Coreia do Sul volta a confrontar Japão por causa de escravas sexuais da II Guerra

Presidente sul-coreano retoma a questão das “mulheres de conforto”, falando em “crime contra a humanidade” cometido contra 200 mil mulheres.

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As associações de defesa das vítimas não se revêem na forma como o Japão reconhece a questão das “mulheres de conforto” Reuters/KIM KYUNG-HOON

A Coreia do Sul voltou a tocar num ponto sensível da história e da política externa do Japão, ao confrontar Tóquio com a questão das “mulheres de conforto”. A assinalar na quinta-feira em Seul o dia da independência, o Presidente, Moon Jae-in, condenou o uso de centenas de milhares de mulheres como escravas sexuais pelo exército nipónico antes e durante a Segunda Guerra Mundial, considerando que os factos históricos têm de ser encarados como um “crime contra a humanidade”.

Investigadores e activistas sul-coreanos estimam que tenham sido cerca de 200 mil mulheres que entre os inícios da década de 1930 e o fim da II Guerra Mundial foram forçadas a prostituir-se nos “bordéis do exército” mantidos nas várias frentes de guerra. E o mesmo se passou com as mulheres japonesas e de países vizinhos, também elas, chinesas, vietnamitas, filipinas e cambojanas, vítimas desta forma de escravidão.

No primeiro discurso em que assinalou, como Presidente, a capitulação nipónica, Moon afirmou que o Japão não pode dar o assunto como encerrado. A declaração vem reabrir um dossier que as autoridades japonesas encaravam como fechado, depois de Tóquio e Seul terem selado um acordo histórico no final de 2015, não totalmente bem recebido pela opinião pública sul-coreana.

“Para resolver a questão das mulheres de conforto, o Governo japonês, o agressor, não pode dizer que o assunto está encerrado”, afirmou o Presidente sul-coreano, tocando num acontecimento que durante décadas dificultou as relações externas do Japão com os países por si invadidos ou colonizados. “Um crime contra a humanidade cometido durante uma guerra não pode ser encerrado apenas com uma palavra”, afirmou, sublinhando ser preciso tirar uma lição da história da questão das escravas sexuais.

A antiga potência colonial pediu publicamente desculpa em 1993, cinco décadas depois da II Guerra, admitindo o papel das autoridades nipónicas na coerção das mulheres, mas o silêncio e a recusa inicial em pagar indemnizações às vítimas valeu-lhe sucessivas acusações de não reconhecer o que aconteceu.

Em 2015, o Japão acabaria por fechar com a Coreia do Sul um acordo em que se comprometeu a dar mil milhões de ienes (cerca de 7,4 milhões de euros) a uma fundação de apoio às vítimas. Mas os termos do acordo nunca foram consensuais na Coreia do Sul, onde as associações de defesa das vítimas e parte da opinião pública não se reviram na forma como o Japão assumiu a questão.

O acordo foi negociado do lado de Seul pela antecessora de Moon, Park Geun-hye, mas sempre causou agitação política e fricção com o Japão – um dos episódios foi a instalação de uma estátua em frente ao consulado japonês na cidade sul-coreana de Busan, o que levou então o embaixador japonês na Coreia a ser mandado regressar a Tóquio.

O assunto marcou a campanha eleitoral das presidenciais de 2017 e a controvérsia mantém-se. Moon assumiu que iria tentar renegociar o acordo, algo que fica explícito no discurso desta quinta-feira. Do lado de Tóquio, a posição do Presidente sul-coreano levou Yoshihide Suga, chefe de gabinete do primeiro-ministro, a considerar a declaração “extremamente lamentável” – e, segundo a Reuters, falou da relação diplomática entre os dois países pedindo cooperação relativamente à questão norte-coreana.

No Japão há uma corrente de revisionismo, na qual se destaca o militar Toshio Tamogami, que atribui os factos a uma invenção histórica.

Foi já em 2017 que o Governo de Seul divulgou pela primeira vez um vídeo de 1944, encontrado por uma equipa de investigação da Seoul National University nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, que mostra “mulheres de conforto” que foram encontradas por forças aliadas americanas e chinesas na província chinesa de Yunnan. No vídeo, de alguns segundos, aparecem sete mulheres alinhadas no exterior de uma casa, duas das quais são vítimas que surgem em fotografias que já eram conhecidas.