China inaugura novo ciclo no BCP com Miguel Maya na liderança

O encontro dos accionistas do BCP está agendado para esta quarta-feira, 30 de Maio, pelas 14h30, e terá lugar nas instalações do Tagus Park, em Oeiras. E vai votar a nova equipa de gestão do banco.

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PBC PEDRO CUNHA

Esta quarta-feira os accionistas do BCP deverão confirmar Miguel Maya Dias Pinheiro, de 53 anos, como novo presidente da Comissão Executiva (CEO), em substituição de Nuno Amado, de 60 anos, agora proposto para chefiar o Conselho de Administração do maior banco privado português, criado em 1986.

Com a mudança de lugares no topo da governação, o embaixador António Monteiro, de 74 anos, deixa de ser o chairman, função que passará a ser desempenhada por Nuno Amado, o CEO do BCP nos dois mandatos anteriores. Amado, que entre 2006 e 2012, chefiou a Comissão Executiva do espanhol Santander Totta, assumiu o cargo num momento crítico do banco. Em 2012, o banco foi alvo de uma injecção de três mil milhões de euros de fundos estatais (um empréstimo público de CoCos, obrigações convertíveis em acções caso o banco entrasse em incumprimento), para colocar os rácios de solvabilidade nos patamares recomendados.

Com a antecipação em dois anos do pagamento da última tranche do financiamento, de 700 milhões, liquidada em 2017, o BCP ganhou autonomia estratégica, expressa nas novas orientações que esta quarta-feira serão tomadas pelos accionistas.

A novidade neste novo mandato está mesmo no nome consensualizado entre os grandes accionistas, leia-se a aliança estatal sino-angolana formada pela chinesa Fosun (a dona da Fidelidade) e pela petrolífera angolana Sonangol, para ocupar a cadeira de número um: Miguel Maya. 

Um homem da casa, que começou a trabalhar no Banco Português do Atlântico, que seria em 1994 integrado no BCP, e onde chegou a dirigir o departamento de marketing. Formado em gestão de empresas pelo ISCTE (Instituto Superior de Ciências Sociais e do Trabalho), Maya tem marcado presença nas últimas administrações, quer como chefe de gabinete de dois CEO, Filipe Pinhal e depois  Carlos Santos Ferreira, quer como vogal daquele órgão. Foi ele quem substituiu Armando Vara na gestão de Santos Ferreira e foi reconduzido por Nuno Amado, de quem foi vice-presidente. Internamente é considerado um sobrevivente, capaz de fazer pontes com accionistas de diferentes geografias. Antes da entrada da Fosun no BCP (que é hoje o principal investidor), Maya era dado como o interlocutor privilegiado do então maior accionista, os angolanos da Sonangol. No último ano tornou-se um gestor da confiança da Fosun. Ao lado de Maya vão manter-se Miguel Bragança, João Nuno Palma, José Miguel Pessanha e Rui Teixeira. Para a sua equipa entra Maria José Campos, que foi recrutada internamente ao BCP Polónia. 

Dentro do banco, a saída de Nuno Amado da Comissão Executiva, e a sua indicação para chairman, o que, na prática lhe retira margem de manobra, tem sido desvalorizada com o argumento de que a função que vai agora exercer ganhará poderes acrescidos que lhe permitirão intervir de forma mais participativa em assuntos estratégicos. Deste órgão não executivo sai António Mexia, que estava desde 2006 a representar a EDP, e entra o rosto da Fosun em Portugal: Jorge Magalhães Correia, actual presidente da Fidelidade. E ainda, como independentes, José Elias da Costa, ex-administrador do Santander, Teófilo da Fonseca, Valter Barros.

Na agenda de trabalhos da assembleia-geral (AG) está não só a proposta de eleição dos novos órgãos sociais, mas ainda a votação do relatório contas e dos resultados do banco, que em 2017 lucrou 186,4 milhões de euros, o que compara com os cerca de 23,9 milhões do ano anterior. A intenção é começar a distribuir dividendos pelos accionistas em 2019, com base nos lucros de 2018.

Nesta fase de transição, Maya (que celebra 54 anos a 16 de Junho) tem como prioridades, entre outras questões, preservar a estabilidade accionista, aumentar a rentabilidade da instituição, continuar a transição para a era digital e acelerar o processo de redução do crédito malparado, uma das debilidades da instituição. Este é um dos grandes desafios no mandato que hoje se inicia. Mas também há objectivos definidos nesta área, que foi confiada a Miguel Maya nos últimos anos.

Na última conferência de imprensa de divulgação das contas trimestrais de 2018, em Maio deste ano, Nuno Amado anunciou que a intenção é reduzir os activos tóxicos no balanço do BCP em 1,5 mil milhões, até ao final deste ano.

As contas revelaram ainda que, em Março, a exposição do banco a activos não rentáveis, como o crédito malparado, estava em 7,157 mil milhões de euros, abaixo dos 9,159 mil milhões registados um ano antes, uma quebra de 22%. Em Portugal o pacote de activos “mortos” totalizava 6,282 mil milhões.

Um dos pontos que deverá levantar polémica na Assembleia Geral respeita à proposta da actual administração de que o BCP contribua com uma verba única de 4,9 milhões de euros para o Fundo de Pensões dos gestores executivos que exerceram os mandatos no período de contenção salarial. O objectivo é compensá-los com um complemento adicional de reforma.

Esta terça-feira, o Expresso avançou que o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB) se fará representar na reunião, com 100 acções, onde irá votar contra, pois defende que a verba se deveria também destinar a reforçar o Fundo Complementar de Pensões dos Trabalhadores do BCP, alvo de cortes salariais no período em que o banco foi reestruturado.

Paulo Marcos, do SNQTB, classifica a intenção da equipa de Nuno Amado de "um claro desrespeito pelo esforço de contenção feito pelos trabalhadores", que até Junho de 2017 tiveram “os vencimentos congelados”.