Entrevista

"Gostaria de ver Centeno num próximo Governo do PS”

Ninguém perdeu identidade, nem o PCP, garante a número dois do PS. Que promete “a mesma solução governativa”, mesmo que o PS tenha maioria em 2019. Mas Centeno é para segurar: “Nunca tivemos um ministro das Finanças tão bem aceite pelos portugueses”.

Costa já tem temas para a próxima legislatura: clima, digitalização, demografia e desigualdades. Os problemas nos serviços públicos existem, “são graves”, mas são para resolver até à próxima legislatura, diz Ana Catarina Mendes em entrevista ao PÚBLICO e Renascença (no ar às 12h00). 

O congresso do PS está à porta, as legislativas já se aproximam. Já sabem quem vai coordenar o programa eleitoral?
Antes, quem vai coordenar a moção de António Costa ao congresso será Mariana Vieira da Silva. Este tem que ser um congresso programático e a olhar para o futuro. O que significa hoje saber quais são os problemas essenciais com que a sociedade portuguesa, a Europa e o mundo se confrontam. Desde logo, depois dos incêndios deste Verão, ficámos mais sensibilizados ainda para o problema das alterações climáticas, não apenas porque dependemos muito da energia externa, mas também porque é preciso voltar a pensar na nossa organização em sociedade e de estar na vida. Temos, por outro lado, a sociedade digital: estamos confrontados com profissões que vão desaparecer a curto prazo e com profissões que ainda não conhecemos.

... E mudanças substanciais na forma como trabalhamos...
As relações laborais são ser alteradas, como é evidente. Hoje já não é possível olharmos para o mundo do trabalho da mesma forma como olhávamos, não digo há 20 anos, mas há cinco anos.

E da forma como os seus parceiros de esquerda olham, não?
Talvez, mas eu quero dar-lhe a visão do PS: a nossa organização em sociedade vai ter grandes mudanças. E essas grandes mudanças estão firmadas numa sociedade digital, nas alterações climáticas, também na questão demográfica. Nós não podemos continuar a falar dela só na perspectiva da natalidade, porque isso é demasiado redutor. Quando falamos no despovoamento, na desertificação, nas assimetrias, temos que perceber que a montante de tudo está um problema demográfico. Por último, está no património genético do PS o combate às desigualdades - e esse será também um tema a abordar no congresso.

O PS conta com Mário Centeno para voltar a fazer o quadro macro-económico que dará base ao novo programa eleitoral? 
Contamos com Mário Centeno para continuar a conduzir o país nos bons resultados financeiros e económicos que temos tido, na nossa credibilidade externa. Seguramente será um activo muito importante no futuro do PS e nas próximas eleições.

Como avalia o desempenho dele?
De uma forma absolutamente positiva. Não é por acaso que temos hoje Mário Centeno como presidente do Eurogrupo. Há dois anos muitos não acreditaram que cumprir este défice seria também voltar a ter a economia a crescer. Hoje podemos dizer que é o maior crescimento desde que entrámos no euro. Nunca tivemos um ministro das Finanças tão bem aceite pelos portugueses. 

Gostaria de o ver num próximo Governo do PS?
Gostaria de o ver num próximo Governo do PS. Mas isso depende da sua vontade - e do PS ganhar as próximas eleições.

O Governo conseguiu um défice de 0,9% (fora o efeito CGD). Este ano, o Governo deve ser mais exigente do que a meta de 1% fixada ou deve aproveitar alguma margem para acorrer aos problemas nos serviços públicos e investimento?
Temos demonstrado que o caminho que estamos a seguir é um caminho para recuperar o que foi desmantelado nos serviços públicos, para recuperar as condições de vida das pessoas, para recuperar emprego. Acredito que o próximo Programa de Estabilidade vá ao encontro deste caminho. Que permite uma consolidação das contas públicas, mas em que essa consolidação possa ter um espelho na vida das pessoas. Não escondemos que há problemas graves nos serviços públicos. E que decorrem de uma austeridade a que fomos sujeitos e levaram a que hoje seja preciso mais dinheiro...

Há notícias todas as semanas a falar da falta de médicos...
É verdade, mas também é verdade que não temos nenhum médico desempregado em Portugal, que criámos um incentivo de 40% nos salários para que os médicos pudessem deslocar-se para zonas mais deprimidas - e a verdade que é esse concurso ficou com uma pessoa. É uma sensibilização que todos temos que fazer, a demografia é de facto um problema.

