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O mundo hoje

Valemos mais como consumidores do que como cidadãos?

O poder crescente dos monopólios é “a maior ameaça às democracias”. As alterações climáticas são “o maior acontecimento da história da humanidade”. E, no entanto, agimos como se esta ainda não fosse a nossa realidade. Economistas e ambientalistas reunidos no encontro da Slow Food deixaram um aviso: o futuro já é aqui.

Sabem aquele momento no início de uma intervenção numa conferência em que o orador lança algumas generalidades, preparando o terreno para o que vai dizer mais à frente? Esqueçam. Barry Lynn não tem tempo para isso. A situação é, acredita ele, demasiado grave.

“Hoje, nos Estados Unidos e pelo mundo, enfrentamos a maior ameaça às nossas democracias desde o fim da II Guerra na Europa e desde o fim da Guerra Civil nos EUA”. E isto, sublinha, é apenas “para começar [esta intervenção] com a nota certa”.

Estamos no Terra Madre – Salone del Gusto, o encontro do movimento Slow Food que se realiza de dois em dois anos em Turim (e que este ano aconteceu entre 20 e 24 de Setembro), e Barry Lynn, antigo jornalista e fundador do Open Markets Institute, é, juntamente com o economista também norte-americano John Ikerd, orador na conferência intitulada Apenas Lucro ou Sustentabilidade? Comparando Modelos para a Economia de Amanhã.

E de onde vem a ameaça de que fala Lynn? “Vem da concentração de poder económico e do controlo”, algo sobre o qual “não falamos nas nossas sociedades”. O problema, segundo o analista, é que “foi-nos dito por pessoas como o Presidente Clinton, o Presidente Obama, [o antigo primeiro-ministro britânico] Tony Blair, que tudo estava bem, que íamos viver numa utopia e que o mundo ia ser pacífico e próspero para todo o sempre”.

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Mas, prossegue Lynn, “enquanto nos diziam isto, estavam a destruir todas as leis que tínhamos criado nas nossas sociedades e que nos EUA datam de 1776 [Guerra da Independência], da revolução feita precisamente contra os monopólios”.

E aqui chega ao ponto central daquela que nos últimos anos tem sido a sua luta: “Se se permitir que exista o poder do monopólio, não existe liberdade, não existe democracia. Ao longo de 200 anos nos EUA lutámos contra os monopólios, e há 35, 40 anos, discretamente, sem dizerem nada, estou a falar da era de Reagan e Thatcher, mudaram as regras e disseram que em vez de as usar para combater os monopólios e proteger a democracia, iam promover a eficiência e que isso era bom para o consumidor.”

O que “eles” decidiram, continua Lynn, foi que, em vez de nos protegerem como cidadãos iriam proteger-nos como consumidores, e disseram “vocês, como consumidores, querem mais coisas e coisas mais baratas”. O problema é que “vivemos num mundo que tem um problema: estamos a consumir recursos a um ritmo que é insustentável”.

Quando fala dos que “mudaram as regras”, Lynn está a referir-se à Escola de Chicago, o grupo de economistas que nos anos 70 reinterpretaram as leis anti-monopólio, considerando que estas deviam proteger apenas o “bem-estar do consumidor” e defendendo que se uma fusão não levasse a uma subida de preços não havia razão para a bloquear. No entender de Lynn, esta visão levou à situação em que se encontram hoje os EUA, com uma extraordinária concentração de poder nas mãos de algumas, gigantescas, empresas.

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Barry Lynn: "Se se permitir que exista o poder do monopólio, não existe liberdade, não existe democracia" Creative Commons

Um “casamento feito no inferno”

Um dos exemplos no universo agro-alimentar é o da Monsanto, a empresa produtora de agro-químicos e de sementes geneticamente modificadas e que este ano foi comprada pela farmacêutica alemã Bayer – perdendo o nome Monsanto no processo – num “casamento feito no inferno”, como lhe chamaram os críticos, que dá origem à maior e mais poderosa empresa mundial do agronegócio.

