Afinal Marine Le Pen já não consta da lista de oradores

Depois de muitas críticas, a organização da Web Summit decidiu mesmo retirar Le Pen da lista de oradores convidados.

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O empreededor irlandês tinha defendido o convite a Le Pen, mas diz agora ter percebido que errou Nuno Ferreira Santos

O representante da Web Summit anunciou nesta quarta-feira que iria retirar o convite à líder da Frente Nacional francesa Marine Le Pen. A decisão foi comunicada por Paddy Cosgrave depois de o Governo português ter dito que não iria intervir na escolha dos oradores da conferência que se realiza em Lisboa, apesar da onda de críticas gerada contra a presença da política francesa, quer por parte de políticos portugueses, quer por parte de organizações anti-racismo. O nome de Le Pen já foi retirado do site do evento.

"É claro para mim agora que a decisão correcta para a Web Summit é retirar o convite a Marine Le Pen", anunciou o representante do evento, Paddy Cosgrave, através de uma publicação no seu Twitter.

A decisão da organização reflecte "os conselhos que a organização recebeu" e "a enorme reacção online" em relação à presença da política francesa entre os oradores do evento, explicou Cosgrave. "A sua presença é desrespeitosa, em particular para com o país que acolhe o evento", considera agora o representante da conferência. "[A presença de Le Pen] É também desrespeitosa para algumas das dezenas de milhares de participantes de todo o mundo que se irão juntar a nós", acrescentou.

No entanto, já antes deste cancelamento — que parece agora definitivo —, o nome da oradora desapareceu da lista de oradores durante o fim-de-semana, sem que fossem dados esclarecimentos. Voltou a reaparecer na segunda-feira, reacendendo a controvérsia em torno da sua presença.

Em causa, contextualiza o criador do evento, estão as políticas e discurso defendido pela representante de extrema-direita francesa. "O problema do ódio, da liberdade de expressão e das plataformas tecnológicas são algumas dos desafios de 2018. Vamos duplicar os nossos esforços para abordar estes problemas com maior cuidado na Web Summit", garantiu.

PÚBLICO -
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O discurso nacionalista e ideias políticas da líder da Frente Nacional francesa acabaram por levar ao cancelamento do convite CHARLES PLATIAU/Reuters

O recuo da organização surge um dia depois de ter defendido o convite a Le Pen. Ainda na terça-feira, a organização procurou justificar a polémica escolha sublinhando que "a Web Summit é um fórum de debate e discussão de muitos pontos de vista, não uma plataforma político-partidária para um único ponto de vista”, disponibilizando-se a cancelar o convite caso fosse essa a vontade do Governo português, país anfitrião do evento e que acabou por delegar na organização da Web Summit a responsabilidade da escolha dos seus oradores.

Na decisão anunciada esta quarta-feira, o empreendedor irlandês vinca que a organização é ambiciosa e defende um "debate rigoroso" e um "diálogo rigoroso sobre questões contenciosas e definidoras do nosso tempo", mas reconhece que a organização do evento "ainda tem muito a aprender".

A associação SOS Racismo, uma das organizações que condenou o convite a Le Pen, congratulou a decisão do evento. "É a decisão que se impõe, veio tarde e a más horas, aliás, o convite nem devia ter acontecido", mas "ainda bem que foi desconvidada porque assim ganha a democracia e ganhamos todos nós", declarou à Lusa Mamadou Ba.

Também o Bloco de Esquerda, um dos partidos críticos do convite, considerou que esta foi "a decisão mais acertada" tendo em conta "as pressões que foram feitas e a própria pressão social que existiu relativamente ao convite" declarou a deputada e dirigente do partido, Isabel Pires, citada pela agência Lusa.

Ainda assim, o Bloco de Esquerda não deixou de disparar também contra o Governo e Câmara Municipal de Lisboa que "não tiveram uma única palavra sobre o assunto". "Seria importante haver uma tomada de posição considerando que existem dinheiros públicos nesta organização", rematou a deputada.

Organização aceita sugestões

O representante do evento convida ainda os participantes a partilharem as suas sugestões sobre quem consideram ser nomes apropriados (ou inadequados) para integrar os painéis de oradores sobre "todas as questões que afectam a nossa sociedade e tecnologia". 

A Web Summit será recebida em Lisboa em Novembro, para a que será a terceira edição em solo português. O foco do evento é a tecnologia, mas nas edições mais recentes adoptou um papel de fórum global de ideias que reúne políticos, governantes e personalidades de fora deste sector.