Mark Deputter quer "criar um grande público" para a Culturgest

Há dois meses à frente da Culturgest, o novo director artístico pretende potenciar o alcance da instituição, com uma programação mais espaçada de nomes "reconhecidos". Para já, anuncia como certos Mala Voadora, Sónia Baptista, Ana Borralho e João Galante, Milo Rau, Rimini Protokoll e André Mesquita. E demonstra apreensão pelo futuro da sua anterior casa, o Teatro Maria Matos.

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NUNO FERREIRA SANTOS

Depois de dez anos no Teatro Maria Matos, Mark Deputter voltou ao lugar da aprendizagem. Os dois primeiros “intensos” meses enquanto director artístico da Culturgest – foi o escolhido para suceder a Miguel Lobo Antunes, por um mandato de três anos, após consulta pública lançada em Junho pela Caixa Geral de Depósitos – têm sido passados, em parte, a inteirar-se do funcionamento de uma estrutura com 24 anos. Um dos grandes desafios, assume, é o de pela primeira vez – depois de passagens pelo Teatro Camões, pelo Centro Cultural de Belém (CCB) e pelos festivais Danças na Cidade e Alkantara – se ver à frente de uma casa que integra as artes visuais na sua programação e que obriga a um pensamento mais vasto sobre o papel a cumprir numa Lisboa cuja oferta cultural muito se alterou na última década.

Perante “uma mudança de direcção”, defende, “a avaliação da história de um centro cultural e do seu lugar dentro da cidade pode ser feita de maneira mais incisiva, porque é um pequeno momento de ruptura, que tem influência nas opções artísticas e na gestão da casa”. Dizendo-se pouco fã de “mudanças bruscas ou dramáticas” e reiterando que quer construir a partir de um olhar sobre o que foi e o que é a Culturgest, Mark Deputter, 56 anos, começa por esclarecer as suas polémicas primeiras declarações ao Observador em que qualificava como “anacrónica” a actuação recente da casa que agora é a sua.

Tendo feito uma avaliação do que foi, do que é e do que pode a Culturgest vir a ser no futuro, a direcção ou a programação desta casa eram de facto "anacrónicas"? Em que sentido?

Não eram nada. Tenho uma grande admiração pelo trabalho que aqui foi realizado ao longo de quase 25 anos. Senti necessidade de olhar para o que foi feito, levá-lo a sério e pensar a partir daí, criando uma argumentação para as mudanças que podiam ser interessantes. A palavra "anacrónica" foi completamente tirada de contexto. Aquilo que dizia é que a Culturgest foi durante muitos anos o único espaço com uma programação consistente e regular na criação contemporânea, na inovação, na experimentação. A situação mudou drasticamente.

O que era, então, importante mudar?

A Culturgest estava a fazer o leque inteiro de artistas, dos mais novos aos mais famosos ou experientes. Mas com vários teatros em Lisboa – o Maria Matos, o Teatro Nacional [D. Maria II], o São Luiz e o CCB – a convidarem os mesmos artistas, esta posição única de casa da criação contemporânea e da inovação começa a ser cada vez menos um elemento distintivo da Culturgest. E a Culturgest tem várias características importantes. Em primeiro lugar, a sua história e a sua riqueza, que fazem parte da identidade da casa. Depois, a própria infraestrutura, com muitos espaços, um auditório muito bom, de grandes dimensões, e que se adapta muito bem às necessidades da criação contemporânea, por um teatro em arena. E finalmente o facto de funcionar com áreas diferentes – teatro, dança, performance, música, conferências, artes visuais e projecto educativo. Tendo em conta estes elementos,  há um potencial para redefinir ligeiramente o que a Culturgest faz.

E em que consiste, em concreto, essa redefinição?