Outro exemplo dado por Lynn é o da brasileira JBS, “a maior produtora de gado do mundo” (vaca, galinha e porco). “Os brasileiros, depois de terem visto o que aconteceu ao México, decidiram ter uma abordagem diferente e o Governo deu dinheiro aos banqueiros para poderem comprar uma data de coisas e garantir que não seriam destruídos da forma que o México foi.”

O que isto significa, explica o analista, é que uma grande parte da produção de alimentos nos EUA está hoje nas mãos de banqueiros do Brasil. “Os americanos pensam que os brasileiros não são uma ameaça porque não têm um grande Exército ou Marinha e não são um rival estratégico como os chineses. Mas o facto é que os nossos sistemas alimentares estão a ser geridos por um conjunto de banqueiros brasileiros. Estamos a assistir a uma tomada de consciência, mas temos que ter cuidado porque o que Trump e a sua Administração estão a tentar é fazer com que as pessoas se sintam zangadas com isto e queiram fechar as fronteiras.”

A fusão Monsanto/Bayer é apenas um dos mais recentes casos da concentração de poder em monopólios que “se tornou particularmente má com a Google, o Facebook e a Amazon”. Há um antes e um depois, segundo Lynn. “As anteriores corporações faziam dinheiro e iam comprar os nossos políticos e os nossos governos. O Google, o Facebook e a Amazon controlam o fluxo de informação entre cidadão e cidadão. Os jornalistas e editores das publicações nas quais acreditamos dependem do Google, do Facebook para poderem difundir as suas notícias e para terem alguma publicidade que lhes permita pagar as contas. O Google e o Facebook deixaram os repórteres e editores do nosso mundo com medo porque podem calá-los de um momento para o outro.”

Lynn sabe do que fala: ele próprio foi forçado a sair, com o Open Markets Program, da New American Foundation, o think thank ao qual pertencia e que é financiado em parte pelo Google depois de ter elogiado a aplicação de uma multa a este gigante por parte da União Europeia. Após a saída fundou, com outros jornalistas e investigadores, o Open Markets Institute, que se apresenta como uma organização sem fins lucrativos destinada a “proteger a liberdade e a democracia das extremas – e crescentes – concentrações de poder privado”.

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Investigação co geneticamente modificado, na sede da Monsanto em St. Louis, Missouri, EUA BRENT STIRTON/GETTY IMAGES

Transformar este debate numa crítica ao capitalismo não é o que pretende Barry Lynn – “nós queremos fazer a revolução mas não somos os radicais, somos os conservadores, estamos ao lado dos grandes conservadores do passado, pelos equilíbrios que funcionam”, diz – nem é o que pretende o outro orador desta conferência, o economista John Ikerd.

“O capitalismo é dado como culpado de muitos dos problemas que temos hoje em relação à forma como a nossa democracia funciona. Mas eu diria que não temos nem capitalismo nem democracia”, prossegue Ikerd. “O que temos é corporativismo em vez de capitalismo e hipocrisia em vez de democracia.”

Para que os mercados funcionem, são necessárias algumas condições, uma das quais é “um grande número de vendedores e compradores, de maneira a que nenhum deles tenha um impacto significativo no mercado”. Se isso não acontecer, corre-se o risco de haver um controlo do mercado. Ou seja, é essencial que exista concorrência. E é precisamente isso que está ameaçado pelo crescimento dos monopólios, explica. “Não temos essas condições hoje porque o nosso Governo falhou numa das suas principais responsabilidades, que é a de manter a competitividade dos mercados.”

Actualmente, não existe nada que impeça a economia de extrair os recursos humanos e naturais que deveriam garantir a sustentabilidade do sistema, argumenta. “É isto que está a destruir a sustentabilidade da agricultura. […] Há muitas pessoas, nos EUA e no mundo, hoje, que não têm comida suficiente ou que estão a ficar doentes por causa do que comem, e isso porque estamos a fazer o que é lucrativo em vez de fazermos o que é essencial para o futuro e o presente.”

A visão de Ikerd não é muito distante da de Lynn. Num artigo recentemente publicado no Journal of Agriculture, Food Systems and Community Development, intitulado, A Batalha pelo Futuro da Alimentação, afirma que “estamos em plena batalha pelo futuro dos nossos sistemas alimentares”. Não vale a pena continuar em negação, frisa, porque “o chamado sistema alimentar moderno não é sustentável durante muito mais tempo”.

