente interpretativos, além dos evidentes limites da sua presença cénica.

Concluídos os estudos na sua Barcelona natal, “Mons” (como era muitas vezes chamada) fez uma escolha insólita para um cantor espanhol: moveu-se para paragens germânicas, com companhias residentes, primeiro em Basileia e depois em Bremen. Era esse o seu estatuto quando fez propriamente a sua “estreia internacional”… em Lisboa, no São Carlos.

Aqui cantou a Donna Elvira no Don Giovanni de Mozart, em 1960, com a grande vedeta do São Carlos durante anos a fio, Teresa Stich-Randall, e, no papel titular, Eberhard Waechter, então, depois da gravação dirigida por Carlo Maria Giulini, um celebradíssimo Don Giovanni, No ano seguinte voltaria para o papel titular da Ifigénia em Tauride de Gluck.

Mas a passagem para o estrelato ocorreu em 1965 quando, no Carnagie Hall de Nova Iorque, substitui em cima da hora uma indisposta Marilyn Horne na Lucrezia Borgia de Donizetti. E, com isso encontrou o seu reportório de eleição, aquele que mais a fazia distinta: a redescoberta de obras menos conhecidas de Bellini e Donizetti, com incursões em Rossini e em obras pouco representadas de Verdi.

Raridades de Rossini, Donizetti e Verdi, e árias de Bellini e Donizetti (ambos na RCA) permanecem dois recitais de eleição, a que acrescem integrais de óperas como Elisabetta, regina d'Inghilterra e La Donna del Lago de Rossini, Il Pirata de Bellini, a referida Lucrezia Borgia e Gemma de Vergy de Donizetti, ou Il Corsaro, Giovanna d’Arco e Luisa Miller de Verdi — são referências, várias delas sensacionais.

E depois houve uma produção marcante, no Festival de Aix-en-Provence, em 1980: a Semiramide de Rossini com ela, Marilyn Horne e Samuel Ramey. Foi o delírio absoluto sobretudo nos duetos entre as duas – e, por mim um êxtase como poucos!

Claro que “Mons” também praticou reportório mais corrente, da Norma e dos Puritanos de Bellini ao Don Carlo e a Aida de Verdi, mesmo algumas óperas de Puccini e veristas. Muitas vezes foi admirável, mas as suas marcas aí estão longe de ter a importância da sua abordagem de obras menos representadas e raridades. Ainda assim há que dizer que se o canto de amor de Radamés se intitula “O celeste Aida”, Caballé, com a sua beleza vocal, foi a mais celestial das Aidas, na gravação dirigida por Riccardo Muti.

Frequentou muito o São Carlos, que tinha sido um teatro importante na sua carreira, até que em 1972, sendo protagonista da Norma, ficou fula com o sucesso da desconhecida Viorica Cortez no papel de Adalgisa. Enfim, caprichos de diva! O certo é que em Portugal não mais representou uma ópera, apenas voltou para concertos.

Sim, Montserrat Caballé tinha evidentes limites dramáticos, mas, mormente nos divinos pianissimi, foi uma voz celestial.