Candidatura de Marina Silva é o “caminho natural” depois da morte de Eduardo Campos

Com a campanha eleitoral suspensa, e o país em choque, as atenções estão voltadas para o Partido Socialista Brasileiro: será que vai aceitar a promoção de Marina Silva a protagonista principal?

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Ricardo Moraes/reuters

Para Marina Silva, a candidata lançada pela coligação “Unidos pelo Brasil” para a vice-presidência, “ainda não é hora para discutir política”, um dia depois da morte de Eduardo Campos, o candidato presidencial socialista”, num desastre aéreo em Santos. A aliança, liderada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Campos, não avançou ainda os seus planos para o futuro da campanha: segundo a lei, terá de o fazer num prazo de dez dias que já começou a contar.

Marina não entrou na chapa de Eduardo Campos como um simples apenso destinado a costurar acordos partidários. Se não serve para substituir o candidato morto, serviria para quê? Com algum exagero no paralelo, o entendimento de que o vice-presidente é um enfeite desemboca na manhã de outro agosto, de 1969, quando o presidente Costa e Silva estava entrevado por uma isquemia cerebral e os ministros militares mandaram o vice Pedro Aleixo para casa. Dezesseis anos depois, para alívio geral, o vice-presidente José Sarney assumiu no dia em que Tancredo Neves deveria ser empossado. O presidente eleito estava hospitalizado e morreria mês depois.

Pedro Aleixo e Sarney já haviam sido eleitos. Ambos, contudo, eram enfeites. Um, para dar um toque civil à presidência de um marechal. O outro, dava sabor governista a um presidente da oposição. Não sendo enfeite, Marina é mais que isso.

Se a ex-senadora for deixada de lado, a terceira via implode. Se ela substituir Eduardo Campos a natureza desse terceira via muda de qualidade e transforma a eleição deste ano numa reedição do pleito de 2010.

Eduardo Campos será sepultado no mesmo jazigo onde está seu avô, Miguel Arraes. morto em outro 13 de agosto. Ele disputava a presidência contra outro neto, Aécio Neves. Nos próximos dias vai-se saber o que farão o PSB e Marina. A lembrança de Arraes e Tancredo, contudo, leva a uma especulação passadológica. Em 1980, quando a polarização bipartidária foi rompida pelo governo, Tancredo sinalizou que iria para um terceiro caminho, dizendo que o seu MDB não era o de Arraes.

Quatro anos depois, quando se costurava o arco de alianças que permitiria a eleição indireta de Tancredo, o deputado Fernando Lyra (irmão do atual governador de Pernambuco) costurou um encontro de Tancredo com Arraes e o impossível aconteceu. Os dois ficaram juntos, acabaram com a ditadura e foram felizes para sempre.

Tancredo elegeu-se presidente da República porque costurou alianças consideradas impossíveis pela política do andar de cima e óbvias para o ronco das ruas no andar de baixo, ouvida durante a campanha das Diretas.

Havia no avô de Aécio Neves habilidade, mas sobretudo conhecimento da História. Diferenciou-se pela percepção que teve do fenômeno político que formaria alianças para lá de implausíveis.

 

Se o PSB, marineiros e tucanos quiserem impedir que o PT permaneça no governo por 16 anos seguidos, em algum lugar alguém pensará o impossível: Marina Silva na campanha de Aécio Neves. Olhando-se essa hipótese pela ótica da política é enorme o espaço que os separa. Pela ótica da História, caso ela esteja no tabuleiro, é razoável. Se não estiver, paciência. Tancredo não fazia só política, fazia História.

Apesar de ainda estarem a comentar sobre hipóteses e cenários, os analistas políticos concordam que a morte de Eduardo Campos veio alterar a natureza da votação presidencial de 5 de Outubro, que deixa de ser uma disputa aberta e despolarizada para se converter num plebiscito ao actual Governo: quem estiver satisfeito com a actuação de Dilma, vai tentar reeleger a Presidente; quem está descontente com as décadas de liderança petista e quer mudar o rumo do país vai votar em Aécio Neves.