Jean Tible, politólogo brasileiro

Marina Silva não está vinculada a nenhuma agenda progressista

A entrada de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, nas eleições brasileiras, pode vir a ter um forte impacto, diz o analista Jean Tible.

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Marina Silva, na campanha de 2014 Nacho Doce/REUTERS

As opções políticas que Marina Silva tomou ao longo da carreira política retiram-lhe votos. Joaquim Barbosa tem de se dar a conhecer. E Bolsonaro dificilmente poderá ganhar.

O que é que mostram os números da Marina Silva, da Rede Sustentabilidade? Como é que ela tem que ser enquadrada na disputa entre esquerda e direita?

O caso da Marina é muito interessante. Eu ponho-a no centro. Em tese, todas as condições estavam muito fortes para ela. Não que ela não esteja forte, mas a Marina tem ao longo dos últimos anos feito uma série de opções políticas que acho que lhe retiram votos. Primeiro se conectou ao ambientalismo hype e não ao ambientalismo dos pobres, que é uma tradição brasileira. Depois, tornou-se liberal do ponto de vista económico, então vai-se vinculando mais a uma agenda dos ricos. Apoiou o Aécio [Neves] na segunda volta, o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a intervenção militar no Rio. Está desvinculada de qualquer agenda progressista. Claro que a história de vida dela é muito bonita, uma mulher indígena negra, vinculada à questão dos seringueiros e à construção do PT, mas ela não consegue criar e manter uma organização política - o partido dela está só com dois deputados.

A grande novidade na pesquisa é o Joaquim Barbosa [PSB, 9%] que também tem um apelo forte pela sua trajectória social: homem negro, de origem super pobre, que virou juiz do Supremo e com uma reputação ilibada. Mas a população ainda sabe pouco o que ele pensa sobre certos assuntos

A esquerda diz que a investigação ao caso Lava-Jato não vai dificultar até Outubro os candidatos da direita ou do centro, mas Aécio Neves acabou de se tornar réu?

Era esperado Aécio tornar-se réu, mas não dá para equipará-lo ao Lula. O Aécio foi gravado falando coisas gravíssimas. O próprio [Geraldo] Alckmin, do partido de Aécio, diz que ele não pode ser candidato. Mas ainda agora o processo de Alckmin foi encaminhado para a justiça eleitoral, por isso eu não vejo a mesma dificuldade.

Quais são as hipóteses de Bolsonaro, à frente nas sondagens sem Lula, ser eleito em Outubro?

Bolsonaro é significativo porque expressa um movimento da sociedade brasileira com um pouco de nostalgia da ditadura militar com traços fascizantes. Ao tirarem o Lula da disputa, ele estaria liderando, mas tem duas ou três dificuldades na minha opinião. Não tem estrutura partidária, é frágil em debates e fez uma opção ultraliberal na economia, vinculando-se aos interesses dos ricos. Eu tendo a achar que não tem chances de ganhar.