Falta de viaturas impede GNR de combater grandes fogos

Há novos peritos e mais meios. E uma aposta nas medidas de autoprotecção, essencialmente em aldeias com risco elevado de incêndio. Com excepção do novo comandante nacional, estrutura operacional da Protecção Civil mantém-se praticamente inalterada.

GIPS da GNR passam a ter mais de mil elementos para combater fogos.
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GIPS da GNR passam a ter mais de mil elementos para combater fogos. PAULO PIMENTA

Cerca de 170 militares do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) da GNR deviam estrear-se este ano no combate aos incêndios de maior dimensão, um tipo de resposta accionada quando não foi possível apagar o fogo na fase nascente. No entanto, estes profissionais estão impedidos de actuar nesta altura porque a GNR ainda aguarda pela chegada de quatro autotanques pesados e 12 médios, viaturas com depósitos de água, essenciais para que estes militares combatam os incêndios.

A informação foi confirmada por duas fontes diferentes da GNR, mas, confrontado com a situação, o comando nacional preferiu não comentar a situação. Em resposta escrita, a GNR diz apenas que o dispositivo de viaturas do GIPS já foi "reforçado no corrente ano e continuará a ser reforçado durante as próximas semanas", dando conta que no mês passado chegaram mais oito novas viaturas ligeiras de combate a incêndios ao GIPS. Nunca fala, no entanto, nos autotanques, nem nas consequências da sua ausência. 

O Governo reagiu, entretanto, a esta notícia, revelando em comunicado que as viaturas "serão entregues gradualmente nas próximas semanas".

O reforço do GIPS, com o recrutamento interno de mais 500 militares para se juntarem aos perto de 600 já existentes, foi uma aposta do Governo para o dispositivo de combate aos fogos deste ano, após o pior ano de sempre nos incêndios rurais, em que o fogo destruiu mais de 442 mil hectares e matou mais de 110 pessoas.

A palavra de ordem do dispositivo é mesmo reforço. Mais operacionais (pela primeira vez ultrapassa-se a fasquia dos dez mil elementos), mais viaturas e mais aeronaves. Pelo menos no papel. Para o GIPS, por exemplo, estão contabilizadas 181 viaturas, mas, neste momento, estão disponíveis pouco mais de 80. Também nos meios aéreos estão previstos 55 meios, incluindo os três helicópteros Kamov que se mantêm parados e cuja substituição não está assegurada.

O dispositivo também vai contar com as novas equipas de intervenção permanente (cinco operacionais e uma viatura) negociadas com a Liga dos Bombeiros Portugueses e com mais 28 equipas de sapadores florestais.

Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, especialista em incêndios rurais, considera a estratégia um erro. “Mais meios não resolve o problema do dispositivo de combate, temos é que levar mais conhecimento para a estrutura operacional”, defende o investigador.

Por isso aplaude a criação de “peritos disponibilizados” pela nova Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, para apoiar o comando operacional em incêndios de maior complexidade ou gravidade. Tiago Oliveira, que preside à estrutura de missão da agência, adianta que deverão ser constituídas até oito equipas, cada uma com três elementos. Estes peritos terão especialistas nacionais, que ainda estão em fase de selecção, e também estrangeiros, que deverão actuar no período mais crítico dos fogos. Mas Tiago Oliveira não levanta o véu de como serão activados e como se articularão com os comandantes operacionais. “Estamos a fazer um esforço para trazer a melhor ajuda para Portugal, já que é a forma mais directa de injectar conhecimento no sistema”, nota.

O novo programa "Aldeia Segura, Pessoas Seguras", que pretende ajudar a criar uma cultura de segurança no país levando a uma população de risco medidas práticas de como se podem proteger, também é aplaudido por Paulo Fernandes. Segundo um balanço feito nesta quinta-feira pelo Ministério da Administração Interna, já foram designados 700 oficiais de segurança de aldeia – cidadãos com a missão de transmitir avisos à população, organizar uma evacuação e acções de sensibilização –, que identificaram 350 locais de abrigo. Já foram elaborados 260 planos de evacuação e começam a ser sinalizados os caminhos de fuga.

Por outro lado, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas está a desenvolver ferramentas informáticas que permitem tornar útil informação disponível de forma a direccionar melhor a actuação das diversas entidades. Exemplo disso é a criação de uma ferramenta que, com base em vários critérios pré-definidos, determina os incêndios que têm mais probabilidade de reacender. A listagem é remetida através de um email diário à GNR e ao comando nacional, entidades com capacidade de fazer ou mandar fazer vigilâncias àqueles locais.

Sem reforço mas agitado está o comando nacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), que conta com o segundo líder operacional só este ano – no último ano e meio houve quatro. No entanto, o resto da estrutura está praticamente igual à que existia no ano passado, tendo apenas havido algumas mudanças pontuais, como aponta Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil. “Uma das únicas alterações foi a subida do comandante distrital de Leiria ao comando nacional, como adjunto, o que obrigou a preencher o lugar que deixou vago”, nota Caldeira.

Sobre a nova lei orgânica da ANPC, cuja conclusão o ministro da tutela, Eduardo Cabrita, chegou a prometer para Março, continua no segredo dos deuses e tão cedo não deverá de lá sair. É que ninguém quer criar mais focos de instabilidade dentro da autoridade quando esta está prestes a começar o pico da sua actividade operacional.

De regresso aos problemas no GIPS, sublinha-se que os militares que se vão dedicar ao chamado ataque ampliado – e ficarão sedeados em Viseu, Mirandela, Aveiro e Loulé – estão, neste momento, limitados aos treinos, já que a falta de viaturas ligeiras impede igualmente que se dediquem temporariamente a patrulhar as zonas rurais.

A falta de material ameaçou igualmente condicionar a actuação das equipas helitransportadas que se dedicam à primeira intervenção, como noticiou o PÚBLICO em Maio. Quem o admitia era o próprio comandante do GIPS, que num email enviado aos seus homens reconhecia que ainda não havia para os novos elementos equipamentos de protecção individual, viaturas e rádios. Também não estavam garantidas as condições de descanso em todos os centros de meios aéreos onde os militares iam ficar sedeados.

Segundo o PÚBLICO apurou, a GNR conseguiu reunir as condições mínimas que permitirão às equipas helitransportadas actuar. Hoje passa a haver um total de 33 centros de meios aéreos com equipas do GIPS e todas devem estar a operar como previsto. Tal exigiu alguma criatividade e, para já, os mais de 450 novos elementos que terminaram a formação vão ter que trabalhar sem equipamento de recurso. A cada um dos profissionais foi distribuído um fato, duas t-shirts, um par de luvas, uma cógula, uns óculos e um capacete. Alguns terão que usar capacetes já usados.

As cerca de 80 pick-ups de que a GNR dispõe actualmente vão permitir às equipas terrestres que se revezam com as helitransportadas fazer o trabalho. Mas poderá haver dificuldades operacionais, se a entrega das mais de 100 viaturas prevista para este Verão se atrasar. É que a partir de 1 de Julho as equipas do GIPS passam a ocupar um total de 40 centros de meios aéreos e serão necessárias mais viaturas com o kit de primeira intervenção, que inclui um depósito de água de 500 litros.