Rio exige rapidez ao Ministério Público para investigar Tancos

Líder do PSD criticou “degradação” da saúde e dos transportes bem como a gestão da TAP.

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“Renunciem a uma prática que é o tacticismo", disse Rio NUNO VEIGA/Lusa

O líder do PSD foi à Universidade de Verão do partido para incentivar os jovens a serem “politicamente incorrectos” e aproveitou para ele próprio dar um sinal dessa irreverência: pediu uma investigação judicial rápida e uma "acusação correcta" sobre Tancos depois de acusar o Governo de ser “incapaz” de esclarecer o que aconteceu com o desaparecimento de material militar.

“Temos de saber se o material foi roubado e desapareceu. O país também tem de exigir que faça essa investigação rapidamente. Há coisas mais complicadas do que isto de investigar. Já vai para lá do tempo, eu não disse tudo o que sei. Não há meio de vir a público a acusação correcta, que deve ser feita para que o país saiba da irresponsabilidade política, para responsabilizar quem verdadeiramente fez o que fez e quem está por trás de tudo isso”, disse Rui Rio, num recado ao Ministério Público.

O líder social-democrata referiu que se instalou uma “guerra” entre a Polícia Judiciária Militar e a Polícia Judiciária. Sobre a responsabilidade política, Rio não tem dúvidas: “O Governo foi incapaz e não deu respostas. É incapaz nesta matéria. Ponto final parágrafo. Podemos continuar a perguntar e devemos mas eles não vão responder porque não sabem.”

Ao apontar o dedo à investigação judicial, Rio assumiu ser politicamente incorrecto e desafiou os jovens que frequentaram esta iniciativa de formação, em Castelo de Vide, a entrarem para a política com frontalidade. Num discurso que foi, em parte, uma aula sobre a forma de estar em política e de fazer oposição, o líder do PSD referiu que “o politicamente correcto que é o mediaticamente correcto” mas avisou para os riscos de “seguir a agenda dos grandes meios de comunicação”. É que os dois têm objectivos contrários: “Na política estamos ao serviço do serviço público. Na comunicação social estão ao serviço do lucro e das vendas. Não são conciliáveis, às vezes. É fruto da minha experiência”. Por isso, Rio deixou um desafio aos jovens: “Venham para a política, mas venham assim [frontais e ao serviço do serviço público] se não vêem estragados e fazem pior”.

Num tom implícito de auto-justificação, o líder do PSD criticou a “forma clássica de fazer oposição” que é “criticar “tudo o que vem dos outros”. A sociedade “não entende” nem quem “está fechado no Parlamento” ou na “comunicação social”, argumenta Rui Rio que se quer diferenciar ao dizer que “não querem que seja contra os outros”, mas que o seu objectivo é ser a “favor do país”. Se para atingir essa meta for necessário ser contra, é “contra”, mas se for necessário também é a “favor”. Um recado para os críticos internos que não gostam da aproximação do PSD ao PS. A receita aplica-se às reformas estruturais para o país que o líder do PSD acredita nunca se poderem fazer só com um partido (mesmo que tenha maioria no Parlamento) por causa da força que imprimem a essas alterações e da alternância no poder. “Deixem a espuma dos dias. Se queremos que o país tenha uma reforma da justiça, e se for contra os outros, o país não terá. Isto é correcto?”, questionou, recusando-se a adiantar propostas concretas nesta área. “Se digo as ideias, começam logo a criticar, e os outros começam a dizer que não querem”, disse, deixando antever apenas dois princípios gerais de uma reforma na justiça: “mais eficácia e transparência”.

Além do incentivo à natalidade, em que o PSD já apresentou uma proposta, o líder social-democrata defendeu a necessidade de uma reforma na Segurança Social que “perdure no tempo”.

Num exercício de humor, Rio disse antever o que diriam os comentadores sobre o discurso de domingo, apontando a falha em não propor medidas como a baixa de impostos e aumentar as pensões. “'Ele não percebe nada disto. Assim não vamos lá, nas sondagens não descola’”, disse, provocando risos na sala e palmas. Depois o líder do PSD disse então que passaria às críticas ao Governo. Falou da falta de “estratégia” do Governo para o crescimento económico e apelou a outras entidades por causa do endividamento das famílias. “A banca tem de aprender com os erros mas tenho dúvidas. Espero que o Banco de Portugal esteja atento a estes indicadores”, afirmou. Ainda assim, apesar de prever uma degradação dos indicadores económicos, Rui Rio acredita que a população não vai sentir na pele nas próximas legislativas. O mesmo já não diz da “degradação” dos serviços públicos como a saúde e os transportes. A forma como o Governo está a gerir a TAP foi também criticada. “Porque é que não põe a TAP a funcionar como deve de ser? Como é uma viagem da Madeira para o continente é mais cara do que para ir a Berlim e Paris?”, questionou, dizendo que há uma razão para isso, que “não é bonita e entra nos bolsos de todos nós”, mas não a revelou.

No remate final do discurso, Rio voltou a dirigir-se directamente aos jovens da Universidade de Verão do PSD para dar o mesmo recado que tem lançado aos críticos, mas desta vez sem os referir: “Renunciem a uma prática que é o tacticismo: concordem e discordem de forma séria e genuína. E não pela estratégia pessoal”.

JSD apoia Marques Vidal

Momentos antes do discurso de Rui Rio, a líder da JSD Margarida Balseiro Lopes defendeu a recondução de Joana Marques Vidal como Procuradora-Geral da República. “Nos últimos anos, deixaram de haver intocáveis, acabou o sentimento de impunidade em Portugal. E isso muito se deve a Joana Marques Vidal. É, por isso, que a actual Procuradora-Geral da República deve ser reconduzida”, afirmou. Margarida Balseiro Lopes é assim mais uma voz social-democrata, depois do secretário-geral do partido, ainda que a título pessoal, e do eurodeputado Paulo Rangel, a defender a continuidade da Procuradora-Geral da República. Já Rui Rio não quer falar sobre o assunto antes de o primeiro-ministro e do Presidente da República o colocarem em cima da mesa. O líder do PSD já criticou mesmo a “partidarização” da questão.

A líder da JSD criticou a proposta do Governo de reduzir para metade o IRS dos emigrantes que pretendam regressar. “É por isso que vos digo: esta medida é demagógica, eleitoralista e ineficaz. Demagógica porque insinua que a emigração começou e acabou no anterior governo; eleitoralista porque só chega em ano de eleições; e ineficaz porque, por si só, não trará ninguém de volta a Portugal”, apontou. Margarida Balseiro Lopes partilhou ainda o exemplo de um jovem emigrante na Venezuela, que acabou por ser perseguido pelo regime de Maduro, para criticar a intervenção do primeiro-ministro sobre aquele país. “Eu não quero confundir emigrantes com refugiados, mas quero muito claramente dizer que o Governo de António Costa está a cometer um duplo erro para com muitos jovens portugueses a viver fora do país. Está a tratar de forma incompetente os que saíram e querem voltar. E está a ignorar de forma cobarde estes que não têm outra hipótese que não voltar”, afirmou.