Mercados e UE entram em modo pânico, Liga e 5 Estrelas já fazem campanha

Juncker diz que não serão “os mercados financeiros” a definir o futuro de Itália e defende que o país “merece respeito”, após declarações atribuídas ao comissário do Orçamento. Bolsa de Milão cai e juros da dívida disparam.

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Luigi di Maio, líder do 5 Estrelas, com o Presidente Mattarella e o primeiro-ministro indigitado em fundo ALESSANDRO DI MEO/EPA

Não há eleição italiana digna desse nome que não seja seguida por uma crise. Há décadas que assim acontece. Desta vez, num contexto pós-Brexit e com receios mais ou menos justificados de uma futura saída da terceira maior economia na zona euro da união monetária, investidores, bem como alguns membros da Comissão Europeia e do BCE, não disfarçam os nervos.

“Não há nenhuma justificação, excepto as emoções, para aquilo a que assistimos nos mercados”, afirmou o governador do Banco de Itália, Ignazio Visco. “A confiança na força do país é grande”, assegurou Visco, independentemente das “avaliações mesquinhas e desequilibradas” do impacto da instabilidade política na economia italiana. Mas Visco está preocupado: “Nunca nos podemos esquecer que estamos apenas a alguns passos do risco sério de perder um recurso insubstituível, a confiança”.

A Itália preparava-se há semanas para um governo de coligação entre a extrema-direita muito eurocéptica da Liga, de Matteo Salvini, e o partido anti-sistema Movimento 5 Estrelas, liderado por Luigi Di Maio, os dois partidos mais votados nas legislativas de 4 de Março.

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O presidente do Banco Central italiano, Ignazio Visco GIUSEPPE LAMI/EPA

Volte-face: confrontado com a escolha destes dirigentes para ministro da Economia e Finanças, o Presidente da República, Sergio Mattarella, vetou o nome de Paolo Savona, que não preconizando a saída do euro, defende que é urgente ter um “plano B”. Isto acabou por levar o primeiro-ministro indigitado (Giuseppe Conte) a renunciar

Mattarella pediu a um ex-director do Fundo Monetário Internacional, Carlo Cottarelli, para formar um governo de tecnocratas, que nunca passará no Parlamento e pouco mais fará do que ocupar-se da gestão corrente até à realização de novas eleições – entre Setembro e Outubro. 

O sentimento dos investidores mudou com a perspectiva de uma Itália bloqueada mais uns meses. Mais do que com a possibilidade de um governo com um programa que introduzia um sistema de títulos de dívida de curto prazo com que Roma poderia pagar suas dívidas a empresas (visto como um plano disfarçado para fazer circular uma moeda paralela), além de prever um enorme aumento da despesa pública, o que parece ter feito mudar.

A decisão de retirar aos partidos mais votados a hipótese de governar vai dar-lhes ainda mais força (as sondagens já mostram a Liga a subir dos 19% de Março para 27%), ao mesmo tempo que o debate sobre a relação do país com a União Europeia, responsabilizada pela decisão de Mattarella, se extremará a níveis inimagináveis.

Esta terça-feira, a bolsa de Milão chegou a cair cerca de 3%, antes de recuperar um pouco e depois de ter contagiado outras praças europeias e americana. Os efeitos da mudança de “emoções” também se fizeram sentir nos juros da dívida italiana, que dispararam para novos máximos desde 2013, com os investidores a escaparem para activos de menor risco, como o dólar ou a dívida alemã. 

Ao mesmo tempo, o número de investidores a acreditar que a zona euro vai perder pelo menos um dos seus membros nos próximos meses, mais do que triplicou (passando de 3,6% para 11,6%), segundo o índice mensal “de desintegração do euro” (do grupo de análise) Sentix.

Portugal também foi afectado, com a bolsa de Lisboa a cair mais de 2% e o BCP a liderar as perdas. O PSI-20 esteve a negociar no valor mais baixo desde Abril. Na dívida pública, o prémio de risco que os investidores estão dispostos a pagar também sofreu os efeitos dos nervos italianos, com os juros das obrigações do Tesouro a dez anos a subir para o valor mais alto desde Outubro.

