"A prevenção dos incêndios requer um apoio político constante"

Pedro Palheiro, engenheiro florestal, coordena o uso de fogo controlado na floresta pública no oeste australiano. Diz que Portugal tem que criar zonas estratégicas para combater os incêndios, com acções de prevenção. De outra forma, só poderemos esperar que se tornem mais difíceis de controlar.

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Nuno Ferreira Santos

A roda está inventada. E o que Pedro Palheiro pode sugerir para a prevenção e o combate a incêndios em Portugal já se ouviu dele próprio e de outros engenheiros florestais portugueses especialistas em fogos rurais. Repete há anos que Portugal depende demasiado da água no combate aos incêndios. E que é preciso criar zonas estratégicas, com técnicas de fogo controlado e máquinas de rasto, onde se tenha oportunidade de fazer frente às chamas. Para isso, o país não tem de inventar nada, acredita: “Existe cá um grande conhecimento técnico que pode ser aproveitado.”

Coordenador da equipa de Fogo Controlado do Serviço de Parques e Vida Selvagem da região de Pilbara, no Oeste australiano, Pedro Palheiro integrou o grupo de peritos internacionais que, durante um mês, participaram num intercâmbio de cooperação técnico-profissional com agências portuguesas, a convite da Estrutura de Missão para a Gestão de Fogos Rurais.

Defendeu o uso do fogo controlado como medida de prevenção, útil para “treino de operacionais para o Verão e reduzir a carga combustível da vegetação em locais estratégicos”. Demonstrou como a sua equipa constrói aceiros minerais — faixas desbastadas — com máquinas de rasto. Tecendo, aliás, a tese de que o país tem oportunidade de usar maquinaria de rasto e ferramentas manuais para impedir a propagação das chamas e não apenas em fase de rescaldo, como acontece, explicou ao PÚBLICO esta semana.

Num departamento equivalente ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, Pedro Palheiro é responsável pelo planeamento, pela implementação de fogos controlados e pelo combate aos incêndios nas florestas do Estado australiano, cerca de 60% das áreas florestais. Gere uma área maior do que Portugal, e essa experiência permite-lhe deixar um ponto assente: “Portugal tem de criar oportunidades de combate em zonas estratégicas, através da prevenção. Já vimos ao longo dos anos que ter um sistema quase dependente do ataque ao fogo com meios tradicionais não está a resultar.”

Há que gerir o fogo na floresta, sublinha. A protecção de pessoas e bens, sendo “sempre uma prioridade”, não deve invalidar a existência de equipas que “tenham uma visão macro” do incêndio. “Senão, vamos ter um efeito bola de neve: o incêndio afecta casas, mais casas e mais casas e continuamos sempre atrás do problema em vez de estarmos à frente dele.”

Para isso, a coordenação da prevenção estrutural, prevenção operacional e combate — actualmente tripartida — não pode ser separada. “O que acontece em Portugal neste momento é que temos a supressão muito dissociada da prevenção. Isso faz com que os operacionais que estão a trabalhar os incêndios, em muitas situações, nem sequer saibam onde é que a prevenção foi feita”, reitera o engenheiro florestal. Não conhecem as áreas que foram tratadas, onde o fogo é mais facilmente controlado e há “oportunidade de combate”.

É nesta sequência que Pedro Palheiro rejeita colocar a culpa no eucalipto ou em qualquer espécie, de forma isolada. “Sejam eucaliptais, montados de sobro, pinhais bravos, medronhais... Áreas que têm uma acumulação de vegetação debaixo da copa das árvores, que têm acumulação de combustíveis, que não estejam bem geridas vão ter um comportamento de fogo sempre para lá do nosso alcance.”

Um mês de reuniões

Tanto na Austrália como em Portugal, Pedro Palheiro viu o desinvestimento na prevenção cair em anos em que há pouca área ardida. O Grupo de Análise e Uso do Fogo (GAUF), onde foi chefe de equipa, criado na sequência dos grandes incêndios de 2003 e 2005, entrou num ciclo de desinvestimento por volta de 2010. 

Está, entretanto, praticamente extinto. “Qualquer programa de prevenção — e a utilização de fogo controlado não é diferente — não é feito para mostrar resultados no imediato. Pode demorar cinco, dez anos a começarem a surtir efeito.” É uma das “missões ingratas da prevenção”, diz. “É um trabalho contínuo que requer um apoio político constante.”

Os técnicos do GAUF planeavam e implementavam fogos controlados, o que os “obrigava a envolver diversas entidades” na prevenção durante o Inverno. “Acabávamos por treinar todos em conjunto, o que facilitava alguns dos trabalhos no Verão.” Nessa altura, davam apoio operacional aos comandantes de operações nos fogos mais complicados e apoiavam em manobras de uso do fogo.

A possibilidade de sair do país e evoluir na carreira surgiu-lhe no momento de abrandamento do trabalho do GAUF. “Uma vez que queria continuar a trabalhar nesta área, acabei por agarrar a oferta”, conta.

No Oeste australiano teve oportunidade de quantificar os efeitos do desinvestimento: “Depois de muitos anos de trabalho activo com fogos controlados, começou-se a questionar em termos políticos o motivo pelo qual necessitavam de continuar, porque os incêndios praticamente não tinham expressão.” E com o “abrandamento da área tratada com fogo controlado houve uma tendência gradual para aumento da área ardida”, diz Pedro Palheiro.

Isto explica-se pelo facto de os trabalhos de gestão de combustíveis e de combate com fogo controlado criarem mosaicos na paisagem, com diferentes idades de vegetação. Um processo gradual e lento, em que o “abrandamento nas áreas ardidas é um resultado acumulado destas acções”. Quando é interrompido, o efeito também não é imediato. “Mas a partir de um determinado número de anos voltamos quase à situação inicial”, diz o engenheiro florestal.

Depois de um mês de reuniões em Portugal com militares do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) da GNR, comandantes de operações distritais da Protecção Civil, membros da Força Especial de Bombeiros e das Forças Armadas, Pedro Palheiro volta para a Austrália com duas certezas. A primeira: “Existe um grande conhecimento técnico no país, que pode ser aproveitado para pôr em prática acções de prevenção e de combate, de larga escala, pelo país todo.” A segunda: num quadro de alterações climáticas, “sem uma prevenção activa, sem criação de zonas estratégicas onde possamos ter uma oportunidade para os combater, só poderemos esperar que os incêndios se tornem mais difíceis de controlar”.