Morreu Montserrat Caballé, a "grande senhora da ópera"

Recordada como "uma das mais importantes sopranos da história", levou a ópera aos tops da pop, com um dueto com Freddie Mercury.

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Montserrat Caballé morreu este sábado aos 85 anos DR

A cantora espanhola Montserrat Caballé morreu na madrugada deste sábado, aos 85 anos. A soprano estava internada no Hospital Sant Pau de Barcelona, desde Setembro, devido a um problema na vesícula biliar. 

Nascida em 1933, na mesma cidade em que morreu, no seio de uma família modesta, Montserrat Caballé, viu, aos sete anos, a também soprano catalã Mercedes Capsir em Madama Butterfly, de Puccini, e este foi um momento que a marcou e que a ajudou a decidir o rumo da sua vida.

Montserrat Caballé era uma das últimas grandes divas da ópera – mesmo que não gostasse dessa classificação – e um dos nomes mais importantes do género na segunda metade do século XX. Era famosa pela sua cristalina capacidade vocal, com um alcance de mais de duas oitavas, e pela amplitude de estilos que conseguia cobrir. Já tinha pisado palcos antes, mas a sua estreia oficial aconteceu em 1962, no Gran Teatre del Liceu, na sua cidade natal, tendo comemorado as cinco décadas desse evento com uma actuação, no mesmo sítio, em 2012.

Na sua carreira, fez mais de quatro mil apresentações, entre óperas e recitais, e representou mais de 80 papéis em cima dos palcos, algo que continuou a fazer mesmo quando a sua voz começou a ficar um pouco mais frágil. Ainda que tenha anunciado em 2011 que se iria retirar dos palcos dois anos depois, quando comemorasse oito décadas de vida, acabou por nunca deixar de actuar, tendo ainda este ano cantado na Rússia. Também foi uma das intérpretes de ópera mais gravadas de sempre, com mais de 80 discos em seu nome.

A 20 de Abril de 1965, com 32 anos, foi chamada à última hora para interpretar, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, o papel principal numa encenação de Lucrezia Borgia, a ópera de 1833 de Gaetano Donizetti. Apesar de ter tido menos de um mês para aprender o complicado papel e de ter sido a sua primeira incursão público no bel canto, ao fim da primeira ária, o público irrompeu em aplausos que duraram mais de 20 minutos. Alguns dos maiores responsáveis da indústria da ópera estavam na plateia nessa noite, e o impacto foi imediato: a carreira internacional da soprano explodiu instantaneamente. A cantora voltaria a essa sala várias vezes ao longo dos anos que se seguiram.

Donizetti era um compositor para o qual a sua voz era particularmente brindada, tendo-se destacado também em óperas de Giuseppe Verdi ou Giacomo Puccini e Vincenzo Bellini. Apesar do epíteto "La Superba", que lhe era dado pelo mundo da ópera, não se via como uma lenda, como fez questão de dizer em entrevista ao El País em 2014. "Não me considero uma lenda da ópera, nem a última diva, como os jornalistas às vezes escrevem. Cada época tem seus divos e, no meu caso, a única coisa que fiz foi fazer bem o meu trabalho, da melhor forma possível, no mais alto nível."

Ao longo da carreira actuou com alguns dos maiores nomes do canto lírico, mas dizia ter uma relação especial com Pavarotti, Plácido Domingo, José Carreras – especialmente este último. Teve também fortes laços com outras duas célebres cantoras, a norte-americana Marilyn Horne e a australiana Joan Sutherland.

Levou a ópera aos tops da pop com um dueto com Freddie Mercury (o vocalista dos Queen ouvia nela "a melhor voz do mundo"), Barcelona, lançado em 1987, o mesmo ano em que se conheceram, que depois fez parte do alinhamento do álbum que os dois editaram em 1988, também chamado Barcelona. Já após a morte de Mercury, a canção tornou-se o hino não oficial dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Montserrat Caballé actuou na cerimónia de abertura da competição.

O Gran Teatre del Liceu, casa de ópera de Barcelona, onde Caballé se estreou e actuou mais de 200 vezes, descreveu-a como "uma das mais importantes sopranos da história”. Também passou, em recitais ou óperas, por salas como o Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, a Metropolitan Opera, em Nova Iorque, o La Scala, em Milão, ou o Covent Garden, em Londres.

A família real espanhola classificou-a como “a grande senhora da ópera, uma lenda da cultura universal, a melhor entre os melhores”.

“A sua personalidade e voz única estarão sempre connosco. Lamentamos muito a sua perda”, afirmou a casa real de Espanha no Twitter.

Com Pedro Rios