O tweet

Crises e nervos não são bons conselheiros. A realidade italiana, como todas, é complexa. Alguma imprensa europeia, nomeadamente alemã, parece não perceber que criticar os italianos pelas suas escolhas democráticas não vai contribuir para que estes mudem o seu sentido de voto. E, às vezes, a vontade de partilhar exclusivos é má conselheira. Aconteceu com o jornalista Bernd Thomas Riegert, correspondente europeu do DW News, o canal de notícias em língua inglesa da emissora internacional alemã Deutsche Welle.

“Os mercados vão ensinar os italianos a votarem bem”, foi o que escreveu o jornalista num tweet, atribuído ao comissário europeu do Orçamento, Günther Oettinger, que acabou por apagar com um pedido de desculpas. Era, diz “um resumo das ideias deixadas pelo comissário na entrevista”, não exactamente as palavras que ele tinha usado. O próprio Oettinger não se terá apercebido do potencial de polémica, já que chegou a partilhar o tweet original.

O que disse então o comissário? “A minha expectativa é que as próximas semanas mostrem desenvolvimentos nos mercados, títulos e economia com tantas consequências que talvez isso se torne num sinal para os eleitores não entregarem responsabilidades aos populistas de direita e de esquerda”.

Ignora-se quais teriam sido as reacções se esta fosse a única citação conhecida. Como tudo se desenrolou, Salvini respondeu que “em Bruxelas não têm vergonha”, o Partido Democrático (centro-esquerda) pediu “respeito pelos italianos”, enquanto o M5S exigia ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que desmentisse Oettinger, descrevendo as suas palavras como “de uma gravidade inaudita, prova das evidentes manipulações que a democracia italiana sofreu nos últimos dias”.

Entretanto, o comissário da Economia, Pierre Moscovici, dizia que “os italianos têm o seu destino nas mãos”, e Vítor Constâncio, que este mês deixa a vice-presidência do Banco Central Europeu, lembrava Itália que se tiver problemas de liquidez e precisar de “ajuda” tem de cumprir “certas condições” e estar de acordo com “o mandato do banco”. “A Itália conhece as regras. Talvez as queiram rever”, afirmou numa entrevista à revista alemã Der Spiegel.

Os parasitas

A mesma revista publicou na semana passada no seu site um artigo intitulado Os parasitas de Roma. Assinado pelo jornalista Jan Fleischhauer, o texto pergunta “como se pode definir o comportamento de uma nação que primeiro vai pedir [dinheiro] para permitir-se financiar o seu proverbial ‘dolce far niente’ e depois ameaça aqueles a quem deve se esses insistirem nas regras da dívida?”. E continua: “Os mendigos pelo menos dizem obrigado”.

Ora, face a tanto diz que disse, Juncker acabou mesmo por intervir. “O destino de Itália não está nas mãos dos mercados financeiros”, afirmou o chefe executivo da União num comunicado. “Independentemente do partido que estiver no poder, a Itália é um membro fundador da União Europeia que contribuiu imensamente para a integração europeia”, acrescentou. “A Itália merece respeito”.

É bem possível que o mal esteja feito. Salvini, particularmente, parece ter sido muito hábil na condução da crise e tanto as reacções dos mercados como algumas das palavras ditas por estes dias encaixam perfeitamente na sua narrativa anti-Bruxelas, que submete os italianos “às regras de um projecto moribundo” enquanto os abandona com centenas de milhares de imigrantes e refugiados no seu território. Ao início da noite, em muitos sites de notícias italianos a citação inicialmente atribuída a Oettinger continuava em título.

A campanha já começou e nos próximos dias vai chegar à rua. Salvini pediu uma manifestação na sexta-feira; Di Maio apela a todos que ponham uma bandeira italiana à janela no sábado, mesmo dia em que devem “ocupar as praças”. A mensagem é simples: como diz Salvini, “não temos medo” de Berlim ou Bruxelas e é urgente que Itália “deixe de ter a sua soberania limitada”.