Opinião

Aliança: divorciar à direita para casar à esquerda?

Em termos ideológicos, aquilo que o Aliança vem acrescentar ao sistema político é zero. Há mais divergências ideológicas dentro do PS do que aquelas que irão existir entre o PSD de Rui Rio e o Aliança de Pedro Santana Lopes.

Eu não votaria em Pedro Santana Lopes nem para delegado de turma, mas isso não significa que a sua intuição política deva ser desvalorizada. Santana foi esperto: esta era a altura certa para criar um novo partido à direita, aproveitando o descontentamento que reina no PSD, a apatia do CDS e a dificuldade que o PS sempre terá em chegar à maioria absoluta. Imaginem que António Costa fica a dois ou três deputados dos 116 e que o novo partido de Santana Lopes tem esses dois ou três deputados — de repente, o novo Aliança pode conseguir um protagonismo, e um poder, que jamais alcançaria noutra conjuntura política. Era agora ou nunca.

Dir-me-ão: se é para casar com António Costa, o que não falta são pretendentes. Desde logo, Rui Rio. Certo. Mas isso é pressupor que a formação do Aliança se justifica por razões ideológicas, e que Santana só decidiu avançar porque havia uma bonita horta da direita portuguesa que Rio tem deixado ao abandono. Não é nada disso. É tudo, e só, uma questão de influência e acesso ao poder, porque é precisamente a isso que está reduzida a mansa política portuguesa pós-Passos. Em termos ideológicos, aquilo que o Aliança vem acrescentar ao sistema político é zero. Há mais divergências ideológicas dentro do PS do que aquelas que irão existir entre o PSD de Rui Rio e o Aliança de Pedro Santana Lopes.

Leram a descrição do “espaço político” que o partido quer ocupar, segundo o Expresso? É o banalíssimo espaço do centro-direita português, onde cabe tudo aquilo que lá se queira enfiar, e que vai do CDS à direita do PS. O Aliança diz que vai ser “um partido personalista, liberalista e solidário”, o que significa coisa nenhuma. “Europeísta, mas sem dogmas”, o que dá para tudo. Disposto a enfrentar “a agenda moral da extrema-esquerda”, o que é banal como um bocejo. Preocupado com a “cultura”, a “inovação”, a “justiça”, a “desertificação” e o “mar” (juro). E, sobretudo — vade retro! — um partido desejoso de “evitar rótulos e preconceitos ideológicos infundados”. É típico cozido à portuguesa. Tudo para dentro da panela. Onde a cada momento soprar o vento, lá estará Santana Lopes a largar as velas.

Poupem-me, já agora, a comparações com o movimento que levou Macron ao Eliseu ou com o papel do Ciudadanos. Esses deram uma resposta inovadora a sistemas políticos em desagregação acelerada, e a sua mais-valia foi a apresentação de caras novas em regimes velhos. Ora, se Santana Lopes é uma cara nova, eu sou o Lourenço Ortigão. Ideologicamente falando, Santana não tem nada para oferecer, e é até ridículo a Iniciativa Liberal estar a acusá-lo de roubar as suas ideias. Santana nunca foi, e nunca será, um liberal — e até já deixou claro que o seu novo partido será conservador nos costumes.

Aquilo que Santana tem, e pode ser proveitoso para certos descontentes do PSD que vão ficar fora das listas de Rio, é capacidade discursiva, reconhecimento público, palco mediático e tarimba política — e isso significa capacidade de colocar deputados em São Bento, que é mais do que qualquer novo partido tem para oferecer. Note-se ainda que há vários movimentos independentes pelo país surgidos via autárquicas (Rui Moreira, desde logo), e que se Santana conseguir agregar esses movimentos pode alcançar resultados surpreendentes fora de Lisboa. O momento era mesmo este — e Santana intuiu isso bem. Mas ponham de lado as reflexões ideológicas, se faz favor. É de poder puro e simples que estamos a falar.