A minha ideia para as artes do espectáculo passa por assumir a dimensão do nosso grande auditório, com 600 lugares, e usá-lo para aumentar e criar novos públicos para a criação contemporânea, para linguagens artísticas que procuram a inovação e novas formas de comunicar. Não são necessariamente as formas mais imediatas. É uma opção que nos liberta da obrigação de construir bancadas dentro do teatro e de reduzir uma lotação de 600 para 150 espectadores. Já houve muitos espectáculos para grande auditório – a Cão Solteiro, a Tânia Carvalho, o Tiago Rodrigues fizeram-no –, não estou a inventar nada de novo. É óbvio que a Culturgest vai perder uma certa riqueza de pequenas propostas, muitas delas fantásticas, mas vamos ganhar a oportunidade de uma série de artistas portugueses criarem para este tipo de espaço, com a possibilidade de se apresentarem depois num circuito de grandes teatros internacionais. Não se trata de fazer uma programação para o grande público, mas do contrário: fazer uma programação e tentar criar um grande público para ela. Vamos, por isso, trabalhar mais com artistas com público criado e que acumularam um certo reconhecimento.

Isso é um degrau seguinte em relação àquilo que fazia no Maria Matos, um teatro que apostava muito na afirmação de novos artistas?

Eventualmente. Mas pode equivaler também a artistas que trabalham habitualmente para espaços íntimos mas que podem precisar de um grande espaço para uma certa obra pensada para um grande público. Estas coisas misturam-se, não são categorias estanques. Claro que isso significa que vou procurar artistas portugueses que tenham experiência e know how num grande palco e apoiá-los nesse percurso. Estou a pensar, por exemplo, na Mala Voadora, em Ana Borralho e João Galante. Não faria sentido pôr no grande auditório um artista que saiu da escola no ano passado e esperar que haja 600 pessoas para vir vê-lo. 

Também já se referiu a Tânia Carvalho e Marlene Monteiro Freitas.

A Tânia Carvalho já teve oportunidade de fazer uma grande peça na Culturgest. Sei que adora trabalhar com grandes elencos e raramente tem essa oportunidade. No passado, todo o leque de produção – dos pequenos solos aos grandes espectáculos – era atingível com um artista português, mas com a crise perdemos muito esta capacidade. Perdemos dinheiro e até público – que agora está a voltar. Há uma série de artistas locais que têm ambição, capacidade e vontade de fazer peças para grande auditório e acho que a Culturgest deve proporcionar esta possibilidade. Já o tem feito, mas queria mesmo fazer disso o foco da programação.

Todos esses nomes já os encontrávamos no Maria Matos. O que é que muda na Culturgest? Os meios de produção?

Não vou inventar nomes novos. Não faz sentido vir para aqui com propostas em que até agora ninguém tinha pensado. A proposta é pegar em artistas que já tenham um percurso. O Teatro Maria Matos é um belo teatro, mas é de média-pequena dimensão. Há muitas obras de maior dimensão que simplesmente não cabem lá. É claramente diferente aqui. Existe desde logo uma diferença física. E enquanto no Maria Matos o foco era sobretudo num acompanhamento a longo prazo de uma série de artistas, na Culturgest vamos procurar dar-lhes a oportunidade de fugirem da obrigação ou da necessidade de fazer peças com dois, três, quatro intérpretes. De repente podem pensar em 10 ou 20. Na dança isso é extremamente importante. A própria grandeza de um espectáculo também atrai públicos.

Os nomes de que fala estão já confirmados para a temporada 2018/19?

Não todos. Teremos uma co-produção com a Companhia Paulo Ribeiro, que será uma nova criação do André Mesquita. Outro exemplo que cabe perfeitamente nesta lógica é a Sónia Baptista, que fez aqui há pouco tempo uma peça [Triste in English from Spanish] e que vale a pena repor. A Sónia tem um público fiel e interessado, mas pode dar um salto em termos de reconhecimento público. As conversas que vou tendo com os artistas são exactamente sobre o que significa fazer uma peça para esta sala. Haverá uma nova criação de Ana Borralho e João Galante, e [outra] da Mala Voadora. E havendo esta aposta em espectáculos de grande dimensão, a programação vai ser mais espaçada no tempo.

E com carreiras maiores?

Em certos casos. No caso das companhias estrangeiras é difícil, porque cada dia que um espectáculo fica aqui custa-nos mais dinheiro, mesmo com salas esgotadas. No caso dos artistas portugueses é com certeza uma opção.

Os espectáculos internacionais implicam pensar a Culturgest como casa para as grandes produções das artes performativas europeias?

