Opinião

Uma molécula é uma molécula

O apoio estatal a medicinas alternativas pode ter consequências dramáticas.

Leonor Nazaré (L.N.), em resposta ao nosso artigo “Ainda as terapias alternativas: um cachimbo é um cachimbo”, insiste em estafados clichés anticiência. Acusa-nos de termos “prescindido de distinguir moléculas naturais de moléculas sintetizadas em laboratório”. Essa dicotomia que L.N. acredita existir é totalmente falsa. Uma molécula de água da cascata do Niágara é indistinguível de outra da água que sai do tubo de escape dos automóveis, como um dos gases de combustão: é constituída por dois átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio, numa estrutura bem conhecida. Uma molécula é uma molécula. Podem-se fazer em laboratório ou numa unidade industrial substâncias químicas, todas elas constituídas por moléculas, que também existem na Natureza. Por exemplo, é possível modificar geneticamente bactérias para produzirem insulina. Essa insulina é igualzinha à produzida pelo pâncreas humano: uma proteína feita de aminoácidos, cada um deles constituído por átomos de carbono, oxigénio, azoto e hidrogénio, unidos por ligações químicas. Para os receptores nas células dos diabéticos, a insulina produzida por organismos geneticamente modificados serve perfeitamente. Mas ficamos na dúvida se para L.N. serve.

Como corolário desta ideia da superioridade natural vem o argumento tautológico: as substâncias químicas são más por serem químicas e os produtos naturais são bons por serem naturais. De facto, não há uma particular virtude no facto de uma substância existir na Natureza. O colesterol, a penicilina, a morfina, a cocaína, cicuta e a tetrodotoxina (o veneno neurotóxico do peixe-balão) são todos produtos naturais. E um produto natural não é necessariamente seguro, isto é, a Natureza não é só paz e amor. Os remédios alternativos à base de plantas apresentam riscos sérios. Falámos já do natural mas perigoso ácido aristolóquico, usado na medicina tradicional chinesa. Mas damos outros exemplos no nosso livro A Ciência e os Seus Inimigos (Gradiva, 2017). A origem natural ou sintética de um produto não é um bom critério para avaliar a sua eficácia terapêutica e a sua segurança. E essa avaliação tende a ser problemática nos ditos remédios uma vez que, muitas vezes, os consumidores ignoram o que está lá dentro. Num estudo saído na revista BMC  Medicine foram usadas técnicas de identificação por ADN para determinar as espécies presentes em remédios alternativos à base de plantas. Mais de 59% dos remédios continham espécies não listadas no rótulo. Um problema são as interacções prejudiciais com outros medicamentos que estejam a ser tomados. O Observatório de Interacções Planta-Medicamento, da Universidade de Coimbra, compila e divulga essas interacções.

L.N. afirma ainda que “a naturofobia decorre da cisão progressiva que a partir do século XVII levou o Homem a pensar na Natureza como se não fizesse parte dela e não fosse, também ele, Natureza”. É precisamente ao contrário: desde o século XVII, com a Revolução Científica, que se passou a perceber cada vez mais que o homem faz parte da Natureza, ultrapassando a visão teológica, prevalecente até então, que separava Homem e Natureza. Hoje sabemos que o código genético — a linguagem dos genes — é universal, pois todos os seres vivos o partilham. É precisamente isso que permite introduzir numa bactéria o gene da insulina humana, que é compreendido pela maquinaria de produção de proteínas das bactérias. Essa ubiquidade do código genético é uma prova da origem comum dos seres vivos: descendemos todos de uma célula primordial. Além disso, albergamos inúmeras bactérias no nosso corpo (especialmente nos intestinos), que desempenham papéis relevantes nos nossos sistemas digestivo e imunitário. Somos desde a nossa mais remota origem parte da Natureza e a ciência tem revelado de forma cada vez mais nítida como estamos unidos a ela. Não se percebe, portanto, a que cisão com a Natureza se refere L.N.

Não vale a pena continuar uma discussão quando uma das partes ignora os factos científicos e é insensível a argumentos racionais. Terminamos por onde começámos: não faz nenhum sentido que o Estado, por via legislativa, valide terapias que não funcionam. Esse caminho está em contraciclo com o de outros países. O Serviço Nacional de Saúde em Londres vai deixar de financiar remédios homeopáticos a partir de Abril, tal como já acontece, em geral, no Reino Unido. É altura de também nós deixarmos de financiar as terapias alternativas, acabando com a absurda isenção de IVA de que beneficiam. Num momento em que o país enfrenta um inusitado surto de sarampo e se reafirma a necessidade da vacinação, lembramos um relatório de 2012 do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças, segundo o qual os utilizadores de medicinas alternativas têm taxas de vacinação mais baixas do que o resto da população. O apoio estatal a medicinas alternativas pode ter consequências dramáticas. Cientistas e divulgadores científicos