A própria indústria agro-alimentar já percebeu isso, diz Ikerd, e o que se desenha no horizonte são dois modelos que lutam por se impor. Um é o que quer “corrigir” o sistema actual por medo de “perder a sua posição dominante”. “Todas as grandes empresas agro-alimentares actualmente incluem a sustentabilidade nas declarações sobre a sua missão e lançam um relatório anual de sustentabilidade para convencer os seus investidores e clientes”. O que está a acontecer é uma “campanha de relações públicas multimilionária para tentar reconquistar a confiança”. Tudo isto baseado numa “grande falácia” que é a de que “não podemos alimentar o mundo sem a agricultura industrial”.

O sistema alternativo, defendido por Ikerd, é o da agro-ecologia, que, argumenta o economista, não tenta “separar a produção de alimentos da natureza” (sementes resistentes ao clima, por exemplo) mas aplicar métodos sustentáveis e ecológicos.

Calcula-se que a agricultura que está a ser feita actualmente seja responsável por cerca de 15% de emissões de gases com efeito de estufa, mais ou menos o mesmo que os transportes. Ikerd lança um alerta: “Está a esgotar-se o tempo para mudar o sistema alimentar americano antes que ele destrua o sistema alimentar do mundo.”

Em negação

As mudanças climáticas atravessaram o debate, mas não eram o tema da conferência – sobre elas houve, no Salão Terra Madre da Slow Food, uma outra conferência, com o escritor Amitav Ghosh e a activista ambientalista Sunita Narain. E também aí o tom foi de urgência perante o desastre que, segundo ambos, não está iminente – já aqui está.

“As alterações climáticas são o maior acontecimento da história da Humanidade. Como espécie, nunca enfrentámos nada assim”, afirmou Amitav Ghosh, cujo último romance, The Great Derangement – Climate Change and the Unthinkable, pergunta precisamente porque é que continuamos em negação perante uma coisa que é já evidente.

Sunita Narain tornou-se ambientalista no início dos anos 90. “Quando iniciámos esta discussão, tudo parecia ainda tão distante. Agora sinto que está a chegar. O normal de hoje é um normal muito diferente.” E entra-nos pelos olhos – e pelas cidades e campos – dentro. No estado indiano de Kerala, as mais recentes chuvas “não provocaram uma inundação, “provocaram um dilúvio”, afirma a ambientalista indiana Sunita Narain. “O estado, que é um dos mais desenvolvidos da Índia, ficou totalmente debaixo de água”. Em sete dias caiu a mesma quantidade de água que cai durante um ano inteiro em Itália. “O custo da reconstrução é imenso, temos que começar do zero.”

E, no entanto, ainda não há uma verdadeira consciência de que o desastre chegou. Isso deixa Amitav Ghosh estupefacto: “O tema não tem o espaço que devia no debate público. Há dificuldade em falar sobre o fenómeno.” Por isso escreveu o seu mais recente livro, optando desta vez pela não-ficção, para perguntar: “Como é que não vemos o muro contra o qual a humanidade está a embater?”. 

Sobre The Great Derangement, escreve o crítico Alexandre Leskanich: “Tal como em Huis Clos [de Jean-Paul Sartre, em que três condenados, no inferno, têm a eternidade para pensar nos seus pecados] somos forçados a transformar-nos nos guardiões da nossa própria prisão e de um futuro vazio. Sem objectivos éticos, o futuro está entregue aos caprichos do mercado e ao niilismo do crescimento económico.” Partindo da análise da literatura, da história e da política, Ghosh revela os “limites do pensamento e da linguagem contemporâneos” e a consequente “frustração do poder cognitivo humano sobre um mundo que julgávamos conhecer”.

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Sunita Narain: "O normal de hoje é um normal muito diferente." DR

Sim, os fenómenos extremos são os mais espectaculares, mas para o escritor não são os mais assustadores. “A violência lenta é a que mais assusta, fenómenos como a seca duradoura, que leva milhares a deixar certas zonas.”

