Reportagem

Hotel Infante de Sagres: quem o viu, quem o vê

Dourado e monumental como nos velhos tempos, o hotel da Praça D. Filipa de Lencastre, no Porto, tem mais quartos, uma pequena piscina, um pátio superfotogénico e um elegante Vogue Café. “Sabíamos que era uma jóia e quisemos polir essa jóia."

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Nelson Garrido
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“Efectuou-se ontem a inauguração oficial deste novo estabelecimento que marca acentuado progresso na industria hoteleira do nosso país.” No dia 22 de Junho de 1951 o Infante Sagres, “o mais moderno hotel do país”, no ângulo da Praça Filipa Lencastre e a Rua de Avis, estava nas páginas dos jornais do Porto que davam conta do corte simbólico de duas fitas de seda (branca e verde, as cores da cidade) e louvavam o intuito de dar à cidade “um hotel da mais elevada categoria, digno de acolher as personalidades de maior representação e os turistas habituados ao Grande Mundo, aos ambientes suntuosos, aos requintes do conforto moderno — que não excluem, antes impõem, um tratamento insuperável capaz de satisfazer os mais exigentes gourmets” (Comércio do Porto).

A obra monumental de Rogério de Azevedo, arquitecto diplomado em 1926 pela Escola de Belas Artes do Porto, onde fora aluno de Marques da Silva, foi inaugurada com grande pompa com um baile de gala no Salão Luís XVI, onde actuaram duas orquestras.

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Quase 67 anos depois, quem entrar no número 62 da Praça D. Filipa de Lencastre, agora rasgada por um túnel (de Ceuta) e, como uma ilha, rodeada de restaurantes, de bares e de vícios e virtudes de uma baixa turística por todos os lados, tem agora a oportunidade de fazer uma viagem no tempo, de apreciar os detalhes de requinte que simplesmente tinham desaparecido do projecto original ou que apenas estavam tapados pela erosão ou por culpa de evoluções mais ou menos ad hoc da decoração da unidade hoteleira, o primeiro hotel de luxo da cidade, “o primeiro cinco estrelas do Porto” — agora novamente dourado.

“Sabíamos que era uma jóia e quisemos polir essa jóia”, explica à Fugas Richard Bowden, director de marketing do sector de turismo do The Fladgate Partnership, dono das casas de vinho do Porto Taylor’s, Fonseca, Croft e Krohn e dos hotéis The Yeatman e Vintage House. Foram cinco meses de trabalho e 8,5 milhões de euros investidos na recuperação, que, em determinadas áreas, pode confundir-se com restauro de arte. “Chegaram a estar 300 pessoas a trabalhar em turnos das 7h às 23h e pelo menos uma pessoa em cada um dos 85 quartos. Tivemos trabalhos pesados e trabalhos de artesão”, sublinha, “orgulhoso”, Richard Bowden, sentado numa sala que já foi um bar. “Aqui estiveram quatro pessoas a trabalhar com escovas de dentes a retirar camadas de tinta preta para não destruir os pormenores e detalhes do estuque. Encontrámos folha de ouro e só assim soubemos como era o estilo original”, relata.

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Na recuperação foram usadas, por exemplo, fotografias a preto e branco do livro de honra — como aquela de Mário Soares “sentado ali, em frente a uma lareira branca”. A lareira voltou a ser branca, os tectos pretos de madeira voltaram a exibir a reluzente cor de madeira, foram arrancados extensos metros de carpete, que cobria o chão de madeira, agora envernizado, foram desmontados (“estavam castanhos do fumo do tabaco, foram lavados com detergente da loiça”), peça a peça, limpos e montados pacientemente, “como um puzzle”, os lustres de peças de cristal, respectivos lumes e os grandes apliques que fazem “pendant”. “Fizemos de novo”, resume Richard Bowden. “Nos anos 1980 e 90, este estilo estava passado. As pessoas não gostavam, achavam velho. Ficou fora de moda antes de ser um clássico. Tentámos ao máximo manter o que era original e tentámos através de fotografias recuperar o que era o antigo. Agora é icónico, um clássico.”

