Itália é campeã dos casos de sarampo, mas Governo não quer vacinação obrigatória

Salvini e M5S querem acabar com lei que exigia vacinar crianças que entram na escola, no meio de uma grande polémica.

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Só no Inverno passado houve mais de 5000 casos de sarampo em Itália Paulo Pimenta/PÚBLICO/Arquivo

Itália é o país da União Europeia que nos últimos dois anos teve mais casos de sarampo, e o novo Governo que une a Liga, de extrema-direita, ao anti-sistema Movimento 5 Estrelas (M5S) acaba de aprovar, no Senado, uma lei que elimina a obrigatoriedade de vacinar as crianças que entram no sistema de ensino.

Só no Inverno passado houve mais de 5000 casos de sarampo em Itália – um ponto negro na Europa da transmissão desta doença altamente infecciosa. Mas o M5S tinha incluído no seu programa eleitoral eliminar a lei aprovada em Março pelo anterior Governo de esquerda para tornar obrigatória a vacinação contra dez doenças – entre as quais o sarampo.

Prometeu e cumpriu, porque o Ministério da Saúde está nas mãos do M5S, e a Liga de Matteo Salvini também não compreende o princípio protector da vacinação. O ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro-ministro, que costuma andar na ribalta por causa das questões de imigração, afirmou que ter dez vacinas obrigatórias “é inútil e pode ser perigoso”.

O Senado aprovou a retirada da lei que deveria começar a ser aplicada neste ano lectivo por 148 votos a favor, 110 contra e três abstenções. Mas a câmara baixa do Parlamento italiano terá ainda de se pronunciar, e só o deverá fazer daqui a um mês, pelo que a nova lei, sem exigência de vacinação, só poderá ser aplicada a partir de 2019.

Reina a confusão, até porque os governantes de algumas regiões administrativas italianas, nomeadamente as que são governadas pela esquerda, afirmam a intenção de recorrer ao Tribunal Constitucional para tentar que esta lei antivacinação seja revogada. Ou então prometem elaborar leis locais para que nas suas regiões as crianças tenham de estar vacinadas para entrar na escola. E chovem as condenações de médicos e cientistas, com apelos a que o Governo respeite a saúde das crianças – e a ciência.

Em 2017, e até 31 de Maio 2018, a Itália foi o país com mais casos de sarampo. Durante o ano de 2018, teve 3697, seguida da Grécia (3039), França (2585) e Roménia (1198), segundo dados do Centro Europeu de Controlo e Prevenção das Doenças. Para interromper a corrente de transmissão do sarampo, é preciso que a cobertura da segunda dose da vacina atinja pelo menos 95% das crianças, dizem os epidemiologistas.