Entrevista

“Só há uma coisa a fazer para ser feliz: parar de ser infeliz”

Mo Gawdat é engenheiro, estudou sobre o que nos faz infelizes e desenhou uma equação. Essa ajuda-o a ser feliz, mesmo depois de o seu filho mais velho ter morrido.

miguel manso
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miguel manso

Mil milhões de pessoas felizes. Esse é o objectivo que Mo Gawdat traçou para os próximos tempos. O engenheiro que abandonou em Fevereiro a direcção da Google X, a divisão que desenvolve os projectos futuristas daquela empresa, quer espalhar o seu modelo de felicidade pelo mundo. "Sei que vou perder dinheiro, mas não quero saber. É por Ali que o faço. Eu vou ficar bem", diz ao PÚBLICO. Ali é o seu filho que em 2014 morreu, com 21 anos, por causa de um erro médico numa operação de rotina.

O que tem ajudado Mo Gawdat a conseguir ser feliz é o modelo que já desenvolvera e aplicava na sua vida havia nove anos: "A nossa felicidade é igual ou maior do que a diferença entre os acontecimentos da nossa vida e as expectativas que temos." Esta é A Equação da Felicidade, que dá nome ao livro que o fez vir a Portugal recentemente, editado pela Lua de Papel. 

Esta equação pode mesmo ser uma aplicação ou não fosse Mo Gawdat engenheiro. A primeira ideia que teve foi criar uma app que transformasse o smartphone num telefone, só com a capacidade de fazer e receber chamadas e SMS. Nada mais, porque as tecnologias "não trouxeram felicidade". Mas será mais do que isso, promete.

Tal como o rei Midas, também chegou a um ponto da sua vida em que concluiu que o dinheiro não traz felicidade?
Não sou o único! Fui muito feliz até aos 23 anos, depois deixei de o ser, embora tivesse a minha família e fossemos muito felizes. Aos 29 anos tornei-me tão bem sucedido, rico e tinha uma mulher linda e fantástica, dois filhos maravilhosos e sentia-me miserável, deprimido. E isso não é assim tão raro. Tenho muitos amigos ricos, bem-sucedidos na área da tecnologia e da finança, chefes de Estado que também concluíram que o dinheiro não compra felicidade.

Como é que se chega a essa conclusão?
Já alguma vez procurou as chaves e elas estavam no seu bolso? O mesmo acontece com a felicidade, nós nascemos felizes. Se olharmos para qualquer criança, ela é feliz. Depois crescemos e vamos perdendo a felicidade porque a sociedade diz-nos para dar prioridade ao sucesso. Depois começamos a procurá-la, mas achamos que é um produto de consumo – compramos um carro, umas férias e que isso tornar-nos-á felizes. Há multimilionários que olham para outros e pensam: “Ele é mais rico do que eu.” Há top models que olham para o lado e dizem: “Ela é mais magra do que eu.” O que eu digo é que a felicidade não está fora de nós. 

Como é que descobrimos a felicidade dentro de nós?
Voltemos ao exemplo da criança: quando fica com a fralda molhada, chora; quando mudamos a fralda, volta a ficar feliz. O que aconteceu é que lhe tirámos a razão da sua infelicidade. Na minha pesquisa [para descobrir a equação da felicidade] descobri que só há uma coisa a fazer para ser feliz: parar de ser infeliz!

Isso não é difícil?
Parece que é difícil! O que é preciso fazer é tornar a felicidade "a" prioridade. Ou seja, é preciso que a pessoa decida que quer ser feliz. É preciso parar de acreditar nas promessas vazias do mundo moderno. Parar de acreditar que o sucesso, o ego, a imagem, os gadgets ou o dinheiro são mais importantes do que a felicidade.

Como é que isso se faz?
Como engenheiro comecei a fazer gráficos onde escrevia as vezes que me sentia feliz, tentei encontrar um padrão e descobri que há uma equação.

A que dá o nome ao livro?
Sim, a equação diz que a nossa felicidade é igual ou maior do que a diferença entre os acontecimentos da nossa vida e as expectativas que temos sobre como a nossa vida deveria ser.

Ou seja?
Cada momento da nossa vida em que nos sentimos infelizes foi porque esta nos deu algo que não queríamos. Por exemplo, em Portugal houve uma seca, por isso, quando começou a chover, as pessoas sentiram-se felizes.

