Airbnb: "Autorização do condomínio? Não percebo que problema resolve"

O director-geral da Airbnb para Portugal e Espanha, Arnaldo Muñoz, elogia a forma como as autoridades portuguesas souberam identificar a importância deste tipo de turismo e diz que a empresa tem com elas um trabalho colaborativo profundo.

Foto
©Rui Gaudencio

O  Airbnb é uma plataforma electrónica de aluguer de casas e experiências que surgiu há dez anos e tem actualmente quatro milhões de anúncios em todo o mundo. O director-geral ibérico desta plataforma deixa grandes elogios a Portugal e ao facto de as autoridades “saberem do que estão a falar” e se preocuparem em oferecer um destino de qualidade. Arnaldo Muñoz diz que a colaboração entre operadores e autoridade é estreita e articulada. Quanto a mudanças legislativas, muitas das medidas que estão a ser analisadas para Portugal já foram aplicadas noutras cidades e países. “Ajustamo-nos a tudo”. E fala dos impostos, da legislação e dá estatísticas sobre a actividade.

Há dois anos a cidade de Lisboa ocupava o sétimo lugar no ranking dos destinos mais importantes para a Airbnb. Mudou alguma coisa?
Segue a ocupar o mesmo lugar. As coisas em Portugal estão a funcionar muitíssimo bem e não apenas em Lisboa. Lisboa está no oitavo lugar, Porto está entre os 30 destinos mais importantes e a região do Algarve está entre as três mais procuradas como destino de férias. No total, há 66 mil anúncios carregados em Portugal na plataforma do Airbnb. Devo lembrar que um anúncio não quer dizer uma casa, mas apenas um quarto, e às vezes uma casa pode significar quatro anúncios diferentes. Mas é a melhor forma que temos de contabilizar as propostas que temos para os nossos utilizadores.

São, ainda assim, propostas muito diferentes. Em Junho começaram a listar também experiências. Há algum reposicionamento da plataforma?
Se no passado éramos sobretudo uma plataforma para pessoas que queriam viajar para as cidades e ter uma experiência diferente, agora estamos a tornar-nos, cada vez mais, numa plataforma para as famílias que procuram casas para as férias. Estamos a complementar cada vez mais esse papel urbano com a componente de lazer. A aposta nas experiências - um jantar num miradouro, um espectáculo, uma visita guiada -  é mais recente. Lisboa foi das primeiras cidades da Europa a recebê-las e já temos 150 experiências na plataforma. Tem sido um sucesso. O melhor de Portugal, contudo, é o potencial de crescimento que ainda tem.

Qual foi a taxa de crescimento este ano?
Foi um crescimento espectacular, de 28%. E isto acontece porque há um regime de colaboração estreita com as autoridades. Quando percebemos que a economia da partilha, no caso em concreto o homesharing [partilha de casa] não só é compreendido como é regulado, quando há garantias jurídicas para os anfitriões, o resultado é ter estas taxas de crescimento. Se olharmos para o número de pessoas que nos últimos 12 meses teve contacto com a plataforma na cidade de Lisboa, seja porque é anfitrião, ou porque é um hóspede, verificamos que abrangemos 25% da população. Quando chegas a estes números, de facto fazes parte do ecossistema, e faz com que todas as conversas com as autoridades sejam muito mais fáceis. Os estereótipos que existem noutros países não existem aqui, obviamente.

O que diferencia Portugal dos outros países e das outras cidades?
O melhor que Portugal tem é que nos últimos cinco anos definiu um plano estratégico onde estabeleceu a forma como queria crescer no turismo - ou seja, estabeleceu coisas que algumas cidades e países ainda estão a descobrir agora. Falo deste novo segmento de viajantes que é preciso cuidar. Chamam-lhes os millenials, mas na verdade, estamos a falar de todas as pessoas que decidem em que é que se gasta. E para eles é cada vez mais importante viver uma experiência do que ter uma propriedade. O Governo português pensou nisso no seu plano estratégico. Em segundo lugar, percebeu também que a tecnologia seria, de alguma forma, a nova maneira de consumir turismo. Assim sendo, todas estas plataformas, como o Airbnb, o Uber, o Booking, perceberam que poderiam crescer em Portugal. Por último, as autoridades fizeram um bom trabalho a incentivar a procura, conseguiram transformar o destino em algo aspiracional. Pode-se dizer que esta é uma paisagem quase única em termos mundiais.

Como é que essa postura do governo influenciou a vossa relação?
Por exemplo, anunciámos recentemente uma ferramenta que não existe em mais nenhum lugar. É uma ferramenta que permite ao anfitrião que esteja a carregar o seu anúncio na plataforma Airbnb fazer automaticamente o seu registo no Turismo de Portugal.

Esse registo passou a ser obrigatório desde Julho. Decorre da entrada em vigor da lei.
Era obrigatório, mas não havia mecanismos para partilhar essa informação com o Turismo de Portugal. Nós criámo-los. Estamos a partilhar toda a informação com o Turismo de Portugal, para que eles efectivamente possam comprovar que todas as normas do alojamento local estão a ser cumpridas.

Há outros países a terem registo obrigatório. Portugal é o único país do mundo a ter essa integração?
Já tínhamos ferramentas colaborativas com a administração em cidades como Chicago e São Francisco. Mas a possibilidade de com um link aceder ao Turismo de Portugal, fazer o registo, continuar o processo, não existe em mais nenhuma cidade ou país do mundo. Só aqui. Isto só mostra o nosso espírito de partilha, de colaboração.

