Marcelo nos EUA: O “verdadeiro Presidente do povo” dá receita contra o populismo

Nas comemorações do Dia de Portugal do outro lado do Atlântico Norte, o Presidente da República e o primeiro-ministro falaram ao coração dos portugueses.

António Costa e Marcelo voltam a comemorar o 10 de Junho junto das comunidades
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António Costa e Marcelo voltam a comemorar o 10 de Junho junto das comunidades LUSA/ANDRÉ KOSTERS
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Marcelo Rebelo de Sousa, WaterFire, WaterFire
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Marcelo Rebelo de Sousa, Providência
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Providência
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Marcelo Rebelo de Sousa deixou “o coração falar” em vez de ler discursos escritos nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, que este ano se desdobrou entre os Açores e os EUA. Falou pelo coração ainda no dia 10 de Junho, em Boston e Providence, onde chegou já noite avançada em Portugal, e assim continuou nesta segunda-feira, no parlamento estadual de Massachussets.

O senador de Massachusetts Mark Pacheco, de origem portuguesa, tinha apresentado o chefe de Estado aos congressistas e cidadãos, na sua maioria lusodescendentes, como "o verdadeiro Presidente do povo": "Há dois dias nadava no mar dos Açores com os cidadãos e ontem [domingo] ignorou os serviços secretos e foi para o meio da população", atravessando durante longos minutos o centro de Boston e tirando fotografias, ilustrou o luso-eleito.

No púlpito, Marcelo deixou de lado os papéis, como já é habitual, e improvisou: “Por que não deixar o meu coração falar e dizer-vos o que sinto no fundo do coração?" E disse. Começou por manifestar "gratidão" em nome de Portugal, pela "amizade e parceria de muito tempo" entre o país e os Estados Unidos da América, lembrando o "atravessar do oceano" nos séculos anteriores, nomeadamente de açorianos.

"Nós, os portugueses, adoramos unir, não dividir", sublinhou o Presidente, que já na véspera, à chegada, lembrara que Portugal foi o primeiro país do mundo a reconhecer a independência dos EUA, em 1763. 

Depois, retomou uma das ideias que tem repetido sempre que considera justificar-se: como combater os populismos. Desta vez, num parlamento norte-americano, Marcelo defendeu que a única forma de os políticos evitarem populismos é estando "perto das pessoas".

"Como pode um Presidente não estar perto das pessoas? As pessoas têm nomes, caras, sonhos. E são diferentes. A única forma de evitar populismos é estando perto das pessoas", declarou o chefe de Estado, que acabou aplaudido por dezenas de congressistas e cidadãos - nomeadamente lusodescendentes - presentes nas bancadas do parlamento estadual de Boston.

Trump "bem vos pode agradecer”

O Presidente da República, o primeiro-ministro e as suas comitivas chegaram aos Estados Unidos ainda no domingo, um 10 de Junho esticado pelos fusos horários, para comemorarem o Dia de Portugal e darem o pontapé de saída à maior ofensiva diplomática portuguesa em terras do Tio Sam. Nessa noite, em Boston e depois em Providence, o Presidente da República insistiu na ideia, já repetida em França e Brasil nos anos anteriores, de que Portugal “é o melhor país do mundo” e os portugueses um povo de excepção.

“Nós temos um território espiritual que é o da nossa língua, da nossa história, da nossa cultura, do nosso exemplo, do nosso trabalho por todo o mundo. Esse território espiritual vai muito além do território físico”, sublinhou o chefe de Estado em Boston. “Nós não fomos só os melhores quando atravessámos os oceanos, quando chegámos a outros continentes, quando criámos comunidades por todo o mundo. Nós hoje somos os melhores nas artes, na ciência, nas empresas, no trabalho, temos o maior futebolista do mundo”, enalteceu.

Uma mensagem de incentivo para as comunidades lusas, mas também uma mensagem que tem repetido perante as elites dos países de destino e que promete transmitir também a Donald Trump: “Eu espero ter ocasião de dizer, no fim do mês, quando estiver com o Presidente dos EUA, que ele bem pode agradecer aos portugueses porque tem que aqui uma comunidade que trabalha pelo futuro dos EUA, uma comunidade honesta, trabalhadora, competente, uma comunidade que honra Portugal”.

Em Providence, onde participou no “Festival WaterFire”, um espectáculo de luzes e fogo no rio criado por portugueses para assinalar o Dia de Camões, Marcelo transportou uma das tochas que simbolizam o espírito do país e insistiu na tónica. “Nós somos os melhores porque somos um exemplo de trabalho, de honestidade, de lealdade, de respeito às vossas raízes, de memória das nossas terras de origem […] e nós chegamos aqui, integrámo-nos aqui, e somos tão portugueses como os que vivem no território físico de Portugal e somos tão bons americanos como os melhores americanos”.

“Somos assim em todo o mundo, onde chegamos somos melhores”, repetiu, agora acrescentando aquilo que será, nas suas palavras, uma característica portuguesa, a tal que previne os populismos: “Temos uma coisa que é muito nossa: os afectos. Nós gostamos da nossa Pátria, da nossa gente, gostamos das outras pátrias onde vivemos. Adaptamo-nos bem a tudo: à língua, aos costumes, ao clima, à maneira de ser”, disse.

“Isso faz de nós uma ponte entre povos. Temos uma capacidade de compreender, de dialogar, de aproximar pessoas. Somos assim! Nós unimos, não dividimos. Nós criamos a paz, não a guerra. É essa a nossa força, é essa a vossa força”, declarou, recebendo uma imensa ovação, com a multidão a chamar pelo seu nome: “Marcelo, Marcelo”. E logo ali anunciou que voltará aos EUA em Novembro, dessa vez para visitar a Costa Oeste, onde não vai desta vez, ao contrário do primeiro-ministro.

Para já ao seu lado, António Costa foi mais pragmático. "É absolutamente essencial continuarmos a estreitar as relações entre Portugal e os Estados Unidos, porque somos ambos duas democracias, ambos amamos a liberdade e o esforço e o respeito de cada um para construir a prosperidade. É nessa comunidade de valores que Portugal e os Estados Unidos vão continuar a construir um futuro cada vez mais próximo através deste oceano Atlântico que une os nossos dois países", disse.

António Costa dirigiu também palavras à comunidade portuguesa, dizendo que o objectivo dos órgãos de soberania nacionais "é estreitar cada vez mais as relações com a diáspora" portuguesa. "Por isso, a Assembleia da República aprovou uma nova lei da nacionalidade que facilita aos netos dos portugueses a obtenção da nacionalidade. Por outro lado, o Governo aumentou o prazo de validade do cartão do cidadão, assegurando-se que cada titular está automaticamente recenseado para poder participar nas eleições em Portugal. É muito importante a vossa participação, quer aqui nos Estados Unidos, quer lá em Portugal", afirmou. Com Lusa