Zona onde começou o fogo espera há sete meses aprovação de plano de intervenção

Associação dos Produtores Florestais do Barlavento Algarvio diz que está parado há sete meses no ICNF um plano de prevenção e combate aos incêndios Zona de Intervenção Florestal da Perna da Negra, onde na sexta-feira começou o incêndio de Monchique. Plano prevê abertura de caminhos, aceiros e pontos de água.

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Primeiro-ministro esteve em Monchique a um de Junho LUSA/LUÍS FORRA

A Associação dos Produtores Florestais do Barlavento Algarvio (Aspaflobal) diz esperar “há cerca de sete meses” a aprovação por parte do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) de um projecto estruturante para a Zona de Intervenção Florestal (ZIF) da Perna da Negra, o local onde, na sexta-feira, começou o incêndio de Monchique. Um processo que prevê, entre outras intervenções, a criação de pontos de água, aceiros e de caminhos de acesso para combate aos fogos na serra, um dos principais problemas enfrentados pelos bombeiros na luta aos mais recentes incêndios na região.

“Há mais de um ano que todos sabem que Monchique estava no topo da lista das zonas com maior risco de incêndios florestais. Há mais de um ano que todos sabem que a serra de Monchique era a próxima a arder. Há cerca de sete meses que enviámos para o ICNF um plano estruturante para a ZIF de Perna da Negra [gerida pela Aspaflobal] e nada foi feito. Está tudo embrulhado na burocracia, só nos fazem perguntas de lana caprina e nada avança”, revelou ao PÚBLICO Emílio Vidigal, presidente da associação, que representa cerca de 500 produtores florestais de Barlavento algarvio.

“Cada vez que eu ouvia alguém dizer que um dos problemas nestes incêndios era a impossibilidade de acesso de viaturas à zona que ardia na serra ficava fora de mim. Toda a gente sabe que esse era um dos problemas que era preciso resolver. O ICNF há muito tempo que sabe que isso precisava de ser feito com urgência. Está tudo identificado e explicado no nosso plano”, conta.

Emílio Vidigal diz não encontrar explicações para o atraso por parte do ICNF para o projecto da ZIF da Perna da Negra. “O ICNF conhece-nos, sabe que há muitos anos fazemos um trabalho sério de prevenção e combate aos incêndios, mas nada faz. Só nos fazem perguntas sobre dados que já têm e que nós vamos repetindo nas respostas. Dois dias antes destes incêndios enviaram-nos um conjunto de 30 perguntas, como, por exemplo, sobre os estatutos da associação ou pediam garantias que não temos dívidas à segurança social. O comprovativo de que não temos dívidas caduca a cada três meses mas como o processo não avança no ICNF, de três em três meses, este pede novo comprovativo. É um processo burocrático estúpido e sem fim. Parece que fazem de propósito para não avançarem”, diz o presidente da Aspaflobal.

“Estou revoltado com isto tudo”, acrescenta Emílio Vidigal, garantindo que já deu conta “a toda a gente” da necessidade deste projecto avançar: “Até já falei com o secretário de Estado [da Administração Interna], que se manifestou indignado com a não aprovação do projecto, mas a verdade é que está tudo parado no ICNF”.

O presidente da Aspaflobal diz não poder garantir que, caso o plano para a ZIF da Perna da Negra tivesse sido levado a cabo, seria suficiente para impedir o alastramento do incêndio deste fim-de-semana. Diz porém ter “a certeza” que “o combate teria sido mais efectivo”. “Os bombeiros, em vez de estarem a olhar para os helicópteros a despejarem água, tinham podido combater as chamas do terreno e isso podia ter mudado muita coisa”, acrescenta. 

O PÚBLICO enviou ao início da tarde desta segunda-feira um conjunto de perguntas ao ICNF sobre as queixas da Aspaflobal, mas até ao fecho desta edição não obteve qualquer resposta.

Costa deu Monchique como exemplo

António Costa, na companhia do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, visitou Monchique no dia 1 de Junho para se inteirar como estava a ser feita a prevenção no combate aos incêndios nesta serra algarvia.

O primeiro-ministro viu em acção uma equipa de sapadores a limpar o terreno, subiu à Fóia para visitar um posto de vigia e terminou a visita com a exposição de meios, veículos e equipas, que integram o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais no Algarve.

No final elogiou o trabalho que estava a ser feito: “Esta tarde pudemos ver três fases muito importantes da preparação que, em todo o país, está a ser feita para podermos viver este verão de 2018 com maior tranquilidade e maior confiança.”

Durante a visita dos governantes, foi referido um estudo do Centro de Estudos Florestais (CEF), do Instituto Superior de Agronomia (ISA), feito a pedido da Estrutura de Missão para os Fogos Rurais e divulgado em Maio deste ano, que revelava um mapa de risco de incêndio em Portugal. Monchique estava na primeira posição.

Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, criticou a revelação destes dados, afirmando “que só contribuem para pôr o enfoque numa situação que todos conhecem”. O primeiro-ministro contrapôs, dizendo que “ter a noção do risco de incêndio não serve para meter medo, mas para termos todos consciência de que o fogo é uma ameaça real, para a qual temos que nos preparar”.

Um dia depois da visita de António Costa nascia uma nova polémica, com a ASPAFLOBAL a denunciar que a brigada de sapadores florestais - e que mostrou o seu serviço ao primeiro-ministro em Monchique - estava a trabalhar há um ano mas o Governo ainda não tinha pago nada à associação pelo seu trabalho. Em causa estavam 40 mil euros.

A brigada era na altura uma das 20 existentes em todo o país, criadas no ano passado pelo Governo após concurso a nível nacional, e a única das três no Algarve que foi constituída por uma associação de proprietários.

“Depois de termos feito a denúncia pagaram metade, 20 mil euros, mas ainda está em falta outro tanto. E só pagaram porque fizemos a denúncia, senão ainda estávamos à espera”, disse nesta segunda-feira ao PÚBLICO Emílio Vidigal.