Resolvido o mistério das moscas-alcalinas

Espécie tem o seu habitat natural em lagos muito salgados e alcalinos, protegendo o corpo com uma bolha de ar.

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A mosca-alcalina Cortesia de Floris van Breugel

Há muito tempo que uma pequena mosca que prospera num lago inóspito da Califórnia, a leste do Parque Nacional de Yosemite, deixa perplexo quem a observa a mergulhar nessas águas salgadas e alcalinas para comer algas e pôr ovos e depois regressar à superfície completamente seca. Os segredos desta mosca mergulhadora foram agora revelados, num estudo publicado na edição desta semana da revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences.

A mosca-alcalina (Ephydra hians), de seis milímetros de comprimento, tem certas características que lhe permitiram conquistar o lago Mono, cujas águas são extremamente alcalinas e têm três vezes mais sal do que o Pacífico. Está coberta por uma grande quantidade de pêlos fininhos que estão revestidos com uma cera especial, que lhe protege o corpo quase todo com uma bolha de ar (excepto os olhos), o que lhe permite andar em águas que condenariam à morte qualquer outro insecto. Depois de comer ou pôr os ovos, ela flutua até à superfície envolta na sua bolha de ar, mantendo-se seca e em segurança.

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A mosca-alcalina protegida pela sua bolha de ar PNAS

“Estas moscas encontraram um grande festim – toda a comida que querem, com poucos predadores. Só tinham de resolver este problema complicado”, diz um dos autores do trabalho, o biólogo Michael Dickinson, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, nos EUA).

Todos os insectos, em certa medida, são peludos e repelem a água. A mosca-alcalina amplificou essas características para vencer as condições extremas do lago Mono, cujas águas tendem a agarrar-se a qualquer superfície devido a quantidades exorbitantes de carbonato de sódio, um químico usado nos detergentes da roupa. Esta mosca vive também no lago Abert (no Oregon) e no Grande Lago Salgado (no Utah), ambos salgados e alcalinos.

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Lago Mono, na Califórnia Cortesia de Floris van Breugel

“Este estudo mostra-nos um exemplo claro da evolução em acção”, acrescenta o outro autor do trabalho, Floris van Breugel, antes no Caltech e agora na Universidade de Washington. “Estas moscas evoluíram para deslizar debaixo de água, para terem comida abundante, algas, que crescem aí. O lago não quaisquer peixes, porque eles não conseguem viver com os químicos agressivos que aí existem. Por isso, as moscas não têm grandes predadores no lago. Para a maioria dos insectos, os peixes são a razão pela qual deslizam debaixo de água.”