Mas depois, choveu durante demasiado tempo…
Exactamente! E as pessoas começaram a sentir saudades do sol. A chuva em si não nos faz felizes ou infelizes; mas se queremos chuva, esta faz-nos felizes. Quando pensamos nisso, percebemos que a infelicidade é um mecanismo de sobrevivência. O nosso cérebro só quer que estejamos seguros, por isso, quando olhamos para os acontecimentos da nossa vida, perguntamo-nos se estes cumprem as nossas expectativas, se não cumprirem somos alertados na forma de emoções como a preocupação, a ansiedade, a tristeza, a raiva… emoções negativas que nos fazem infelizes. Caso contrário, o nosso cérebro cala-se e somos felizes.

No livro diz que a voz que ouvimos no nosso cérebro não é a nossa. É a de quem, da sociedade?
É o nosso cérebro a repetir o que aprendeu ao longo dos anos. O produto biológico do nosso cérebro são os pensamentos e alguém nos convenceu que estes somos nós.

Não somos nós que pensamos?
Não. É o nosso cérebro que pensa. É uma grande diferença.

Mas é o nosso cérebro.
Como é o nosso coração que bombeia o sangue. É uma função biológica. Se a voz na nossa cabeça fôssemos nós a falar connosco, por que é que precisávamos de falar connosco? Em 2009, o MIT fez um estudo e observou, através de ressonância magnética como se comportava o cérebro humano na resolução de problemas. Às pessoas foi-lhes pedido para fazer um puzzle e as áreas do cérebro que resolvem iluminavam-se uns segundos antes do que a área da associação verbal. Portanto, o cérebro resolve primeiro e depois é que verbaliza, fala connosco. E pode estar certo ou errado.

Tenho de controlar o meu cérebro, é isso?
Sim, quem comanda somos nós. Eu tenho um contrato com o meu cérebro: ou me dá um pensamento feliz ou ou me dá um pensamento útil, não quero que me dê um que me faça ficar sentado uma hora a sentir-me horrivelmente. Vou dar um exemplo triste, como sabe, eu perdi o meu filho Ali [em 2014] e o meu cérebro começou a falar comigo e a dizer-me: “Nunca mais vamos ver o Ali, devias tê-lo protegido, levado para outro hospital.” Horas e horas a pensar no mesmo e depois eu disse ao meu cérebro: “O que é que eu posso fazer agora? Podes dar-me alguma coisa que eu possa fazer? Não me dês o problema, mas a solução.” E o meu cérebro desapareceu por umas horas e regressou com a proposta de escrever este livro. Um pensamento útil que não traz o meu filho de volta, mas que torna a sua perda mais suportável. Todas as manhãs, acordo e sinto a sua falta. O meu cérebro lembra-me que Ali morreu e eu digo-lhe: “Ali viveu 21 anos maravilhosos, ele era a pessoa mais feliz e trouxe tantas bênçãos e alegrias à nossa vida.” E quando o digo, o meu cérebro começa a lembrar-se dos momentos em que Ali e eu rimos, em que tocamos, tudo memórias válidas, mas que são também pensamentos felizes. Portanto, sou eu que estou em controlo, eu digo ao meu cérebro o que quero que ele faça.

Não há momentos em que o cérebro vence?
Absolutamente. É um mecanismo de sobrevivência, é importante que sintamos a dor da infelicidade. Há uma diferença entre dor e sofrimento. A dor vem do exterior – eu perdi Ali, eu sinto dor. O sofrimento é eu fechar-me e ficar a pensar no mesmo para o resto da vida. Até tomar uma acção nada vai mudar. Se o que estamos a fazer é inútil, porque continuamos a fazê-lo? Temos de conhecer as nossas emoções e quando algo não está bem, saber o que é preciso mudar.

E é nesse momento que encontro a felicidade?
No momento em que mudamos de pensamento, em que agimos, já não estamos infelizes. Mas há coisas que nos acontecem que não podemos remediar. Ali morreu e não há nada que eu possa fazer. Então temos de aceitar e comprometermo-nos. E isso é o mais interessante: comprometermo-nos é tentar fazer algo para que o mundo seja melhor. Não vamos consertá-lo, mas melhorá-lo. É o que estou a fazer, a tentar fazer as pessoas felizes e a tentar fazer com que a vida valha a pena.

Foi por isso que abandonou o projecto Google X?
Saí porque esta missão tornou-se enorme: chegar a mil milhões de pessoas.