A Airbnb  sentiu algum impacto com essas mudanças legislativas? Perdeu anúncios quando os registos se tornaram obrigatórios?
Não temos uma análise fina. O que sabemos é que o número de anúncios continuou a crescer. Quanto maior segurança jurídica houver, quanto mais reconhecimento e estabilização houver, é mais fácil que haja pessoas que queiram incrementar as suas receitas colocando a sua casa na economia da partilha e no Airbnb.

A segurança jurídica não é definitiva. Há um pacote legislativo a ser discutido na Assembleia da República.
Mesmo assim Portugal tem maior segurança jurídica do que muitos países europeus. Tem desde 2014 uma lei de alojamento local que reconhece o homesharing. Em Barcelona, por exemplo, ainda não há uma lei que o reconheça. É fundamental que Governo e administração indiquem as regras do jogo. Quando há regras, e quando se sabe do que se fala, esse diálogo é muito fácil. Creio que é bom para o país e para o objectivo de fazer crescer o turismo sustentável. E obviamente é bom para o Airbnb e para a comunidade de anfitriões.

Uma das propostas em discussão é obrigar que os proprietários de um apartamento tenham autorização do condomínio para os colocar nessas plataformas. O que acha?
Se aprovarem uma regra com essas características, obviamente que a vamos cumprir. Mas acho que é importante que a lei tenha sempre em mente a necessidade de resolver possíveis problemas. E aqui não percebo que problema querem resolver. Se há 25% da população de uma cidade a usar esta plataforma, querem fazer-nos acreditar que todos são conflituosos, ruidosos?

Quais são os objectivos dos branded apartments que estão a testar em Miami? Não servirá para evitar estes problemas, e não ter de perguntar nada a ninguém, porque o prédio é todo do Airbnb?
Somos uma empresa com uma grande vocação de startup, de experimentar sempre novas ideias. Algumas são mais apelativas que outras. Essa é só mesmo isso, uma ideia que estamos a testar. Só depois veremos até onde pode ir.

Outro assunto em discussão está relacionado com o tratamento fiscal. Há quem defenda que há muitos anfitriões profissionais, que têm prédios inteiros listados no Airbnb, que competem com os hotéis. Porque hão-de ter tratamento fiscal diferente?
Essa pergunta era interessante se de facto estivéssemos a competir de forma desleal e a afectar os hotéis. Se assim fosse, eles estariam com as receitas a baixar, tanto ao nível das taxas de ocupação como no rendimento por quarto.  E isso não acontece. Quando tens eventos como a Web Summit, em que 30% dos participantes usaram a plataforma de Airbnb e os hotéis estavam cheios... A verdade é que o serviço que cada um oferece é muito diferente, os sistemas são compatíveis.

Mas não estamos a falar do serviço, estamos a falar da fiscalidade.
Uma coisa é a economia de particulares e outra é a economia de profissionais. Cada uma delas tem regras fiscais diferentes e obrigações para cumprir. A economia dos particulares, por exemplo, não suporta o IVA, e a dos profissionais sim. Não tem nenhum sentido que quando estás numa casa arrendada não pagues IVA, mas se estás a alugá-la três ou quatro dias tenhas de o fazer.

Há medidas que estão a ser discutidas em Portugal e que já foram aplicadas noutras cidades. Em Berlim há multas a quem colocar a casa toda no aluguer, em São Francisco é proibido alugar mais do que 90 dias por ano. Quais foram as mais punitivas?
Temos de reconhecer que cada cidade é diferente. Tanto em termos de turismo como em termos de habitação. Há cidades que têm um centro da cidade completamente desocupado, outras não. Temos de reconhecer essas diferenças e admitir que os acordos a que chegamos com os responsáveis de cada cidade terão de ser necessariamente diferentes. Em Portugal estamos a falar de cidades que até há dois anos estavam a perder população nos centros históricos. Fala-se muito de gentrificação, mas temos de perceber que ela estava a acontecer até há dois anos, quando os centros das cidades não tinham actividade, consideravam-se inseguros. Mas agora já começas a ter cidades que estão a crescer a partir do seu centro. O que todos temos de nos preocupar é que cresça de uma forma sustentável. E temos todos de nos preocupar com isso.

Que contributos tem levado o Airbnb para essa discussão?
As autoridades de cada cidade ou país querem manter a qualidade do produto turístico. O Airbnb quer exactamente a mesma coisa. Se a experiência que tem quem visita o destino não é boa, ele não volta. Nós não gastamos dinheiro em campanhas de marketing, apostamos no passa-a-palavra. Precisamos que a experiência seja boa e trabalhamos com quem for preciso nesse sentido, para optimizar essa experiência.

Como assim?
Os mecanismos de colaboração a que chegamos com o Turismo de Portugal servem esse propósito. Quando lhes dou acesso aos nossos dados, através da integração das plataformas, sei que também os ajuda muito a fazer esse trabalho de planeamento. Estou convencido que se há cinco anos soube fazer um plano estratégico muito importante, em que entendia a tecnologia e os novos segmentos de utilizadores, agora também saberá planear um crescimento de forma sustentável. E terá a nossa colaboração para isso, porque é do interesse de todos. Era importante que os nossos concorrentes fizessem o mesmo. Esta maneira de colaborar deveria servir para toda a indústria. Nós estamos a liderar a indústria mas necessitamos que o resto das plataformas também o faça.