Ryan vira costas a Washington e deixa o Partido Republicano em choque

Presidente da Câmara dos Representantes não vai recandidatar-se nas eleições de Novembro, deixando mais uma porta aberta ao Partido Democrata na luta pela reconquista da maioria.

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Reuters/ERIC THAYER

Nos corredores do Congresso norte-americano, em Washington D.C., já se aceitava como um facto da vida que o presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Paul Ryan, estava a pensar seriamente em abandonar o edifício. Mas, nestes casos da política, o timing das decisões diz mais do que as próprias decisões – em vez de esperar por Novembro, e sair depois das importantes eleições intercalares, Ryan deixou o partido de boca aberta ao anunciar que nem sequer vai recandidatar-se ao lugar que ocupa há quase 20 anos.

É normal que alguns membros da Câmara dos Representantes e do Senado queiram abandonar a vida política em ano de eleições – muitos deles foram eleitos há vários anos, ou mesmo décadas, e a perspectiva de uma nova batalha eleitoral é um bom motivo para pensarem na reforma.

Só que este ano o número de reformas entre os membros do Partido Republicano na Câmara dos Representantes tem sido maior do que o habitual. No meio de um ambiente de cortar à faca no país, e de um cenário que pode levar o Partido Democrata à maioria, mais de 40 dos 237 eleitos do Partido Republicano na Câmara dos Representantes já afastaram a hipótese de se recandidatarem em Novembro.

"Onda democrata"

As coisas parecem estar mesmo a correr mal para o Partido Republicano – das derrotas sofridas em eleições nos últimos meses (realizadas de forma extraordinária porque os representantes eleitos abandonaram os cargos), destacam-se a perda de um lugar no Senado pelo Alabama e de um lugar na Câmara dos Representantes pela Pensilvânia, logo num distrito eleitoral em que Donald Trump bateu Hillary Clinton, em 2016, por 20 pontos percentuais.

Neste contexto, é normal que o Partido Democrata tente vender ao eleitorado a ideia de que vem aí uma "onda democrata" e que os dias da maioria do Partido Republicano na Câmara dos Representantes estão contados – e a data é terça-feira, 6 de Novembro, o dia em que os norte-americanos voltam às urnas para escolherem os seus líderes políticos na Câmara dos Representantes, no Senado, no governo dos estados e em inúmeros cargos locais.

É por isso que o anúncio de Paul Ryan é importante para o futuro da política norte-americana: ao anunciar que não se vai recandidatar, o presidente da Câmara dos Representantes pode enviar o sinal de que não vale a pena tentar resistir aos ganhos do Partido Democrata. E, ao ficar fora da corrida em Novembro, Ryan afasta também muitos dos seus fiéis financiadores, que agora podem pensar duas vezes antes de transferirem os seus cheques para outros candidatos do Partido Republicano.

Família em primeiro lugar

Na hora da despedida, Ryan disse estar consciente de que a sua decisão pode ter consequências para a importante corrida eleitoral de Novembro, mas ainda assim foi em frente por duas razões: por um lado, acredita que o partido vai manter a maioria na Câmara dos Representantes, ainda que o seu anúncio possa criar problemas; por outro lado, chegou a hora de estar com a família.

"Cumpri muito daquilo que vim aqui fazer, e os meus filhos não estão a ficar mais novos. O que eu percebi é que se cumprir mais um mandato, os meus filhos só me conhecerão como um pai de fim-de-semana", disse Ryan – em 2020, os seus três filhos terão 15, 17 e 18 anos.

Tensão com Trump

Paul Ryan, de 48 anos, está na Câmara dos Representantes desde 1999, depois da sua primeira eleição, meses antes, no 1.º Distrito Eleitoral do estado do Wisconsin.

Foi candidato a vice-presidente dos EUA pelo Partido Republicano nas eleições de 2012, fazendo par com Mitt Romney. Essa eleição foi ganha pelo então Presidente Barack Obama, mas tanto Romney como Ryan continuam a alimentar a esperança de virem a ser candidatos à presidência.

Em 2015 tornou-se speaker da Câmara dos Representantes – e foi já nessa dupla condição de presidente da câmara baixa do Congresso e segundo na linha de sucessão dos Presidentes norte-americanos que se mostrou renitente em apoiar a nomeação de Donald Trump pelo Partido Republicano na corrida à Casa Branca.

Em Maio de 2016, quando Trump venceu as primárias no Indiana e garantiu, praticamente, que iria ser ele o representante do Partido Republicano nas eleições presidenciais, Ryan fez saber que não estava "preparado" para o apoiar.

Os problemas entre Ryan e Trump foram postos em segundo plano assim que o magnata do imobiliário chegou à Casa Branca, em Janeiro de 2017 – com o Partido Republicano em maioria tanto na Câmara dos Representantes como no Senado, e com um Presidente eleito pelo mesmo partido, Paul Ryan tinha uma oportunidade histórica para fazer aprovar a reforma fiscal que defendia há anos.

Numa reacção no Twitter, o Presidente norte-americano disse que o speaker da Câmara dos Representantes "deixa um legado que ninguém pode questionar".

Depois da aprovação da reforma fiscal, em Dezembro do ano passado, esperava-se que Ryan anunciasse a sua recandidatura ao lugar que ocupa na Câmara dos Representantes nas eleições de Novembro, num ano em que o Partido Republicano precisa dos seus maiores nomes para travar o caminho do Partido Democrata até à reconquista da maioria. Admitia-se que abandonasse esse novo mandato lá para Janeiro de 2019, mas esta quarta-feira disse que isso seria uma falta de respeito para com os seus eleitores.

Ao não se recandidatar, deixa o caminho livre a outro candidato do Partido Republicano com muito menos reconhecimento público no Wisconsin. Depois, já em Novembro, esse novo candidato terá de enfrentar o vencedor das primárias do Partido Democrata, num distrito eleitoral que não é um lugar seguro para os republicanos – tem sido nos últimos anos, é verdade, mas precisamente por causa da figura de Paul Ryan.

Como o Congresso só será renovado em Janeiro de 2019, Ryan ficará na liderança da Câmara dos Representantes até ao fim do ano. Na luta pela sucessão destacam-se Kevin McCarthy, líder da maioria do Partido Republicano na Câmara dos Representantes; e Steve Scalise, o líder da bancada parlamentar.

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