Editorial

Presos à “geringonça”?

A dois anos das legislativas, estas são provavelmente as perguntas para um milhão de euros: a “geringonça” será vítima do seu sucesso? A esquerda viverá o dilema do prisioneiro ou uma síndrome de Estocolmo?

Há dois anos, neste mesmo dia, António Costa derrubou um muro: pela primeira vez na história, Bloco e PCP saíram da zona de protesto e entraram no lounge da governação. Dois anos passados, já é de La Palice: os partidos à esquerda tornaram-se mais pragmáticos, mais informados — e com isso também mais influentes.

A grande questão do futuro é se, com isso, António Costa abriu uma janela ou criou uma prisão. Francisco Louçã já lançou o debate, aqui no PÚBLICO: quando chegarmos às legislativas alguém pode dizer que não à “geringonça 2.0”?

Vamos passo a passo, porque até lá ainda há caminho — e menos fácil do que o feito até aqui. Basta lembrarmos a cola que juntou esta maioria: tirar Passos do caminho e abrir espaço a uma distribuição de rendimentos. 

Costa fez da sorte a sageza: se Cavaco exigia um papel assinado pelos três, então que se fizesse do papel um guião para o caminho e um seguro de vida. Mas, hoje, Cavaco saiu de Belém, Passos está de saída e o programa está quase cumprido. Estes três factores dão-nos o resultado a meio do jogo: a esquerda tem pela frente uma folha quase em branco, com imperiosa necessidade de a preencher. A avaliar pelo novo Orçamento, esse desafio será cumprido até 2019. Nem que seja pela cola que resta: as próximas legislativas.

A campanha será o momento do dilema do prisioneiro — nela cada jogador quererá aumentar ao máximo a sua própria vantagem sem lhe importar o resultado do outro jogador. Mas a dúvida virá com o dia depois: se Costa vencer, mas precisar da esquerda, alguém lhe pode dizer que não?

As circunstâncias nessa altura serão diferentes, é certo. Mas não é claro que com o derrubar do muro, em 2015, o PS não tenha criado um dilema impossível ao Bloco e PCP. Passos não será o líder do PSD, mas a esquerda vai preferir uma governação ao centro? Quererá entrar num braço-de-ferro com um governo minoritário, sabendo que quem governa tem vantagem no momento da dissolução? E Marcelo? Aceitará dar a Costa o poder sem garantias de estabilidade? 

A dois anos das legislativas, estas são provavelmente as perguntas para um milhão de euros: a “geringonça” será vítima do seu sucesso? A esquerda viverá o dilema do prisioneiro ou uma síndrome de Estocolmo? E o sistema político português terá tido um interregno conjuntural, ou vai viver os próximos anos num novo bipartidarismo, entre o bloco da esquerda e o bloco da direita? Serão o PCP e o BE, definitivamente, o CDS da esquerda — ou a Europa vai acabar com esse sonho socialista?

david.dinis@publico.pt