Como Trump se tornou o eixo à volta de quem a Ásia e a Europa giram

O Presidente dos Estados Unidos está cada vez mais seguro da sua política externa e reivindica o papel de negociador-em-chefe do mundo. Os aliados visitaram-no, pedindo-lhe mudança de rumo. Mas após o êxito (que considera seu) na Península Coreana, deixa claro que será ao seu estilo e nos seus termos que vai lidar com outros temas, como o Irão ou o comércio mundial.

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Na sexta-feira, o Presidente Donald Trump posicionou-se no centro da notável cimeira entre os líderes do Norte e do Sul da Coreia, reivindicando o mérito pela diplomacia inovadora e arrojada que, depois de todos os outros terem falhado, pode ter aberto o caminho da paz.

“É sem dúvida uma coisa que eu espero fazer pelo mundo”, disse Trump. “Isto ultrapassa os Estados Unidos. Isto é um problema mundial, e é uma coisa que espero poder fazer pelo mundo”.

A dramática reviravolta nos acontecimentos na península coreana foi a pedra angular de uma semana que cristalizou a forma de Trump abordar a política externa — uma forma que assenta largamente no orgulho que sente quando derruba velhas convenções das negociações diplomáticas e as reinventa à sua imagem.

O mundo vai-se adaptando.

O Presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel visitaram a Casa Branca na semana passada esperando convencer Trump a não abandonar o acordo sobre o nuclear iraniano e a recuar nas políticas comerciais proteccionistas. Mas quando se foram embora já tinham desistido de tentar convencer Trump de que está errado, optando antes por trabalhar contornando o que os separa.

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A primeira-ministra britânica, Theresa May, manteve Trump à distância nos últimos meses. Mas apesar da ameaça de se realizarem grandes protestos contra o Presidente dos EUA no Reino Unido, nesta semana que passou convidou-o finalmente para uma visita ao país que é muitas vezes chamado de aliado mais próximo da América.

E o Senado confirmou a nomeação de Mike Pompeo, um aliado político de Trump e antigo congressista da ala ultra-conservadora Tea Party do Partido Republicano, como secretário de Estado (equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros), dando ao Presidente uma equipa de política externa mais alinhada com as políticas internacionais que promoveu durante a campanha eleitoral.

As manobras de política externa de Trump, em particular sobre a Coreia do Norte, arrastam consigo grandes riscos. Pyongyang já provou no passado que é um negociador em quem não se deve confiar; um fracasso nas negociações pode inflamar a tensão e fazer com que se retroceda para o ponto em que se estava há apenas um mês, quando havia o risco de um confronto militar. E se Trump abandonar o acordo com o Irão, vai ser pressionado para encontrar uma nova abordagem que mantenha a ambição nuclear de Teerão controlada.

Apesar de Trump se gabar que a sua retórica comercial dura está a levar os países para a mesa das negociações, os republicanos no Congresso mostram abertamente a sua irritação com a possibilidade de as guerras comerciais serem desastrosas para a economia americana e para as hipóteses de sucesso dos seus partidos nas eleições de Novembro. Porém, por enquanto, o Presidente desvaloriza os críticos, que diz não passarem de pessimistas que falharam onde ele vai ser bem sucedido.

“Adoro sempre que vejo pessoas que falharam tanto nos últimos 25 anos explicarem-me como devo chegar a acordo com a Coreia do Norte”, disse Trump na sexta-feira, durante a conferência de imprensa com Angela Merkel na Casa Brabca. “Adoro, adoro mesmo”.

Trump deu a volta ao processo tradicional de negociar um passo de cada vez. Deixou alguns conselheiros de boca aberta ao aceitar de imediato a oferta de negociações directas com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un. O encontro projecta a imagem de Trump como o negociador-em-chefe — e ele parece gostar dessa imagem.

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“No passado, [a Coreia do Norte] andou a brincar com os Estados Unidos", porque havia "um tipo diferente de líder" de quem Pyongyang se podia aproveitar, disse Trump na sexta-feira. “Isso agora não vai acontecer”.

Horas antes, Kim tinha cruzado a fronteira para Sul onde o esperava o abraço do Presidente Moon Jae-in. Durante a visita de uma hora à fortemente militarizada fronteira da península coreana, Kim lançou as bases para um encontro com Trump, que se espera aconteça já em Maio. A promessa de Kim de desnuclearizar estará sobre a mesa das conversações.

