“Esta tecnologia só pode trazer benefícios à humanidade”

Há um novo modelo artificial para o estudo dos primeiros momentos de desenvolvimento de um embrião. Por enquanto, só pode ser feito com células estaminais de ratinhos, mas já está a discutir-se se o mesmo pode ser feito com células humanas.

Foto
Representação de vários blastóides Nicolas Rivron

Esta quarta-feira, uma equipa de cientistas anunciou a criação de embriões sintéticos na fase de blastocisto (com alguns dias de desenvolvimento) com células estaminais de ratinhos – os blastóides. Este avanço traz novas possibilidades para o estudo da gravidez, assim como o desenvolvimento de novas terapias médicas. Tecnicamente, é possível aplicar esta técnica usando células estaminais humanas, mas ainda não é permitido legalmente. Tudo isto levanta questões éticas: o que está em jogo com a criação de blastóides humanos?

“Cientificamente, sem dúvida que os blastóides humanos conduzem a um conhecimento novo, fundamental e aplicável”, considera Nicolas Rivron, do Instituto de Medicina Regenerativa Inspirada na Tecnologia da Universidade de Maastricht (Holanda) e líder da equipa que desenvolveu os blastóides. Mas faz notar que antes do desenvolvimento de blastóides humanos é necessário um debate ético para que se faça uma avaliação equilibrada deste novo modelo. “Este debate é sobretudo sobre as seguintes questões: deverão os embriões humanos ser protegidos tal como os embrião da fertilização in vitro? Ou seria aceitável um alargamento das regulações?” Nicolas Rivron diz que está pronto para colaborar nesta discussão.

PÚBLICO -
Foto
Modelo de um blastóide, em que as células verdes iriam originar a placenta e as castanhas o feto Nicolas Rivron

Estas novas descobertas, no seu limite, podem colocar algumas questões éticas que não são suficientemente profundas para inviabilizar o decurso natural da ciência, mas que têm de ser ponderadas”, diz, por sua vez, Rui Nunes, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Associação Portuguesa de Bioética, e que não participou nesta investigação. Rui Nunes aponta três questões éticas fundamentais. Primeiro, deve ser respeitado o estatuto do embrião. “De algum modo, este tipo de tecnologia deve ter em atenção que o embrião humano, para algumas pessoas, é uma entidade que deve ser respeitada e preservada.”

Depois, estão os interesses gerais da espécie humana, como a manipulação do genoma. “Devemos ter a sensibilidade para perceber que uma coisa é encontrar novas formas de cura e tratamento e outra é usarmos este tipo de tecnologia para outros fins”, explica Rui Nunes, dando o exemplo da criação de espécies híbridas. Por fim, deve ser considerada a questão da preservação da identidade e da dignidade das pessoas.

Para que tudo isto se cumpra, Rui Nunes lembra que existem convenções internacionais e os organismos reguladores internacionais e nacionais. No caso de Portugal, existe o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida.

E os blastóides deverão ser considerados seres vivos? Para Nicolas Rivron, mesmo os blastocistos, que é uma fase inicial de desenvolvimento dos embriões, são vida mas não seres vivos. “Os blastocistos são embriões demasiado precoces para serem consideradas entidades vivas”, responde Nicolas Rivron, acrescentando que os blastocistos não devem ser considerados como tendo o mesmo estatuto dos recém-nascidos. O cientista defende que há vários graus de respeito pela vida e que o debate deve ser feito consoante esses diferentes graus. “A formação de um ser humano é um processo contínuo no qual não há um momento nítido que possa ser classificado como o momento em que um grupo de células se torna um ser humano.”

Sobre esta discussão, Rui Nunes começa por dizer que a vida humana é um conceito complexo. “Uma coisa é falarmos da pessoa humana, ou seja, uma pessoa racional e pensante. Quando falamos no domínio da investigação e da manipulação de células, o conceito de vida humana é mais lato.” Rui Nunes diz que um blastóide é já um ser vivo, mas que a questão é outra ainda. “A questão não é tanto se se trata de vida humana, mas se estas células têm o potencial de se desenrolar numa pessoa humana como nós”, indica, dizendo que também há a questão do grau de salvaguarda que deve ter. “Isso vai depender da perspectiva de cada um de nós.”

PÚBLICO -
Foto
Rui Nunes, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto José Carmo/Arquivo

Rui Nunes não tem dúvidas de que devem ser desenvolvidos blastóides com células estaminais humanas. “Diria que num ambiente de forte supervisão ética, se calhar nem é uma opção não se fazer esta experimentação com células humanas. O que queremos é tratar humanos e um dia, no futuro, encontrar a solução para os seus problemas.” Para isso, deixa um conselho: “É absolutamente essencial que os cientistas tenham uma envolvente ética suficientemente musculada para que não haja aqui distorções em relação àqueles que são os desígnios centrais da medicina e da ciência.” 

Também Nicolas Rivron deixa essa salvaguarda. “Estou interessado em ajudar e proteger vidas humanas e oponho-me fortemente à clonagem humana. Acredito que a investigação em células estaminais tem utilidade suficiente para atenuar as doenças humanas e o sofrimento”, sublinha. “Creio que esta tecnologia só pode trazer benefícios à humanidade”, resume Rui Nunes, acrescentando: “Diria que [a biologia sintética] é um enormíssimo desafio. E talvez seja, a par com a inteligência artificial, o desafio da humanidade do século XXI: teremos de enquadrar eticamente estas novas formas de criar racionalidade.”