Editorial

O mundo paralelo do futebol começa a ruir

A sociedade anónima desportiva do Benfica e um dos seus altos funcionários foram nesta quarta-feira acusados de corrupção, favorecimento pessoal, peculato e falsidade informática, entre outros crimes. Depois de se conhecerem os factos que sustentam a acusação do Ministério Público é obrigatório retirar a questão do campo minado da paixão clubística e situá-la num lugar bem mais importante para a vida colectiva: no plano do estado de direito. Quando, como diz a acusação, uma organização se infiltra no coração da máquina judiciária para daí obter informações sensíveis, antecipar as diligências em processos que envolvem os alegados mandantes ou para coagir ou chantagear os seus adversários, o futebol, o campeonato ou o amor à camisola tornam-se encenações patéticas.

Sobra assim a insuportável sensação de que à custa dessa paixão se foi urdindo uma máquina de poder perversa que age nos subterrâneos (por uma vez, o nome do processo, E-toupeira, faz sentido) para satisfazer os seus fins. E não se pode dizer que os comportamentos atribuídos ao Benfica, nos quais se combina a crença na sua inimputabilidade e a arrogância de que é um poder suficientemente forte e com suficientes adeptos para desafiar a lei, não podiam ser previstos há muito. Podiam e deviam. Há muito tempo que a lógica do futebol temperada pelo ódio entre os grandes clubes e alimentada pelos negócios milionários de patrocínios e transferências sugeria que o futebol se estava a instituir como um poder paralelo, com força para desafiar os poderes admitidos e enquadrados na lei. O E-toupeira é a prova desse delírio.

Mas a acusação à SAD do Benfica pode também ser o prenúncio de que esse caminho está condenado. O despacho é simultaneamente deprimente e esperançoso. Deprimente porque nos confronta com a fragilidade de um sistema judicial perante um poder organizado, que consegue usar dois mangas-de-alpaca para aceder a informação em segredo de justiça; mas esperançoso porque o sistema foi capaz de reagir e, mais importante, de mostrar ao futebol que não há lugar para organizações que alicerçam o seu poder em práticas alegadamente criminosas. O Benfica está na linha da frente do castigo, mas será conveniente que os outros grandes aprendam. E mudem.