Sim, é essa a opção: espectáculos que têm grandes elencos, que precisam de muito espaço, que pela sua natureza têm capacidade de atrair grandes públicos. Há muitas propostas a nível internacional que não passam por Lisboa e onde nos podemos focar. Temos uma oferta rica na cidade, e há até momentos no ano em que há programação a mais e não há público para tanto. Neste contexto também não me faz confusão optar por um segmento da oferta cultural a um ritmo mais calmo. Não temos de ter um espectáculo de duas em duas semanas. Obviamente que vamos ter uma programação regular, até porque haverá uma programação de música, que tradicionalmente na Culturgest é forte.

E vai concentrar-se em nomes a que o público de Lisboa não tivesse um acesso regular?

Sim, mas não quero excluir artistas que já estiveram cá, porque muitos deles vieram com as suas obras mais pequenas. Um exemplo é Milo Rau, que convidei para o Teatro Maria Matos por duas vezes, mas que quero trazer agora com uma peça [120 Dias de Sodoma] que ele fez com actores com trissomia 21. Mas também há a Gisèle Vienne, uma coreógrafa com um percurso já longo e espectáculos de grande dimensão que nunca passaram por Lisboa. A Culturgest é um espaço excelente para a dança, que com certeza terá uma maior presença. Haverá também um espectáculo do Rimini Protokoll, o 100%, que vamos trazer em conjunto com o Teatro Rivoli. Aliás, há muitas coisas que vamos fazer com o Rivoli, sobretudo na programação internacional, mas também na co-produção. E uma artista que vou querer continuar a seguir é a Meg Stuart – que tem estado presente mas, mais uma vez, com peças mais pequenas. Queremos introduzir novos nomes, porque é importante ver o que está a acontecer, mas também não é uma obrigação.

Nos últimos anos o Maria Matos trabalhou muito com ciclos temáticos. Vai replicar esse modelo na Culturgest?

Não. No Maria Matos procurámos juntar vários statements de artistas, as suas criações, e colocá-los em diálogo com statements de outra natureza – conversas, workshops, seminários. Na Culturgest não é prático nem faz sentido programar assim. Mas há uma história longa de conferências, de pensamento, que vamos continuar a fazer. Quero criar um ramo de programação autónoma nesta área do discurso crítico e da relação entre arte e sociedade. Por isso convidei a Liliana Coutinho [que transita do Maria Matos] para assessora.

Na música, a Culturgest tem apostado sobretudo em músicas do mundo, fado e jazz. A que vamos assistir futuramente?

Nessa área, convidei o Pedro Santos, que trabalhou comigo no Maria Matos ao longo dos dez anos – tornámo-nos mesmo um par. Aquilo de que gosto muito é o facto de o Pedro olhar para todos os géneros, da world music ao jazz, à música electrónica e à pop, e apontar para aqueles que tentam alargar as fronteiras desses géneros. Em relação ao Maria Matos, haverá uma grande diferença: podemos começar a desbravar propostas ou artistas de um certo patamar que requerem uma lotação mínima, e que o Pedro tem vontade de apresentar há muito tempo. Infelizmente ainda não posso avançar nomes.

Em que consistirá o seu diálogo com Delfim Sardo relativamente à programação das artes visuais?

O facto de a Culturgest ser uma casa multidisciplinar é algo que vamos querer trabalhar, sobretudo quando há muitos artistas para quem essa prática é natural. Estamos a discutir ideias sobre artistas que têm valências várias e que possamos apresentar. No primeiro ano não vamos ver realizações concretas porque as exposições já estão agendadas até 2019. Mas este é um dos elementos mais estimulantes da Culturgest, porque é uma novidade para mim a relação com as artes visuais. Ao longo das últimas décadas, entre as artes visuais e a dança ou a música tem-se criado uma interacção muito intensa e rica. Há muitas possibilidades de trabalhar isso.

Receia que, com um percurso ligado a uma programação sobretudo experimental, possa, porventura, ter um perfil menos institucional do que os seus antecessores e que isso fragilize o diálogo com a administração?

Houve um concurso, candidatei-me, fui escolhido pelo conselho de administração e isso é claramente um voto de confiança. Mas tenho muita noção da diferença entre programar para a Culturgest e para o Maria Matos. É importante sabermos que o nosso trabalho está muito ligado ao contexto e às características do lugar. Não vou fazer o que fazia no Maria Matos.