O BE e o PCP olham para os resultados do ano passado e dizem ser a prova de que não era preciso apertar tanto o cinto. O PS acha que basta manter o objetivo de 2018 (e ganhar margem para investir) ou que se deve aproveitar este tempo para manter o ritmo da consolidação?
Acho que temos que ter a percepção de que não é possível fazer tudo ao mesmo tempo. E não é possível tentar uma consolidação de contas públicas que possa ser artificial e revelar-se num descalabro a seguir. É preciso fazer poupanças e, ao mesmo tempo, dar resposta às nossas necessidades. Nós temos investido mais na Cultura, na Educação, na Protecção Social...

Não ficamos com a sensação de que é sempre mais um bocadinho?
Ouça, na minha casa eu também gostaria de ter um bocadinho mais. Mas tenho que conseguir que o equilíbrio e a educação dos meus filhos seja garantida com uma sustentabilidade das minhas contas públicas. Se continuarmos este caminho, a pouco e pouco, teremos resultados ainda melhores. Não nos devemos desviar daquilo que estamos a fazer. O investimento público aumentou em 2017 25%. Isto diz bem do esforço... dir-me-á: "Mas é pouco". Eu digo que estamos a fazer um esforço. Se perguntar: "Não acha que há uma folga?" Mas sempre que há uma folga é preciso canalizá-la para o que é essencial.

Estava a citar o BE, o PCP e também o porta-voz do PS, João Galamba, que numa entrevista dizia que, face a estes resultados, em 2018 e 2019 "já não precisamos de fazer um brilharete" nas contas. Mesmo no PS sente-se uma tensão sobre continuidade ou alívio.
O que lhe posso dizer é que espero que, nas próximas legislativas, com o caminho que estamos a seguir, o PS tenha uma grande vitória. Para permitir que os alívios que não se possam fazer agora possam vir a fazer-se na próxima legislatura. Não é possível olhar para estes quatro anos esquecendo o que foram os últimos quatro anos da direita. Sendo que situações como as da banca e do sistema financeiro foram bombas-relógio para este governo. Nós não estamos a fazer brilharetes com as contas públicas, estamos a ser rigorosos. Quando olhamos para Rui Rio, apesar das vozes críticas dentro do PSD, dizer que este caminho de consolidação é positivo, eu creio que nós podemos dizer que não estamos em festa, nem em brilharetes, mas que estamos a fazer um trabalho de rigor.

Quando pede um grande resultado para o PS, está a pedir uma maioria absoluta?
Não. Estou a pedir que o PS seja merecedor da confiança dos portugueses. 

E se não tiver essa maioria, o PS admite governar em minoria? Acha que há condições para repetir esta solução?
Os resultados são de tal forma positivos e reconhecidos, que há todas as condições, com maioria absoluta, sem maioria absoluta, para repetir esta solução governativa. Porque a democracia ficou a ganhar muito. Porque se quebrou a ideia de que só a direita é que se aliava; e porque a direita se aliou para empobrecer, a esquerda conseguiu unir-se para ter o melhor défice da democracia, para ter o melhor crescimento das últimas décadas, para criarmos empregos...

Em minoria, o PS não governará?
Se estiver em minoria, o PS tentará encontrar a solução. Desejavelmente a que encontrámos em 2015.

Olhando para os temas da moção de António Costa, como as relações laborais, acredita que há margem para um novo programa comum com o PCP? 
Em cada momento terão que estar as cartas em cima da mesa - e saber quais são os pontos de convergência. Há uma coisa que esta solução demonstrou: ninguém perdeu a sua identidade. 

Acha que o PCP não perdeu?
Acho que o PCP não perdeu identidade.

Nas questões laborais não me parece ir tão bem encaminhado.
Algumas das questões que estão a ser colocadas em cima da mesa não constam dos acordos celebrados. A questão é se estamos ou não todos convocados para o combate à precariedade. É inadmissível que 25% dos contratos sejam precários. E que atinja os jovens até aos 35 anos. O PCP está connosco neste combate.

Não concorda com a taxa, por exemplo. 
Está no seu direito, de não concordar. Mas sejamos claros: a democracia enriquece com a divergência de opinião. Por isso, o PS não se consome pelo BE ou pelo PCP, nem o PCP, BE se vão consumir pelo PS. O PS é um partido europeísta, os nossos parceiros não concordam com a Europa. Não vem nenhum mal ao mundo, sabe porquê? Porque também provámos que esta solução de governo não nos inibiu se cumprimos os nossos compromissos.

Na questão laboral, sem acordo à esquerda, como é que o Governo tenciona fazer? Falando com o PSD?
O BE e PCP estão muito mais próximos do PS em matéria laboral do que alguma vez o PS estará do PSD.