Assédio em festivais? Portugal não tem números

Uma sondagem britânica dá conta de 22% de inquiridos que já foi vítima de assédio ou agressão sexual em festivais.

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Joey Thompson/Unsplash

No Reino Unido 22% dos festivaleiros, homens e mulheres, declara já ter sido vítima de abuso ou de assédio sexual, os números sobem para 30% quando se fala apenas das mulheres, revela uma sondagem da YouGov, publicada no início da semana. O ano passado, na Suécia um dos maiores festivais foi suspenso devido a uma vaga de crimes sexuais durante o evento – 233 casos de assédio e quatro violações Por cá, não há números, mas o Governo está preocupado com o que se passa nas festas académicas, sobretudo no que diz respeito ao abuso e violência contra as raparigas.

“Em Portugal não há dados nem relatos sobre o que se passa nos festivais, nem temos conhecimento de incidentes tornados públicos”, começa por dizer Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, ao PÚBLICO. Contudo, há uma preocupação com as queimas das fitas e outras festas académicas. 

O Relatório Anual de Segurança Interna, de 2017, dá conta dos casos de abuso sexual de crianças, adolescentes e menores dependentes – que caíram 4,3% relativamente ao ano anterior, com 937 casos –; os de violação – que aumentaram 21,8%, para 408 casos; mas nada especifica em relação a assédio ou abuso sexual.  

Anualmente, a Associação Portuguesa dos Festivais de Música (Aporfest) faz dois estudos, um relatório sobre os festivais de música em Portugal e um perfil do festivaleiro. Contudo, em nenhum tem dados sobre denúncias de assédio ou agressão sexual. "Não é um ponto que estudemos. Sentimos que há outros items com outro tipo de importância, como o impacto económico e mediático dos festivais, mas isso não quer dizer que não tenhamos de o fazer no futuro", salvaguarda Ricardo Bramão Tomás, director da associação.  

Os últimos dados da Aporfest reportam ao ano passado e revelam que o número de eventos tem vindo a aumentar, foram 272 o ano passado, sendo que 44 têm campismo associado. No total, passaram pelos festivais 2,5 milhões de espectadores, sendo que 55% são do sexo feminino e a média de idades fica entre os 21 e os 24 anos (30%) e os 25 e 30 anos (26%), a maioria (73%) são solteiros e mais de metade são estudantes.

Quanto ao perfil do festivaleiro, o que o atrai aos festivais é a música (70%), o ambiente (15%), o estar com os amigos (6%) e apenas 1% refere que é "conhecer pessoas". Sobre as emoções sentidas no momento, citam a "alegria, liberdade, excitação e satisfação".

Rita Barros, directora-executiva da Associação para o Planeamento Familiar (APF), organização que marca presença em vários festivais com o objectivo de dar informação sobre comportamentos de risco e fazer rastreios, reconhece que há "uma predisposição maior para ter comportamentos de risco" no ambiente dos festivais.

"Atingimos muitos jovens quando vamos aos festivais", revela a responsável da APF, acrescentando que são muitos os que procuram a unidade móvel da associação depois de terem relações sexuais desprotegidas ou consumido drogas. No entanto, Rita Barros não tem conhecimento de casos de abuso. "Nunca foi reportado, mas comportamentos de risco sim", esclarece.

A Aporfest tem ainda um guia do festivaleiro com dez conselhos que passam sobretudo pela segurança e o respeito pelas regras. Manter-se em grupo é uma das recomendações e outra é a de reportar tudo o que pareça suspeito. A décima é "ser o principal protector de si mesmo" e recomenda: "Esteja atento ao que o rodeia e aprenda a detectar os indicadores de uma situação potencialmente crítica. (...) Aposte na prevenção de algo e não na sua resolução, evite o problema e não responda perante este. A resposta deverá ser dada pelas entidades competentes."

Kit informativo para estudantes

Relativamente às festas académicas, a secretária de Estado lembra um estudo levado a cabo pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) Coimbra, conhecido em Maio, que dava conta de que a violência sexual existe em contexto académico. 

Recorde-se que o inquérito online, a que responderam mais de 500 pessoas (do meio académico conimbricense), revela que mais de metade dos inquiridos diz ter sido vítima — 59,8% das mulheres e 52,9% dos homens —, e que os actos foram praticados por parceiros ou ex-parceiros íntimos. Também há vítimas de agressores que fazem parte do grupo de amigos, reportam 9,5% das mulheres e 11,8% dos homens.

Além de apontar este estudo, a secretária de Estado confessa ter em sua posse "fotos verdadeiramente chocantes", obtidas nas festas académicas do Porto, que demonstram práticas de assédio e violência contra raparigas com objectivos sexuais. Os rapazes também a preocupam, mas pelos comportamentos de risco que podem ter, como o consumo de drogas ou de álcool associados à sinistralidade rodoviária. Em comum, estas situações estão ligadas a "vivências nocturnas" e é importante perceber como é que podem ser evitadas.

Assim, além de um projecto que está pensado para a região Centro, e foi apresentado na segunda-feira, em Coimbra, que pretende promover a "Noite saudável das cidades do Centro de Portugal", a secretária de Estado refere ainda o trabalho que está já a ser feito entre as associações e federações académicas e a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), no sentido de promover campanhas de sensibilização junto dos estudantes. A ideia, explica Rosa Monteiro, é entregar aos caloiros, no início do próximo ano lectivo, um kit com materiais sobre o que é o assédio, o abuso, a violência no namoro e com informações sobre como proceder à denúncia, caso venham a ser vítimas.

"Há uma naturalização dos comportamentos, uma banalização, por culpa de uma cultura pop muito objectificante das raparigas e das mulheres. [Por isso,] as mulheres não reconhecem certas situações como sendo de abuso ou têm receio de que se fizerem queixa serão mal recebidas", explica Rosa Monteiro. "Temos de prestar mais atenção às questões de segurança para as raparigas e mulheres no espaço público e criar respostas adequadas", conclui.