Shoplifters, de Hirokazu Kore-eda, recebe a Palma de Ouro da 71.ª edição de Cannes

Prémios ainda para Spike Lee, Nadine Labaki e Godard, e para os actores Samal Yeslyamova e Marcello Fonte.

Sakura Ando, ??Shoplifters, Hirokazu Kore-eda, como o pai, como o filho
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É uma história de família, daquelas a que talvez todos queiramos pertencer pelas cores e pelos sentimentos que são não só a sua promessa mas a sua realidade – toda ela inventada, claro. Porque é uma família que se formou pelo crime, pelo delito – e o roubo é apenas um deles –, é uma família recomposta com quem já falhou antes no casamento ou com quem foi vítima de abuso. Shoplifters, de Hirokazu Kore-eda, recebeu este sábado a Palma de Ouro de Cannes 2018, atribuída pelo júri presidido por Cate Blanchett, e que integrou ainda o actor chinês Chang Chen (Happy Together, de Wong Kar-wai), a argumentista, realizadora e produtora norte-americana Ava DuVernay (Selma), o realizador francês Robert Guédiguian, a cantora do Burundi Khadja Nin, a actriz francesa Léa Seydoux (A Vida de Adèle), a actriz americana Kristen Stewart, e os cineastas Denis Villeneuve e Andrey Zvyagintsev.

Belíssimo palmarés da presidente e dos seus jurados, que fecham sem mácula uma prestação que há duas semanas começara com uma conferência de imprensa em que resistiram à produção de simplificações, à fixação de agendas sobre a sua equipa; em que assumiam o voto na longa duração. Este palmarés é o exercício dessas intenções: o trumpismo e o racismo, através do filme de Spike Lee (a história inacreditável mas verídica de um polícia negro que se infiltrou no Ku Klux Klan), os imigrantes, o cinema como plataforma, como porta-voz, através do filme de Nadine Labaki (a ficção, rodada com histórias reais, de um miúdo de 12 anos que leva os pais a tribunal por lhe terem dado vida), estão no palmarés, com queles que eram os dois títulos favoritos, BlacKkKlansman e Capharnaüm, sintonizados com a desordem bíblica do mundo. Mas nem Spike Lee chegou ainda à Palma, ele que é dos históricos do festival (e um dos seus "derrotados" históricos), nem a estreante no concurso, a libanesa Labaki, autora do filme empático desta edição.

A Palma de Ouro fechou-se assim no espaço da intimidade como lugar de reinvenções também veementes, naquele que é o melhor dos últimos filmes do realizador de Nobody Knows/Ninguém Sabe (2004), resgatando o seu cinema à música ambiente com que vem decorando os festivais (O Terceiro Assassinato, que se estreou há semanas em Portugal, competiu por exemplo no último Festival de Veneza).

O affaire Weinstein

Tudo, na cerimónia, começara com o dedo apontado ao mundo, com o j'accuse de Asia Argento, a contar que em 1997, quando tinha 21 anos, ali mesmo, em Cannes, fora "violada" por Harvey Weinstein, e que o festival, com muitos dos que estavam ali sentados, tinham sido não apenas cúmplices como mesmo o ambiente propício a esse tipo de comportamento – desejou a actriz que Weinstein nunca mais seja aceite no festival.

O palmarés propriamente dito foi primeiro ao prémio de interpretação feminina, atribuído a Samal Yeslyamova, por Ayka, de Sergey Dvortsevoy, maravilhosa e dolorosa epopeia por Moscovo, colocando-nos no corpo, nas dores, de uma mulher que acabou de dar à luz mas não tem tempo para ser mãe, porque tem dívidas. Seguir Samal e seguir o actor premiado, Marcello Fonte (Dogman), em quem o italiano Matteo Garrone disse ter encontrado a poesia lunar de Buster Keaton, seu ídolo, foram duas revelações do festival; com eles, por eles, acedemos aos filmes, eles são-nos revelados. Curioso ter sido Roberto Benigni a entregar o prémio a Marcello, actor de 39 anos que pode ser encontrado em Corpo Celeste (2012) de Alice Rohrwacher (vencedora, ex-aequo com 3 Faces de Jafar Panahi, do prémio de argumento por Lazzaro Fellice) e que tem em Dogman o seu primeiro papel principal como tratador de cães abusado por um bully cocainómano: uma das versões iniciais do argumento, quando Dogman ainda se chamava O Amigo do Homem, chegou a ser proposta a Benigni.

E last, but not the least, o júri de Cate Blanchett fez uma coisa bonita, pediu autorização aos directores do festival para atribuir uma Palma de Ouro Especial a Jean-Luc Godard, por Le Livre d'Image mas sobretudo por tudo o que o cineasta continua infatigavelmente a perseguir. Godard, 87 anos, tanta determinação e tanta tristeza, que segundo ele nunca é de mais para o mundo poder vir a ser melhor, foi uma espécie de Jesus Cristo anunciado na 71.ª edição. Ele que não esteve em Cannes mas está em todo o lado, materializado e desdobrado, encontrou-se com os fãs através de telemóvel – naquilo que, em descrição terrena, deve ter sido uma conferência de imprensa.

Palmarés completo da 71.ª edição do Festival de Cannes

Palma de Ouro Shoplifters, de Hirokazu Kore-eda

Grande Prémio BlacKkKlansman, de Spike Lee

Prémio do Júri Capharnaüm, de Nadine Labaki

Palma de Ouro Especial Jean-Luc Godard, Le Livre d'Image

Prémio de Realização Pawel Pawlikowski, por Cold War

Prémio de Argumento (ex-aequo)Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher, e 3 Faces, de Jafar Panahi

Prémio de Interpretação Feminina Samal Yeslyamova, por Ayka, de Sergey Dvortsevoy

Prémio de Interpretação Masculina Marcello Fonte, por Dogman, de Matteo Garrone