Godard, em todo o lado

Um homem de 86 anos encontrou-se com os fãs através de telemóvel. Não esteve presente em Cannes, está em todo o lado. O seu Le Livre d’Image, leitura das mensagens com que as imagens do passado anunciam o nosso futuro, parece ter a violência do último dos homens.

Cannes, 2018 Festival De Cinema De Cannes, O Livro De Imagens, Festival De Cinema
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Conferência de imprensa de Jean-Luc Godard em Cannes através do FaceTime Reuters/REGIS DUVIGNAU
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Jean-Luc Godard Reuters/REGIS DUVIGNAU
2018 Festival De Cinema De Cannes, Palais des Festivals et des Congrès, Festival, Film
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Jean-Luc Godard Reuters/REGIS DUVIGNAU
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“Godard não está aqui, ou seja aqui em baixo, il est là-bas’” – algures em Rolle, no cantão de Vau, na Suíça. Mas a sua presença desceu este sábado sobre o Festival de Cannes, onde “il n’est pas ici en bas, il est là-bas” foi a nada inocente introdução do jornalista Gérard Lefort aos procedimentos para receber Jean-Luc Godard: por FaceTime, no telemóvel. Os jornalistas faziam fila para dizerem “bom-dia” a um ecrã — saudação intimidada ou excitada pelos nervos —, antes de apresentarem as suas questões; o som, a voz de Godard, depois irradiava para toda a sala das conferências de imprensa.

Foi godardiana esta experiência do som e da imagem como vidas com vida própria, e foi um ritual íntimo, como entre amigos — estava-se entre espessuras variadas do “fã”, mas era comum a todos o quererem fazer um beija-mão virtual.

Godard está em todo o lado, foi o que quis dizer Lefort, está desmaterializado e desdobrado. Está no cartaz do festival, a partir de uma foto de plateau de Pierrot le Fou. Está na história de Cannes, onde pela primeira vez apareceu em 1962 como figurante no Cléo de 5 à 7/ Duas horas da vida de uma mulher de Agnès Varda — e há 50 anos interrompia as festividades a pedir solidariedade para com os estudantes e operários que se manifestavam em Paris, no Maio de 68, chamando “estúpidos” aos que insistiam em falar de travellings e de grandes planos.

O ano passado foi representado na competição por um “duplo” (Louis Garrel que o interpretava em Le Redoutable de Michel Hazanavicius) e enviou a sua ausência (o final do documentário de Agnès Varda e JR Visages Villages, em que falhava um encontro). Este ano enviou para o concurso um filme, Le Livre d’Image, que parece ter tido os dedos do último dos homens, a mão da violência e solidão do último dos homens. Diz ele que a maior parte dos filmes conta “aquilo que se faz”, o que está a tornar o cinema num Facebook, e que os dele “são sobre o que não se faz, por isso sobre aquilo que não está no facebook”.

Filme sem actores (“os actores contribuem para o totalitarismo da imagem filmada contra a imagem pensada”) e até sem cão, o que havia ainda no anterior Adieu au langage, Le Livre d’Image é um filme-pilhagem como nas Histoire(s) du Cinéma, em que a rodagem é a montagem de arquivos, picando textos, músicas, filmes, quadros. Denuncia às tantas as mentiras de Joan Crawford no Johnny Guitar de Nicholas Ray cortando-lhe a palavra (sabe-se que os homens matam aquilo que amam) e acaba com a dança ferida de morte do velho que procura em vão a juventude perdida no episódio Le Masque, de Le Plaisir, de Max Ophuls.

Le Livre d’Image acaba ferido, com o som, a voz e os aforismos a sobreporem-se, a agredirem-se, tonitruante espectáculo desta leitura, nas ruínas do passado, dos convites que foram endereçados ao futuro. As imagens, alteradas, violentadas, empasteladas de cor, são portadoras de mensagens — a maior parte das vezes, porque Le Livre d’Image é um filme de Godard, criptadas. Existe o cinema (de Aldrich, de Welles, de Dovjenko, de Duvivier… há Marilyn, das fotografias de Bert Stern e de George Barris), existe a música e os textos, é impossível e inútil sinalizar e enumerar, é um território de guerra e em guerra. Não é metáfora, o filme fala do mundo árabe e do Ocidente. Não é análise geopolítica, não tem ambição ensaística, é parábola, conto, turbilhão. Disse Godard, quando falou à imprensa: “O Ocidente quer ocupar-se dos árabes, mas os árabes não precisam que tomem conta deles, foram até eles que inventaram a escrita.”

A violência de Le Livre d’Image, que é algo de autodestrutivo, poderia configurar também um objecto autoparódico. Isto se Godard se permitisse o humor — o que ele tem ou não tem era aliás o tema nos corredores, como operação de limpeza de estilhaços a seguir ao bombardeamento: ele não é generoso, ele dificulta de propósito, ele é um génio artístico mas um deficiente ser humano (“viste o que ele fez à Varda?”), ele não é como Buñuel, que permitia que se acedesse ao inexplicável através do humor, ele... etc. Ele é, isso sim, portador de uma solidão, e do sentido da sua espectacularização, que faz de Le Livre d’Image um momento de agudização — e obviamente de saturação — de uma experiência. E, claro, dos rituais de um festival. Não tenhamos dúvidas: Godard em Cannes não é experimentado contra Cannes, Godard em Cannes, tal como outra estrela de cinema, produz uma das suas apoteoses.

87 anos e tanta determinação, vitalidade no ecrã, como faz, o que o faz querer ainda dizer e fazer?, perguntaram-lhe. A voz que respondeu tem a idade e a tosse de um octogenário. “As pessoas têm geralmente muita coragem com as suas vidas mas não têm coragem para as imaginar. Eu saio-me mal com as coisas da minha vida mas tenho coragem para a imaginar”. E sobre testamentos... saiba-se que Jean-Luc Godard quer continuar, dependendo um pouco das suas pernas e muito das suas mãos.