Opinião

O fenómeno Mário Centeno

Com Costa a distribuir sorrisos e palavras de apego aos parceiros parlamentares, Centeno fica livre para se tornar um saco de boxe.

Vinte anos depois, o PS voltou a ter um “cardeal” no seu Governo. Com António Guterres, o detentor da honra era Pina Moura. Com António Costa, o herdeiro do cognome é Mário Centeno. Entre os dois não há passados de militância antifascista em comum nem mudanças radicais na obediência ideológica. Mas ambos merecem o título inspirado na memória do cardeal Richelieu porque nos seus governos não há operação especial que os descarte nem decisão crucial que os dispense. Ambos inspiram uma barreira que separa uma multidão de devotos no centro-esquerda e na direita e outra de hostis na esquerda da esquerda. Como no eixo de uma roda, tudo gira em torno do seu poder e da sua influência. Como num labirinto, fica difícil perceber o trilho dos que apoiam o Governo e as saídas de quem o contesta. Um fenómeno.

No Governo dos nossos dias, o primeiro-ministro pode mandar na estratégia ou no discurso oficial, mas quem tem nas mãos a chave do cofre e o poder plenipotenciário que essa posse confere é o ministro das Finanças. Na política, sempre mandou quem teve a guarda do Tesouro, mas Centeno é mais do que um ministro poderoso. Não há factura que não tutele, despesa que lhe escape, obra que não controle. É o principal arquitecto da governação. Porque é dele a façanha que o Governo elegeu como o símbolo máximo da sua credibilidade e eficiência: o controlo do défice. O seu sucesso estende-se para lá de São Bento e expõe com cruel clareza a anormalidade da política portuguesa: Centeno é o polícia bom que o PS aplaude, o que se percebe, é o polícia respeitável que a oposição de direita tolera, o que se entende, e é o polícia mau que a esquerda que apoia o Governo execra, o que se estranha.

Não admira que, no PS, o professor Centeno seja adorado. A militância vê na sua calma ponderada, no seu sorriso vagamente tímido e ainda mais nos resultados do seu desempenho a prova de que tudo o que disseram sobre Maria Luís Albuquerque, a austeridade ou a troika estava certo. O país cresce outra vez como nos tempos do “cardeal” Pina Moura, o défice está em níveis impensáveis há meia dúzia de anos e o desemprego recua, tudo por obra e graça do “Ronaldo das Finanças”. Para António Costa, Mário Centeno é uma espécie de seguro de vida. Imprescindível e inquestionável. Ana Catarina Mendes, a número dois do PS, quer vê-lo num próximo Governo socialista, entre outras razões porque “nunca tivemos um ministro das Finanças tão bem aceite pelos portugueses”.

Exaltar com tanto enlevo o homem que se tornou o maior cativador de verbas inscritas nos orçamentos em mais de 40 anos de democracia, que, exercício após exercício, trava o investimento público para cumprir a meta do défice diz muito sobre o Governo e sobre o poder de sedução do titular da pasta das Finanças. Ele faz tudo o que um Governo do PSD ou do CDS fariam, mas pode dizer que faz o contrário sem perder a face. Pode dar-se ao luxo de dizer que o investimento público cresceu 25% em relação a 2016 sem que alguém deva obstar que esse valor ainda assim ficou 800 milhões abaixo do orçamentado. Ele pode dizer que a carga fiscal aumentou porque aumentou a actividade económica e o emprego, esvaziando com uma frase os 34.7% do PIB devorados pelos impostos em 2017, o valor mais alto em 22 anos. Com um mago nas Finanças investido do poder de um “cardeal”, tudo é possível.

Tudo? Bom, há uma aldeia de irredutíveis gauleses descontente. Se, no Governo, “são todos Centeno”, como dizia o ministro da Saúde, no bloco parlamentar à esquerda ninguém o quer ser. O ministro é para eles o agente que perpetua o horror do euro e a dominação do pacto de estabilidade. O défice, criticam, tornou-se uma obsessão - embora, claro está, uma obsessão poética, ao contrário da obsessão neoliberal do anterior Governo. Nada do que a esquerda da esquerda pede é concedido. Há pagamentos em atraso nos hospitais? Azar. Há que fasear a recuperação nas progressões dos funcionários ou recusar as pretensões dos professores? Paciência. Provavelmente, como notou Fernando Alexandre no Eco, o registo de 0.92% no ano passado não seria atingido se este valor adicionado aos custos com a recapitalização da Caixa elevasse o défice acima da temível barreira dos 3%. Presidir ao Eurogrupo exige ao ministro uma folha de serviços imaculada.     

A esquerda à esquerda do PS elegeu o “cardeal” Centeno como alvo prioritário e, ao fazê-lo sem consequências, está apenas a confirmar a normalização do falsete com que se canta a política portuguesa. Quem se opõe ao Governo tolera Centeno e quem o apoia combate-o. Mariana Mortágua, que tem sido a campeã da ofensiva, diz que ele foi “transformado em mantra pelo Partido Socialista”. O que é pouco, comparado com o resto: “Os valores do investimento público deste Executivo são humilhantes e mostram o paradigma de um Governo bloqueado pelo sucesso do seu próprio ministro das Finanças”, nota a deputada do BE. O ministro, continua, tem “vistas curtas”. O Bloco escolheu o alvo e não desgruda. Ainda este fim-de-semana Pedro Filipe Soares se queixava de António Costa, dizendo não ser “possível que dê a Centeno a possibilidade de fazer vetos de gaveta, nem que dê a gestão do Governo ao ministro das Finanças".

Mário Centeno tenta esvaziar a pressão dizendo (ao Expresso) que considerar a gestão rigorosa das metas do défice como uma política de direita não passa de um erro de percepção. “Não é verdade que a esquerda tenha uma atitude perante o rigor orçamental e o cumprimento das metas distinta da direita”, justificou. É aqui que está o cerne da questão. É precisamente essa “atitude” que leva a direita a aplaudir em surdina o desempenho do ministro e a esquerda a contestá-lo em alta voz. O poder de decidir o que gastam ou não gastam as áreas sociais incomoda o PSD e o CDS por estar a reduzir o défice e estimula o PCP e o Bloco a acentuarem as suas exigências por saberem que há dinheiro para gastar.

Ao contrário do que tantas vezes acontece, o que aqui está em causa não são ataques políticos circunstanciais: são rejeições liminares à mais substancial orientação política deste Governo – a gestão prudente das contas do Estado. Com António Costa a distribuir sorrisos e palavras de apego aos seus parceiros parlamentares, o fenómeno Centeno fica livre para se tornar num saco de boxe. Um sorri e afaga os ímpetos da esquerda para que o outro, na discrição dos gabinetes, faça o que tem a fazer. É nesta dupla que se encontram os equilíbrios da governação e a chave que explica o temível poder do PS por estes dias: com um príncipe na política e um “cardeal” nas finanças, a maioria pode estar ao virar da esquina.