Mas se Ghosh parece à beira da desistência, Sunita Narain acredita que é (ainda) o tempo de agir. “Se ficamos demasiado assustados tornamo-nos impotentes. Não podemos desistir.” Na Europa e na Ásia, diz a activista, “a conversa já começou a mudar", embora nos EUA “sejam precisos muito mais furacões para que isso aconteça”.

Politicamente, como podemos enfrentar esta crise? Há, pergunta o moderador do debate, Roberto Giovannini do jornal italiano La Stampa, uma via democrática e liberal na luta contra as alterações climáticas? “Foi o poder que nos trouxe os problemas, não é o poder que nos vai tirar deles”, responde Sunita.

As alterações climáticas estão a tornar-se também uma luta de classes – e, eventualmente, uma guerra entre países. “Existe um ambientalismo dos ricos e um ambientalismo dos pobres”, explica a activista. O dos “ricos” passa por uma “gestão do lixo”, que nos deixa constantemente atrasados porque “cada nova solução cria um novo problema”. O dos “pobres” acontece quando “as pessoas assumem a palavra” – é isso que, segundo Sunita, começa a acontecer na Índia, onde “os pobres de Deli estão a dizer ‘no meu quintal, não!’, e isso deixa os ricos a perguntar ‘que quintal vamos agora encontrar?’”.

Perante o agravamento da situação, quem tem dinheiro (sejam indivíduos ou países) vai tentar descobrir uma forma de escapar, afirma. Ao seu Centro para a Ciência e o Ambiente, em Deli, chegam pessoas perguntando se devem comprar filtros para tornar o ar mais respirável (“sim, mas mesmo assim mais cedo ou mais tarde terá que respirar o ar”, responde-lhes ela) ou se devem simplesmente ir para outro lado.

Mas não há para onde fugir, diz Sunita. “As mudanças climáticas tornam-nos todos iguais. Ricos e pobres são igualmente afectados. Isto é um assunto sem classes. Os ricos acham que não serão afectados, mas serão.” Aparentemente, os países mais poderosos sentem que ainda há tempo para fazer valer esse poder.

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John Ikerd: “[No mundo actual] O que temos é corporativismo em vez de capitalismo e hipocrisia em vez de democracia” REUTERS/Sivaram V.

Um dos aspectos mais visíveis desse jogo de forças é o outsourcing do lixo para os países mais pobres, mas também a deslocalização da produção – é fácil, lembra Sunita, baixar as emissões de gases poluentes quando se transfere a produção para a China. Na assistência, alguém pede para fazer uma pergunta – é um queniano que quer saber porque é tão difícil para um país como o dele ter “um lugar à mesa” no debate sobre alterações climáticas. Porque para isso é preciso ser um grande poluidor, responde Sunita. “A China garante que as suas emissões hoje são equivalentes às americanas e assim torna-se parte do clube. Para nos sentarmos à mesa, precisamos não apenas de vestir um fato, mas de sermos grandes poluidores.”

Por outro lado, o mundo está unido pelo comércio. Voltamos por um instante à conferência sobre economia para ouvir Barry Lynn responder a uma mulher que na audiência fala da falta de água para a agricultura na Califórnia. “Porque é que produzimos arroz e alfafa na Califórnia?”, pergunta Lynn. “Para vender à China. É isso que acontece à sua água – está a ser exportada para a China sob a forma de alfafa.”

O mundo começa a compreender que “somos um único planeta”, argumenta Sunita. Mas isso não significa que não haja sinais cada vez mais preocupantes. Cabe a Amitav Ghosh a nota mais pessimista perante um mundo em que, ironiza, o Governo indiano anuncia que vai construir 100 aeroportos eco-friendly (“o que raio são aeroportos eco-friendly?”).

“O único índex que tem aumentado tão rapidamente como as emissões de gases com efeito de estufa é o dos gastos com a defesa”, declara Ghosh. “E a guerra das mudanças climáticas vai acontecer no Oceano Índico, que é actualmente a zona mais militarizada do planeta. Os ‘homens dos fatos’ estão a preparar-se para o mundo do futuro armando-se até aos dentes.”