A filosofia ajuda as crianças a pensar e a ser argumentativas

No Dia Internacional da Filosofia o PÚBLICO foi saber como evoluiram as aulas de Filosofia para Crianças.

Adriano Miranda
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Adriano Miranda

A aula começa com uma história que a professora Joana Marques conta. É assim que os meninos do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, começam as suas aulas de Filosofia para Crianças do 1.º ao 4.º ano. A partir dali conversam durante 45 minutos sobre a verdade, a mentira, a liberdade ou até a morte.

O projecto começou há nove anos e os primeiros alunos já chegaram ao secundário, onde a Filosofia é disciplina obrigatória. A docente tem a certeza de que estes estudantes têm mais ferramentas para pensar e argumentar do que os que não andaram no 1.º ciclo a debater o porquê das coisas. Esta quinta-feira é o Dia Internacional da Filosofia.

A Filosofia para Crianças e Jovens (FPCJ), do pré-escolar ao 3.º ciclo, começou timidamente – o Colégio Internacional de Vilamoura (CIV) faz parte dos pioneiros e dá a oportunidade aos seus alunos de filosofar desde 1997, logo a partir dos quatro anos. "Hoje, já com 20 anos de prática, continuamos a apostar nesta área, articulando-a com a arte, as ciências e a literatura, por exemplo", revela Cidália Ferreira Bicho, directora do CIV.

Actualmente, esta é uma actividade que chegou ao ensino público através de projectos, de actividades de enriquecimento curricular (AEC) ou como disciplina de oferta de escola. Os estabelecimentos de ensino ganharam autonomia e Eugénio Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática, responsável pela formação de professores e educadores de infância, refere que existirão cerca de 100 agrupamentos de escolas com esta alternativa.

Os dados do Ministério da Educação referem apenas 11 agrupamentos com a Filosofia em AEC, mas o professor-formador contesta-os: "Se for uma oferta complementar, o ministério não consegue contabilizar."

"Fazer as coisas de outra maneira"

E por que é importante a filosofia desde cedo? Cidália Ferreira Bicho, directora do CIV, responde que numa escola com meninos de várias nacionalidades é importante "ver o mundo com os olhos dos outros". "As crianças ouvem melhor, argumentam, sabem falar sem recorrer a um papel. Isto são competências transversais que se adquirem e que ajudam nas outras disciplinas", acrescenta Eugénio Oliveira. "Os jovens que chegam ao secundário e passaram pela FPCJ são mais activos, menos reservados, mais participativos na sociedade, organizam-se, criam projectos", avalia Jorge Humberto Dias, professor universitário. Joana Marques sublinha: "Não é só o aluno que se sabe expressar bem, mas que quer dizer ao mundo o que pensa e que defende que se podem fazer as coisas de outra maneira." 

A FPCJ vem também ajudar ao diálogo entre pais e filhos, acredita Joana Marques. No início, os encarregados de educação achavam estranha esta oferta da escola, mas depois "a reacção foi animadora". Os pais contam que os filhos levam perguntas para a casa, para debater e "isso é entusiasmante", considera a professora.

"Há interesse dos pais que os filhos sejam mais autónomos e a FPCJ dá-lhes instrumentos cognitivos e reflexivos, potenciando a criança a pensar", complementa Jorge Humberto Dias.

Eugénio Oliveira não esconde que a FPCJ veio também ajudar a combater o desemprego dos professores desta disciplina. No entanto, salvaguarda, chegam à formação educadores de infância e professores de 1.º ciclo. Isabel Bernardino, vice-presidente da Associação de Professores de Filosofia, considera que não é preciso ser da área para trabalhar com os mais novos. "Eventualmente uma pessoa que não é da filosofia pode ter mais dificuldade nos conceitos filosóficos, mas se aprender e desenvolver as competências, o espírito crítico e o argumentativo, qualquer pessoa poderá fazê-lo", conclui.

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