Merece visita guiada — como um museu esquecido que ganha direito a uma segunda vida. Ali ao lado estão as réplicas dos quadros dos donos originais. Sylvia Pereira à esquerda. À direita, Delfim Alexandre Ferreira, que pouco tempo depois de inaugurar o Infante Sagres adquiria a Casa de Serralves a Carlos Alberto Cabral, segundo conde de Vizela, que estava falido na época. Segue-se a sala D. FiIipa — onde é servido um monumental pequeno-almoço. Feche os olhos e imagine. Tudo o que aqui é branco, era preto. Tudo o que é madeira, era branco. A madeira estava escondida por alcatifa, contagiosa — em 1951, os tapetes, carpetes e passadeiras de pura lã nacional saíram da Fábrica de Tapetes de Beiriz, Póvoa de Varzim. Os candeeiros voltaram a ser lustrosos e as paredes voltaram a exibir painéis de seda de Londres.

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De regresso ao passado. Há uma viagem de elevador que merece ser feita (foi mantida a patine e um singular banco de pele estilo namoradeira; à esquerda foi instalado um segundo elevador apto a receber pessoas com mobilidade reduzida) e uma escadaria que merece ser lentamente percorrida (os vitrais que a acompanham, da responsabilidade do atelier Ricardo Leone, Lisboa 1945, foram meticulosamente recuperados). Pelo caminho, em tempos de crise, foram vendidos alguns móveis, que a actual administração tentou repor com a ajuda de algumas leiloeiras. Nos quartos — entrada com cartões magnéticos — continua a haver mármore nas casas de banho, agora equipadas com desembaciadores de espelhos. Há papel de parede Art Déco, tomadas USB, mantas de lã da serra da Estrela e (todas as) janelas anti-ruído (“A cidade em 1951 era muito diferente, não era tão barulhenta”, observa Richard Bowden).

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A operação incluiu a renovação da parte técnica do edifício, a colocação de um novo telhado e a transformação radical do pátio interior, que agora une o hotel e o elegante Vogue Café — o espaço perdeu um complexo e monstruoso sistema de ar condicionado a céu aberto para, graças aos padrões de mosaico hidráulico preto e branco, ao desenho (trabalho de Paulo Lobo) e ao serviço, ficar seguramente no top dos pátios mais agradáveis da cidade. A requalificação do Infante Sagres, da responsabilidade do arquitecto António Teixeira Lopes, discípulo e aluno de Rogério de Azevedo, prevê também a transformação da cave num spa, mas a obra só avançará quando se resolver a batalha jurídica entre o hotel e a Moreira da Costa, livraria histórica numa espécie de enclave na Rua de Avis.

A mesma rua tem entrada directa para o mundo Vogue, duas salas e o referido pátio interior (155 lugares no total, entre mesas e dois balcões), uma lista de cocktails gastronómicos com assinatura Vogue Café (sugestão: Hail Mary com belvedere, Porto branco seco, beterraba, pepino, tabasco verde e vermelho, sal e pimenta; Tokyo Fizz à base de Nikka From The Barrel, Umeshu Akashi Tai e sumo de yuzu) e marcas sofisticadas da história da revista de moda — propriedade da Condé Nast International, que se associou ao grupo The Fladgate Partnership para a abertura deste espaço — emolduradas (Kate Moss fotografada por Lachlan Bailey, Myrtle Crawford por Anthony Denney, Christy Turlington, Linda Evangelista...). A cozinha, aberta durante todo o dia, é da responsabilidade de Gil Raposo, chef que passou os últimos anos no restaurante Wynn Macau, em Macau. Há pratos pequenos (vieiras do Algarve caramelizadas, cenoura, gengibre e laranja), sopas (bisque de carabineiro, bacalhau meia cura), saladas (folhas verdes, pêra rocha e queijo roquefort), sandes (sliders de hambúrguer de novilho mertolengo), pratos principais (bacalhau meia cura confitado em azeite, wonton crocante de grelos e grão; entrecôte maturado, batata pont-neuf aromatizada com trufa) e momentos doces (parfait de ruibarbo e pêra em camadas, madalenas de mel).

“Hotel Moderno — todos os quartos com casa de banho.” O reclame de 1951 referia-se à inauguração do Infante Sagres, desvendado a 21 de Junho de 1951 com 67 quartos (alguns com casa de banho completa, os restantes com bidé e lavatório). A diária completa por pessoa custava entre os 140 e os 180 escudos — informações mais rigorosas através do número de telefone 28101.

A Fugas esteve alojada a convite do Hotel Infante de Sagres