Uma década do "fenómeno” Metalpoint, a casa de todos os metaleiros

Durante dez anos de actividade passaram mais de 2 mil bandas pelo bar de concertos orientado exclusivamente para os vários subgéneros de metal. Persistência e um público dedicado são os segredos para a longevidade do espaço que não encontra paralelo a nível nacional.

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Paulo Pimenta

Para muitos é uma segunda casa e o ponto de encontro óbvio de várias gerações que partilham pelo menos uma característica em comum: a dedicação ao heavy metal. Lá estabeleceram-se e continuam a estabelecer-se laços que dão origem a amizades ou a novas bandas. Está longe do movimento em constante efervescência da Baixa, mas no centro nevrálgico da maior comunidade de músicos do Porto. Completa nesta quinta-feira uma década de actividade e conquista a categoria de “fenómeno”, pois é caso raro, se não único a nível nacional, um bar de concertos dedicado exclusivamente aos vários sub-géneros do metal ter sobrevivido ininterruptamente durante tanto tempo. É o Metalpoint, escondido num corredor do Centro Comercial Stop, na Rua do Heroísmo, mas no roteiro de qualquer fã do género.

Desde 30 de Novembro de 2007 soma mais de 1600 concertos de bandas nacionais e internacionais - é o registo estimado pelo proprietário e único responsável pelo espaço, Hugo Almeida. Como cada concerto junta pelo menos duas bandas, calcula que terão passado por lá pelo menos 2 mil formações: “Não arrisco noutro número mais elevado porque há muitas que tocaram lá mais do que uma vez”. Nesta quinta-feira somam-se mais 3 a esse rol na festa de aniversário com entrada gratuita com início às 22h. Tocam os Anti Void, Humanart e os Sadistic Overkill.

Heavy tradicional, thrash, doom, death, black e outras correntes do metal são os requisitos mínimos para subir ao palco da sala equipada e preparada com todas as condições que permitem às bandas levar apenas os instrumentos. Esta terá sido uma das razões para que o também músico de uma série de projectos musicais desde há aproximadamente 25 anos tenha aberto o Metalpoint. “Ao longo do percurso com as várias bandas por onde passei toquei em muitos espaços que não reuniam as condições mínimas para actuar”, recorda. Desde esses tempos, diz-nos, tinha em mente um dia mais tarde conseguir contribuir para a inversão desse paradigma.

É a partir de uma “birra da juventude” que arregaça as mangas e leva a cabo o plano gizado anos antes. Já ensaiava desde 1997 no Stop, centro comercial reconvertido em espaço de ensaio de mais de 200 bandas de vários géneros – muitas das que lá estão movem-se dentro do espectro do metal. Foi uma decisão “lógica” ter escolhido o shopping inaugurado no início dos anos 80 como base para o bar de concertos com capacidade para cerca de duas centenas de pessoas: “Estar num sítio onde circulam tantas bandas pesou na decisão”.

Ao longo desta última década, com a transferência da vida nocturna para a Baixa equacionou deslocar o espaço para outro ponto da cidade. Conscientemente não concretizou essa vontade fugaz. “O público alvo está muito bem definido. Quem está dentro do género sabe onde é o Metalpoint e é a esse público que interessa chegar”, diz, referindo que o valor das rendas também seria menos convidativo para um negócio que “não dá para enriquecer”.

Não dá para enriquecer, mas dá a margem suficiente para poder apostar na continuidade do projecto ao qual até há uns meses se dedicou a tempo inteiro – recentemente passou também a trabalhar numa empresa de som.

Desde que deu os primeiros passos no género não se lembra de um bar de concertos exclusivamente dedicado ao metal que tenha durado tanto tempo. Mais do que isso, lança o desafio: “Quem conhecer outro que me diga”. Nesse sentido, considera o Metalpoint um “fenómeno”, cuja longevidade se deve a custo de muita “persistência” e “sacrifício pessoal”.

Autor do The Portuguese Rock and Metal Route, editado este ano, e da Breve História do Metal Português, Eduardo Almeida, conhecido no meio como Dico, que no início dos anos 90 fez parte de bandas como Dinosaur e Sacred Sin, afirma não ter encontrado paralelo para o Metalpoint na investigação que fez para o roteiro nacional de rock e de metal. O mais próximo que diz ter existido será o Rock Rendez-Vous, em Lisboa, de onde é, que durou precisamente 10 anos. Embora, no caso do antigo bar da Rua da Beneficência, diz tratar-se de um espaço “mais abrangente, orientado para o rock no geral”. Será por isso, nesse sentido, o Metalpoint, “caso único”, que considera poder ter explicação pela área geográfica onde está inserido, onde diz existir um público dedicado. A persistência do proprietário considera ter sido igualmente fundamental.

Fundador dos Web, em 1986, Victor Matos, acredita ser a segunda explicação a que mais contribuiu para a longevidade do bar. Durante mais de 30 anos de banda não se recorda de um espaço de norte a sul que tenha permanecido aberto durante tanto tempo, corroborando a ideia de “fenómeno” associada ao bar. “No Porto havia o Palha D’Aço, o Sinatras o Zum Zum e outros, mas nunca duraram mais do que um par de anos”, conta. Acredita que noutros pontos do país haverá fãs do género tão dedicados como os que existem na Invicta. Recorda também o Rock Rendez-vous, onde os Web deram o primeiro concerto com os Tarantula em 1987: “Lembro-me de a rua da Beneficência estar cheia de gente. Também não faltavam lá fãs dedicados”.

No Metalpoint já tocou mais de uma dezena de vezes e espera lá voltar: “O segredo do Hugo é ter uma porta aberta para as bandas novas e mais antigas. Conseguiu por isso transformar o espaço num ponto de encontro para todos os que gostam do género independentemente da idade”.