O objectivo inicial foi dez milhões. Como é que sabe se essas pessoas continuam felizes?
A missão consiste em três passos: dê prioridade à sua felicidade; invista na sua felicidade uma hora por dia, leia, vá ter com amigos, esteja com pessoas felizes; encontre a felicidade e a compaixão dentro de si para a partilhar com pelo menos duas pessoas. Depois de a versão inglesa do livro ter saído, comecei a dar entrevistas e muitas tornaram-se virais. As pessoas começaram a partilhar com os amigos, o movimento cresceu depressa. Mil milhões parece-me uma loucura, mas se um único vídeo pode chegar a cinco milhões de pessoas, nos próximos cinco anos preciso de 200 vídeos.

Eu leio o livro ou vejo o vídeo e torno-me feliz para sempre?
Ninguém será feliz para sempre. Eu não sou. A infelicidade é importante, por exemplo, para sentirmos arrependimento se formos agressivos com um amigo e pedirmos desculpa. Eu não estou sempre feliz, mas meço o tempo que demoro a voltar a ser feliz. Às vezes são precisas duas horas, outras vezes é no mesmo momento.

Por que nos queixamos?
98 a 99% das vezes em que nos sentimos infelizes é desnecessariamente. Por exemplo, pode passear por Lisboa e criticar tudo à sua volta, então experimente ir à Síria; vai a um restaurante e a comida está fria, experimente África onde não há comida – só assim compreendemos como a nossa vida é abençoada. Aterro em Nova Iorque e sei que vou ficar mais tempo na fila porque sou egípcio, é a realidade e não vale a pena queixar-me. Se o meu voo se atrasar, será sempre melhor do que há cem anos quando se ia de barco e este podia naufragar. 

Mas isso não nos torna resignados? As expectativas não nos ajudam a evoluir?
Queixarmo-nos é melhor para nós? Não. Temos de agir quando algo está mal, para que fique melhor. A investigação diz que as pessoas felizes são 12% mais produtivas. Porquê? Porque agem, não ficam presas a queixar-se.

Podemos ser felizes através da religião?
É um tema sensível. Quando escrevi o livro, o meu editor disse-me para evitar os dois últimos capítulos [sobre a morte e quem fez o homem] que são sobre a vida espiritual, mas eu perdi o meu filho. E para ser feliz sem Ali eu tinha de compreender o que fica para lá da física. O nosso verdadeiro eu não é físico. As pessoas confundem espiritualidade com religião. A religião tem muitas regras e, em qualquer uma, 98% dos ensinamentos não estão na sua origem, mas foram escritos muitos anos ou séculos depois, são interpretações. E, por isso, muitas pessoas afastam-se.

A espiritualidade faz-nos felizes?
No mundo moderno, as pessoas estão muito focadas nelas e são infelizes. Há felicidade na espiritualidade, na descoberta que não estamos sozinhos, que a nossa forma física não é o final. Eu acredito que o verdadeiro Ali está vivo.

As teorias quântica, do Big Bang e a da relatividade podem ajudar-nos a compreender a vida e a morte. A morte não é o oposto da vida, mas o oposto do nascimento e ambos são portais através dos quais entramos e saímos desta forma física. A vida é independente de tudo o que é físico. Que vida surgiu primeiro: a minha ou a de Ali? Quem morreu primeiro? O que significa ‘primeiro’ ou ‘último’ se todo o tempo existe de igual modo?

O pai de Ali precisa de acreditar nisso?
Não, é a ciência que nos diz isso! Para a ciência, sem observação é como se as coisas não existissem. Por exemplo, o amor, alguém faz pesquisa para o compreender?

A psicologia?
Sim, mas não outras ciências e o amor tem de ter propriedades físicas.

Sem amor não há felicidade?
O amor é tudo o que precisamos. Sabemos que o amor existe porque o sentimos, mas é difícil convencer as pessoas em termos científicos porque não temos forma de o medir.

Que conselhos dar a pais em luto?
(Suspiro) Diria que a dor não se vai embora, infelizmente, ficará sempre connosco, mas aprendemos a viver com ela, por isso, abrace-a. Não resista e chore. Eu, o homem da felicidade, choro muito porque amo o meu filho e vou sentir sempre a sua falta. Mas quando abraçamos a nossa dor, a sentimos, a compreendemos, só então começamos a aceitá-la. Se tivéssemos a oportunidade de perguntar o que é que o nosso filho quereria para nós, se quereria que chorássemos para sempre, que não voltássemos a comer, que não voltássemos a rir, a ouvir música… Por que é que o nosso filho quereria que não fossemos felizes? Ele quer que eu seja feliz. Por isso, vou fazer isso mesmo.