Entrevista

“Não quero ser nunca confundido com uma pessoa do PCP ou do BE”

Presidente do PS espera que Catarina Martins se tenha “arrependido” do que disse sobre o Governo. E reconhece que “entrámos numa fase mais complexa, a segunda metade da legislatura”.

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Daniel Rocha

“Muito estranharia que o BE fosse aliado ou apoiante de um Governo de lóbis”, atira Carlos César, respondendo à entrevista de Catarina Martins ao Expresso.

O PS guia-se por estudos de opinião?
O PS, como qualquer pessoa, deve ler e analisar os estudos de opinião que são feitos sobre a percepção da sua actividade.

Há muito a ideia de o PS, até no casos dos incêndios, se fundamentar muito neles...
Temos em consideração o que achamos que deve ser feito. Mas estamos atentos àquilo que as pessoas pensam e aos interesses em presença. Veja-se o caso da taxa sobre as renováveis...

Mais um em que a coordenação política não foi a melhor.
Não é nada disso. O que na prática o PS fez foi dizer "fizemos esta votação, mas precisamos de reflectir ainda sobre ela". E entendemos que não devia, para já, avançar. Demonstrámos claramente que não somos reféns de qualquer partido ou empresa. 

A líder do BE, Catarina Martins, disse ao Expresso que esse caso prova que o PS está na mão de lóbis.
É uma declaração inadvertida, injusta. E muito estranharia que o BE fosse aliado ou apoiante de um Governo de lóbis. Certamente que a líder do BE se terá arrependido logo no momento seguinte de ter dito isso. 

Francisco Assis e Manuel Alegre pediram uma resposta forte do PS.
Mas nós não estamos na política para responder ao BE ou ao PSD. O PS e o Governo têm obrigação de estar atentos aos interesses presentes e tomar as decisões mais compatíveis com o interesse nacional. Em cada momento.

Geralmente respondem ao PSD. Não lhe custa ouvir o BE e PCP e ficar calado?
Este acordo reúne um conjunto de posições dos partidos para um ciclo na vida portuguesa — e para áreas consideradas essenciais para a estabilidade política e a política orçamental. E é nessas áreas que revelamos as nossas semelhanças. Porque estes quatro partidos são muito diferentes. E têm áreas em que não são conciliáveis as suas posições, como em questões de índole europeia ou de Defesa Nacional. Portanto, é sobre essas matérias que incide o acordo, sobre as outras somos partidos felizmente muito diferentes. Eu não quero ser nunca confundido com uma pessoa que é do PCP ou do BE. Não sou nem do PCP nem do BE, sou do PS. Agora, que oferecemos ao país um projecto de estabilidade política, que neste ciclo essa confluência tem sido muito importante ou decisiva, isso é indiscutível. Esta solução não pode ser considerada um mal menor, quando muito um bem menor — porque o bem maior seria o PS ter um Governo com maioria absoluta.  

Tem alguma expectativa de se poder renovar o acordo para lá de 2019, tendo em conta o que têm dito BE e PCP?
Acho que quer os desenvolvimentos desta segunda metade da legislatura, quer os resultados eleitorais, ditarão a necessidade ou utilidade desse tipo de solução.

Com a eleição para o Eurogrupo, Mário Centeno passou a ter estatuto de indiscutível dentro do Governo? 
Já o tinha, manifestamente. A sua eleição decorre um pouco disso.

Com esse peso reforçado, Centeno e as Finanças serão ainda mais intransigentes em negociações sensíveis, como nas negociações com os professores que recomeçam esta semana?
Repare: a política do Governo não é do ministério 'x' ou 'y', é a do Governo no seu conjunto. E o compromisso deste Governo é o de compatibilizar avanços sociais significativos, não comprometendo as metas orçamentais. É um percurso conhecido, nada vai mudar. Os que elegeram Mário Centeno presidente do Eurogrupo sabem quais eram as metas orçamentais que o Governo tinha para 2018. São as que, no plano interno, continuarão a ser asseguradas.

E o Bloco e PCP? Vão ser mais intransigentes com o Governo?
Não creio que haja uma relação directa. Temos tido soluções positivas e ganhos, em especial na recuperação de rendimentos, por resultado de um acordo que co-responsabiliza todos os partidos. É evidente que entrámos numa fase mais complexa, a segunda metade da legislatura. 

Em que a complexidade tende a agravar-se.
Sim. Por um lado, porque os acordos firmados com esses partidos já têm um alto grau de execução — e há sempre a ambição de fazer para além do que está acordado. Por outro lado, os resultados no plano económico e financeiro são positivos, gerando algumas margens que estimulam vários sectores — entre os quais os sectores que apoiam o Governo — para novos avanços. Também porque há uma percepção dessas possibilidades e uma dificuldade na interlocução social e na concertação social, que advém da crise de representação dos sindicatos, das confederações patronais, de movimentos inorgânicos de aspirações sociais. 

Faltou falar-nos da aproximação de eleições. E o Presidente já alertou: espera que o último Orçamento não seja eleitoralista. Marcelo pode ficar descansado?
Essa preocupação não é apenas do PR. O Governo tem sido muito firme ao dizer várias vezes que não podemos dar um passo maior do que a perna. É o que diremos para o OE 2019. 

Desde os incêndios que o Presidente parece mais interventivo, fez alertas sobre a eleição de Centeno para o Eurogrupo, sobre as negociações com professores... Como é que tem visto estes avisos?
Vejo-os sempre com muito proveito para o Governo. Compete ao Presidente manter uma posição de alerta em relação aos problemas. E tem tido uma preocupação de se constituir como factor de coesão e não de perturbação. Acresce que o PR nunca excedeu as suas competências, não está em competição com o Governo.

No congresso de 2018, o PS pode também definir a estratégia para as presidenciais e dar um apoio a uma reeleição de Marcelo?
Não, não. As presidenciais ainda estão muito longe. O que está neste momento em causa é assegurar a continuidade do que tem acontecido: um relacionamento institucional perfeito, uma cooperação entre PR, AR e Governo exemplares e produtivos.