O Porto perdeu um clube de rock, mas ganhou dois

Depois do fecho do Cave 45, no primeiro dia de 2018, muita da programação que lá era feita transitou de forma natural para o Woodstock 69, em Campanhã. Em Março, das cinzas do extinto clube de rock e pelas mãos de um dos ex-sócios, nasce o Barracuda, junto à estação de São Bento.

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Na passagem do ano de 2017, o Cave 45 encerrou as portas Ricardo Lopes

Em Outubro de 2017, os roqueiros portuenses foram surpreendidos com a notícia do encerramento prematuro do clube de rock Cave 45. Fecharia, no final do ano, o único espaço do centro do Porto talhado para acolher um público que, por mais do que uma vez, assistiu ao abrir e fechar de espaços com capacidade para receber bandas ao vivo e, ao mesmo tempo, ser um ponto de encontro de adeptos dos vários subgéneros do rock. Foram lançadas petições para que o bar continuasse a funcionar. Dizia-se que o encerramento se devia à alegada especulação imobiliária da Baixa e nas semanas que se seguiram ao anúncio raras foram as noites em que o bar da Rua das Oliveiras, em pleno centro de actividade nocturna da cidade, não garantiu casa cheia. 

Na noite de passagem de ano para 2018, ao fim de três curtos, porém intensos, anos de actividade, o Cave fechou as portas. Os mais pessimistas dramatizaram a questão, os mais optimistas desdramatizaram-na. Não era a primeira vez que, no Porto, um espaço orientado para o rock ou sonoridades mais extremas, como o metal, encerrava. Muitas destas casas não se aguentaram activos por muitos anos.

A história repete-se e é na sequência do fim do Cave que, em Campanhã, na zona oriental da cidade, longe do burburinho da Baixa, o Woodstock 69 ganha protagonismo como alternativa ao vazio deixado pelo encerramento do primeiro e é anunciada a abertura de um novo clube de rock. O Barracuda abrirá portas na Rua da Madeira, encostado à Estação de São Bento, já no final de Março. Perde-se um clube de rock no Porto e ganham-se dois.

O Barracuda nasce, precisamente, das cinzas do próprio Cave 45 e pela mão de um dos três sócios que geriam o espaço. Rodas — como é conhecido e gosta de ser tratado — já tinha assegurado, ainda antes do encerramento do Cave, que não haveria outro destino que não fosse aventurar-se num projecto semelhante. Desde que em meados dos anos 90 abriu o extinto Comix Bar, em Cedofeita, Rodas não fez outra coisa a não ser trabalhar em espaços dedicados ao rock. São mais de 20 anos dedicados à causa. “Queria reformar-me aos 40, mas não foi possível”, diz, em tom de brincadeira. Está a caminho dos 45 e a perseguir o mesmo objectivo traçado na altura em que decidiu materializar o primeiro projecto.  

Ainda equacionou continuar com o Cave 45. Contudo, o contrato de arrendamento do imóvel terminava em 2019 e o senhorio não o renovaria depois dessa data. Um hostel nascerá no mesmo lugar. Ainda que fosse certo que, a partir de 2019, não seria possível continuar no espaço da Rua das Oliveiras, não foi esse o motivo para o encerramento. O cansaço acumulado da equipa, responsável pela abertura do bar que somou mais de mil concertos de bandas nacionais e internacionais, pesou na decisão.

Agora sozinho, Rodas levará para a Rua da Madeira a experiência acumulada e o mesmo espírito de todos os espaços por onde passou, como o já referido Comix, o Porto-Rio ou o extinto Armazém do Chá. O Barracuda — nome que serve para designar um modelo de guitarra, o clássico automóvel da Plymouth e também a música de 1977 dos Heart — será essencialmente um bar de rock. Haverá, contudo, abertura para outros géneros que se enquadrem no mesmo espírito, como é o caso do hip-hop e à semelhança do que já acontecia nos anos 90 no Comix Bar, considerado pelos adeptos do género um dos berços do rap portuense.

O clube, que terá capacidade para aproximadamente 80 pessoas, ainda não tem data fixada para a abertura. O espaço está, neste momento, em fase de remodelação e a estreia deve acontecer no final de Março com um concerto que reunirá algumas bandas da cidade.

"Há espaço para todos"

No Porto, são vários as salas onde se realizam concertos de rock: há o Passos Manuel, o Maus Hábitos, o Plano B, o Understage do Rivoli ou o Hard Club para concertos de maior dimensão. E, brevemente, reabrirá também o Aniki Bobó, na Ribeira.

Dentro do espectro da música mais extrema existe ainda, desde há 10 anos, o Metalpoint, um fenómeno de longevidade para uma sala de concertos dedicada exclusivamente ao metal. E são também vários os bares onde a selecção musical é orientada para o rock. Porém, à excepção do Metalpoint — um clube de concertos para os fãs do metal —, estes espaços não se encaixam na definição de um clube de rock com música ao vivo e onde é possível a convivência dos seus públicos.

Há três anos, em Fevereiro de 2015, abriu em Campanhã o Woodstock 69, pensado para ser uma alternativa enquadrada nesta definição. Não sendo um bar novo, é após o encerramento do Cave 45 que vê a sua influência ser catapultada para fora daquela zona da cidade e ganha um novo fôlego no circuito roqueiro. Com uma agenda regular de concertos, muitos deles são organizados por promotoras que programavam no bar da Rua das Oliveiras.

António Oliveira, que divide a responsabilidade do bar com Leandro Corvo, explica que no primeiro ano não foram realizados concertos por ainda se estar a tratar da logística para que tal se fosse possível. No entanto, esse sempre foi o propósito e no segundo ano de actividade, ainda de uma forma esporádica, realizaram-se os primeiros. É um pouco antes do encerramento do Cave 45, mas sobretudo depois, que a agenda se torna mais regular e com maior oferta.

“Não foi por ter fechado o Cave que começamos a organizar concertos. Já existíamos antes como clube de rock. De qualquer forma, é um facto que beneficiamos com isso”, afirma, logo corrigindo o significado que atribui ao verbo beneficiar. “Com o fecho de um espaço como o Cave ninguém sai beneficiado. Não encaro isto como concorrência, mas sim numa perspectiva de complementaridade. Vai abrir agora o Barracuda e podiam ainda abrir mais”, conclui. “Há espaço para todos.”