Trump diz que impôs a discussão sobre o tema com a postura dura que manteve no primeiro ano da sua presidência, e prometeu ser um negociador mais directo do que qualquer um dos seus  antecessores. 

Trump também credita o vínculo pessoal que forjou com o Presidente chinês, Xi Jinping, pela rápida reviravolta em relação à Coreia do Norte, o aliado comunista da China (que é o garante da economia norte-coreana).

“Estão todos surprendidos com a forma como [Xi] apertou” a Coreia do Norte, disse Trump. “Todos disseram que ele ia limitar-se a falar no assunto, mas sem fazer nada. Afinal fez, por causa da nossa relação”.

Trump considera que também ajudou a Coreia do Sul a abrir a porta às negociações, através do seu apoio aos Jogos Olímpicos de Inverno que ali se realizaram em Fevereiro. Com a benção de Trump, a Coreia do Sul convidou a Coreia do Norte a enviar atletas e dignitários, transformando os jogos num espectáculo de diplomacia desportiva depois de quase 70 anos de conflito e hostilidade entre as duas Coreias.

O senador republicano Lindsey Graham, um habitual crítico de Trump em matéria de política externa, mostrou-se muito entusiasmado em relação à mudança de clima na peínsula depois de meses de insultos entre Trump e Kim.
“Ainda não chegámos onde é preciso, mas se isto acontecer, o Presidente Trump merece o Prémio Nobel da Paz”, disse Graham na sexta-feira.

A visita cordial que Merkel fez a Trump na sexta-feira à tarde foi pálida em comparação com a excitação e os afectos na visita de três dias de Macron.

Merkel veio oferecer os argumentos finais a favor da manutenção do acordo de 2015 sobre o nuclear iraniano, antes da data de 12 de Maio em que Trump decide se mantém a suspensão das sanções económicas contra o Irão [foram levantadas ao abrigo do acordo de 2015 e devem ser revistas periodicamente]. Macron já tinha sugerido que não conseguiu convencer Trump, que se opõe a um acordo que apelida de “mau”.

Merkel também queria apresentar argumentos que convencessem o Presidente dos EUA a isentar a Europa de taxas sobre o aço e o alumínio que devem entrar em vigor já a 1 de Maio. Tal como acontece com o acordo do Irão, as justificações de Trump para taxar estas importações estão enraízadas na sua visão populista do mundo — a sua máxima “A América em Primeiro Lugar”, o slogan de campanha que aplicou à realidade apesar dos protestos horrorizados dos aliados e de alguns no seu próprio Partido Republicano.

O facto de os aliados tradicionais terem vindo até ele, pedindo uma mudança de fundo em matérias em que os Estados Unidos e a Europa já caminharam juntos, mostra até que ponto Trump reescreveu as regras.

“O Presidente vai decidir. Isso ficou muito claro”, disse Merkel. “Trocámos opiniões sobre o estado das coisas nas negociações, e deixámos claro qual é a nossa posição. E a decisão está do lado do Presidente”.

Merkel governa o país mais populoso da Europa, e é quem está há mais tempo no poder entre as maiores potências europeias — é um dos pilares do tipo de política de consenso cautelosa que Trump instintivamente rejeita. 

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Mas passado um ano desde o seu primeiro incómodo encontro na Casa Branca, dominado pela irritação de Trump devido à contribuição alemã para a NATO, que diz ser insignificante, Merkel parece ter encontrado uma forma de lidar com os desentendimentos políticos que tem com um líder que tem que cortejar. Disse aos jornalistas que disse a Trump que, na sua opinião, o acordo com o Irão “está longe de ser perfeito”, mas evitou dar pormenores sobre as diferenças de opinião.

Trump sorriu quando Merkel passou para o tema da NATO, e para a queixa de Trump de que os EUA pagam demasiado, usando uma terminologia que ele própria usaria. “A Alemanha e a Europa têm que se responsabilizar por si próprias, não podem continuar a depender da América, esperar que venha em nosso auxílio, como fazíamos no período da Guerra Fria, quando a Alemanha estava dividida”.

Trump, que é bastante impopular na Alemanha, encolheu os ombros quando um jornalista alemão o questionou sobre os seus “tweets agressivos” e a forma brusca como aborda a diplomacia.

“Quando olhamos para os números na Alemanha, e noutros países, acredito que não gostem muito de Donald Trump. Mas tem que perceber uma coisa: isso significa que estou a fazer um bom trabalho porque eu represento os Estados Unidos”.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post