2017 foi o ano em que mais ardeu nos últimos dez anos — quatro vezes mais que o habitual

Metade da área ardida este ano resultou dos incêndios de Outubro. Coimbra é o distrito mais afectado pelas chamas.

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Foram registadas mais de 16 mil ocorrências de fogos este ano Adriano Miranda

Num ano marcado por mais de uma centena de mortes resultantes dos incêndios, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) divulgou na semana passada que, entre o início do ano e o final do mês passado, arderam em Portugal mais de 440 mil hectares de floresta e povoamentos — o que corresponde a quatro vezes mais do que a média registada nos dez anos anteriores.

Isto significa que ardeu mais 428% do que arde, por norma, em anos anteriores (mais 358 mil hectares, totalizando um número superior à área total do distrito de Coimbra), o maior número registado desde 2006. Segundo cálculos feitos pelo PÚBLICO com base nos dados do sistema português, mais de 34% da área destruída nos últimos dez anos em Portugal devido a incêndios florestais ardeu durante este ano.

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Estes números surgem apesar de se terem registado menos ocorrências neste ano (menos 3,6%) do que nos anteriores. Das 16.981 ocorrências registadas entre 1 de Janeiro e o final de Outubro, 3653 dizem respeito a incêndios florestais e os restantes a fogachos — ocorrências de reduzida dimensão e que não destroem mais do que um hectare.

Em média, nos anos anteriores, a área ardida em mato era superior à dos povoamentos (62% de mato ardido e 38% de povoamentos) – mas este ano o número de área ardida em povoamentos foi maior. Arderam mais de 260 mil hectares em povoamento (59,9% do total ardido) e cerca de 177 mil hectares arderam em matos (aproximadamente 40% do total).

No que diz respeito à área ardida, Coimbra é o distrito mais afectado, com 113 mil hectares ardidos – um quarto da área total ardida em Portugal até ao final de Outubro deste ano. Segue-se a Guarda (com 14% do total) e Castelo Branco (com 12%). Ainda que o distrito do Porto seja o que registe mais ocorrências, 87% deles dizem respeito a fogos de menor dimensão.

Florestas ardidas, vidas perdidas

Outro dado relevante do relatório do ICNF dá conta que cerca de metade da área ardida foi consumida em Outubro (mês em que arderam mais de 223 mil hectares do total de 442 mil). A 15 de Outubro, vários municípios do país, sobretudo a Norte e no Centro, foram afectados pelos incêndios, naquele que foi considerado “o pior dia do ano” em matéria de fogos. Morreram 45 pessoas e cerca de 70 ficaram feridas.

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Além da área ardida, este ano foi precisamente marcado pela perda de vidas humanas resultantes de incêndios, um número sem precedentes em anos anteriores: no total, morreram mais de 100 pessoas. Os incêndios de Pedrógão Grande, em Junho, fizeram 64 mortos (e ainda a morte de uma mulher que fugia do fogo), registando-se também mais de duas centenas de feridos; já em Outubro, morreram 45 pessoas, contabilizando-se cerca de 70 feridos.

No relatório do INCF, lê-se que “2017 é o ano mais severo dos últimos 15, com valores semelhantes ao de 2005, até aqui o mais severo” — esta severidade mede-se pela dificuldade em controlar as chamas. Ainda que, de acordo com o historial dos anos anteriores, os valores estabilizem a partir de meados de Setembro, neste ano as condições mantiveram-se “severas até à presente data”. No que toca à área ardida, o pior ano de sempre registou-se em 2017 (442.418), seguido de 2003 (425.839 hectares) e de 2005 (339.089), de acordo com dados do ICNF.

O cálculo da área ardida é feito através da análise de informação cartográfica obtida através de satélites. Ainda que estes dados obtidos pelo sistema nacional apontem para 442 mil hectares ardidos, o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS) indicava no final de Outubro que os fogos tinham consumido em Portugal mais de 500 mil hectares.

Os incêndios afectaram 18,4% (mais de 70 mil hectares) dos terrenos submetidos ao regime florestal no país — em que se insere a Mata Nacional de Leiria, com mais de 11 mil hectares destruídos pelas chamas. Se um incêndio queimar mais de 100 hectares, passa a ser considerado um grande incêndio; em 2017, registaram-se 214 destes incêndios – responsáveis por 93% do total da área ardida este ano.

O relatório com os dados da área ardida foi elaborado pelo Departamento de Gestão de Áreas Públicas e de Protecção Florestal, pertencente ao ICNF, com base em informações estatísticas recolhidas na base de dados nacional de incêndios florestais SGIF (Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais).