Trump enviou Pompeo para testar as águas em Pyongyang

Desde 2000 que um dirigente norte-americano de alto nível não se deslocava à Coreia do Norte. Seul diz estar a fazer esforços para assinar tratado de paz com o Norte durante a cimeira entre os líderes dos dois países.

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A primeira missão de Pompeo depois de ser escolhido para secretário de Estado foi viajar até Pyongyang Reuters/Leah Millis

As engrenagens diplomáticas em torno da Península Coreana têm estado a funcionar nas últimas semanas em antecipação das duas cimeiras históricas que envolvem Kim Jong-un e que representam o mais sério esforço para lidar com o programa nuclear norte-coreano em várias décadas. Washington confirmou nesta quarta-feira que o ex-director da CIA, Mike Pompeo, esteve em Pyongyang no início do mês para falar com o líder norte-coreano.

A visita de Pompeo, que está em vias de ser oficializado como secretário de Estado, esteve envolvida num profundo segredo e só foi confirmada por Donald Trump depois de alguns jornais norte-americanos terem avançado a notícia. Desde 2000, quando a chefe da diplomacia dos EUA, Madeleine Albright, se encontrou com Kim Jong-il em Pyongyang, que um responsável de alto nível norte-americano não visitava o país.

As condições eram muito diferentes então. A visita de Albright acontecia no contexto de intensas negociações entre delegações dos dois países com o objectivo de travar o desenvolvimento nuclear norte-coreano. Em troca de moratórias dos testes, os EUA concordavam em fornecer petróleo ao regime. Ao mesmo tempo, as duas Coreias viviam a chamada “política dos raios de sol”, que visava aproximar Seul e Pyongyang através de um reforço dos laços económicos e culturais. Muitos analistas antecipavam que a visita de Albright abria a perspectiva de um encontro entre Bill Clinton e Kim, mas o Presidente dos EUA não quis dar esse passo por se encontrar na recta final do segundo mandato.

A visita de Pompeo – que esteve em Pyongyang entre 31 de Março e 2 de Abril, quando já tinha sido o escolhido para liderar o Departamento de Estado – aconteceu quando todas as cartas estavam já em cima da mesa. Trump já tinha surpreendido o mundo ao aceitar encontrar-se com Kim e o líder norte-coreano tinha dado sinais de querer debater o seu programa nuclear. Quando confirmou a visita de Pompeo, Trump disse apenas, através do Twitter, que “foi construída uma boa relação”.

Acabar com a guerra

O primeiro teste irá ocorrer a 27 de Abril quando os líderes das duas Coreias se encontrarem – algo que também não acontecia há mais de uma década. As expectativas são elevadas. Em Seul, nos últimos dias, tem-se falado insistentemente na possibilidade de se assinar um acordo de paz entre o Sul e o Norte, para oficializar o fim da Guerra da Coreia. As hostilidades do conflito terminaram apenas com um armistício assinado entre os EUA, a Coreia do Norte e a China, deixando as duas Coreias tecnicamente ainda em estado de guerra.

Um porta-voz do Governo de Seul afirmou que estão a ser feitos “esforços para declarar o fim da guerra e avançar para um regime de paz permanente”. O ministro da Cultura sul-coreano, Do Jong-whan, que esteve em Pyongyang recentemente, também depositou esperanças na cimeira entre os dois líderes para que o conflito seja oficialmente encerrado. “Se não for”, disse durante uma conferência de imprensa esta semana, “então ambos devem reunir de novo para assinar o tratado”.

Tal como a Coreia do Sul, também o Norte pretende a assinatura de um tratado de paz, tanto com os seus vizinhos como com os EUA. Porém, há pormenores que podem dificultar o entendimento. Pyongyang pode exigir garantias de segurança da parte dos seus interlocutores, tal como exige para suspender o seu programa de armamento nuclear.

“Isto está tudo a andar muito depressa. Há quatro meses, era tudo ‘fogo e fúria’ e de repente estamos a falar de um tratado de paz?”, questiona o professor da Universidade Nacional de Pusan, Robert Kelly, em declarações ao Financial Times.

A grande preocupação dos analistas é que o Governo sul-coreano esteja a depositar expectativas demasiado elevadas nas duas cimeiras de Kim para tentar captar o apoio dos seus opositores internos. Há um largo sector na sociedade sul-coreana que não vê com bons olhos as recentes iniciativas de reaproximação entre os dois países, especialmente sem que Pyongyang não tenha feito qualquer cedência real.

“A cimeira inter-coreana serve sobretudo para preparar a cimeira EUA-Coreia do Norte. Ambos precisam que isto corra bem”, disse ao Financial Times o analista do Fórum para o Futuro da Península Coreana, Duyeon Kim.