Há 175 mil hectares no país com elevada probabilidade de arderem em 2018

A probabilidade em 13% de áreas no país continua elevada neste ano. Há locais onde este risco atinge os 23%. Um mapa, feito por vários investigadores, dá conta das zonas em que há muitas razões para ter receios.

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Adriano Miranda

Não foi num ano – nem poderia ter sido – que o cenário de risco de incêndio em Portugal se alterou substancialmente. Os barris de pólvora continuam lá, nos sítios do costume: interior norte e centro e serras algarvias. A probabilidade de em 2018 ocorrerem fogos com dimensões extraordinárias não é a mesma do ano passado - em 2016 e 2017 muitas destas áreas já ficaram destruídas – mas continua elevadíssima em certas zonas. Os distritos de Castelo Branco e Faro estão no topo das preocupações num país em que 1,9% do território, o que representa 175 mil hectares, tem grandes hipóteses de ficar devastado neste ano.

Há zonas do país, como é o caso dos concelhos de Monchique, Oleiros, Caminha, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Paiva e Aljezur, onde a probabilidade se registarem fogos é muito elevada. Nas zonas mais problemáticas, há 23% de hipóteses de ocorrerem incêndios superiores a 250 hectares, o que é uma catástrofe. O estudo que deu origem ao mapa que aqui publicamos é da responsabilidade de Antónia Turkman e Feridun Turkman, do Centro de Estatística e Aplicações da Universidade de Lisboa e teve a colaboração de José Miguel Pereira e Ana Sá, do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia (ISA), e de Carlos da Câmara, do Instituto Dom Luiz, também da Universidade de Lisboa.

Este mapa foi construído usando quadrículas de quatro quilómetros quadrados (400 hectares) "representa a probabilidade de arder uma área igual ou superior a 250 hectares em cada uma das células, ou seja, a probabilidade de arderem mais de 2/3 da área de cada célula”, explica José Miguel Cardoso Pereira.

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As classes de perigo estão divididas por cores, sendo a mais baixa o verde, que abrange 87,7% do país. Do verde-claro ao encarnado sobe-se na escala de perigo, sendo que 7,2 % do território tem uma probabilidade de arder que vai até aos 2,5%. Logo a seguir, na zona amarela, que abrange 3,2% de Portugal, o risco vai até aos 5%. A laranja e a vermelho estão as áreas onde as probabilidades podem ir até 23%. É pouco menos de 2% do continente mas representam 175 mil hectares. Se se olhar apenas para os locais mais ameaçados, são 46 mil hectares que suscitam grande preocupação pois há praticamente uma hipótese em quatro de haver catástrofe.

Para chegar a este resultado, a equipa de investigadores usou como variáveis o número de anos que passaram desde o último fogo, o que dá indicações sobre a acumulação de combustíveis, “o número médio de anos desde o último fogo, a área queimada em 2017, a média da área queimada anualmente nos últimos 40 anos e assume que o Verão de 2018 terá valores do índice de perigo meteorológico mais severos do que 27 dos últimos 30 anos”, acrescenta o investigador do ISA.

Há locais onde o risco de ocorrerem enormes incêndios pode atingir 23%. “No pinhal interior, a leste do que ardeu no ano passado, a probabilidade é muito elevada, chegando a ser 10 vezes superior à média do país em ano normal”, diz Cardoso Pereira, acrescentando que “há sítios em tão mau estado como os que arderam em 2017”.

Mapa apresenta o pior cenário

Este mapa apresenta o pior cenário, aquele provocado por uma meteorologia particularmente adversa. “Mas mesmo em mais benignos, embora os valores das probabilidades desçam um pouco, as localizações são as mesmas, isto é, a geografia do risco é a mesma”, explica.

Qual o problema? Os matagais persistem, contínuos, prontos a arder. “A intervenção [de limpeza de combustíveis] foi insignificante”, sublinha o investigador, que no entanto salvaguarda que as consequências de um qualquer cenário catastrófico em termos de incêndios não serão tão dramáticas como no ano passado: “Em volta das povoações e das casas houve limpeza”, portanto vidas e bens poderão estar, eventualmente, mais salvaguardados.

Este mapa, em boa parte, coincide com as freguesias que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas definiu como prioritárias para as acções de limpeza de combustíveis. No entanto, este último apresenta uma área muitíssimo mais vasta pois não tem em conta a meteorologia mas apenas a acumulação de combustíveis, explica Cardoso Pereira.

“O mapa do ICNF joga muito pelo seguro o que, num cenário de recursos limitados, cria-se o risco de se estar a dispersar os meios. Já o nosso mapa pode também estar a subestimar o risco”, admite.

Este é o problema das previsões. Ninguém ainda consegue adivinhar como vai ser este Verão, que condições meteorológicas se reunirão. Se forem as piores, tão extremas como a do ano passado, o país poderá ver as chamas consumir 300 mil hectares do seu território. Em 2017 foram 540 mil. Este cenário é do engenheiro florestal Paulo Fernandes, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e que fez parte da Comissão Científica Independente que analisou os fogos do ano passado. Assenta num modelo matemático onde se incluem variáveis como a meteorologia e área ardida nos seis anos anteriores, traçando diferentes hipóteses. A pior de todas, embora aquém do que ocorreu no ano passado, continua a ser de uma devastação assustadora do país.