Famílias endividadas perdem 2% do rendimento com subida de um ponto nas Euribor

O que acontecerá à medida que a política do BCE for mudando? Banco de Portugal avisa para os impactos negativos no rendimento das famílias

Fotogaleria
Famílias com rendimentos mais reduzidos vão sofrer um impacto maior com a previsível subida da Euribor Diogo Baptista
Mario Draghi está a começar a operar uma mudança na política monetária do BCE
Fotogaleria
Mario Draghi está a começar a operar uma mudança na política monetária do BCE LUSA/ARMANDO BABANI

Quando as taxas de juro Euribor voltarem a subir, serão as famílias que contraíram um empréstimo a taxa variável e que têm rendimentos mais baixos aquelas que estarão expostas a impactos mais negativos, alerta o Banco de Portugal.

No Boletim Económico publicado esta sexta-feira, a autoridade monetária tenta antecipar um dos principais desafios que deverá enfrentar a economia portuguesa nos próximos anos: o provável regresso à normalidade da política monetária do Banco Central Europeu, o que terá como resultado a subida das taxas de juro de curto prazo que servem de indexante à maioria do crédito suportado pelos portugueses.

O banco central calcula, em particular, qual o efeito do aumento de um ponto percentual na taxa de juro de curto prazo sobre o rendimento dos portugueses por via, quer da alteração nas condições oferecidas nos depósitos a prazo, quer das condições dos empréstimos com taxa variável.

O resultado desta subida de taxa é, para a média das famílias com empréstimos a taxa variável por pagar, uma diminuição do seu rendimento disponível em 2%. Se a análise incluir todas as famílias portuguesas (isto é, incluindo também aquelas que não estão endividadas), o impacto médio é de 0,7%.

Há no entanto, impactos muito diferenciados de acordo com as características das famílias. A mais afectadas, como seria de esperar, são as famílias situadas nos escalões de rendimento mais baixo. As famílias do primeiro quartil (as que estão nos 25% de famílias com rendimentos mais baixos) que tenham contraído um empréstimo a taxa variável podem esperar um impacto negativo no seu rendimento de 4,4% por cada ponto percentual de subida nas taxas de juro. No polo oposto, as famílias situadas no quartil mais alto sofrem um impacto negativo de 1,6%.

De notar, contudo, que a percentagem de famílias de mais baixo rendimento que contraíram dívida a taxa variável é muito mais reduzida (13%) do que no quartil mais alto (58%).

O Banco de Portugal e outras entidades têm vindo a alertar para os riscos que uma economia com níveis de endividamento elevados como a portuguesa corre à medida que a política monetária se for tornando menos expansionista na zona euro. Para já, o BCE já anunciou os seus planos de redução progressiva do seu programa de aquisição de activos nos mercados a partir de 2018. Uma subida da sua taxa de juro de refinanciamento apenas acontecerá, mais tarde, quando esse programa estiver completamente finalizado. Ainda assim, é possível que, à medida que esse momento se for aproximando, as taxas de juro Euribor (que são calculadas com base nas taxas praticadas nos empréstimos feitos pelos bancos entre si e que servem de indexante à maioria do crédito concedido às famílias portuguesas) se comecem a adaptar, com uma subida progressiva.

Durante os últimos anos, a política expansionista do BCE conduziu a que as taxas Euribor caíssem para valores negativos, algo que reduziu os encargos com juros de muitas famílias portuguesas.