“As pessoas têm expectativas elevadas em relação ao Google”

Madhav Chinnappa, que faz a mediação entre os jornalistas europeus e o gigante tecnológico, diz que se espera muito do Google – mas que isso é um bom problema para se ter.

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Madhav Chinnappa ainda se descreve como “uma pessoa do mundo das notícias” Rui Gaudêncio

“Googlar” tornou-se uma das primeiras etapas para encontrar informação. Descobrir o estado do tempo do outro lado do mundo, o resultado de um jogo de futebol em tempo real, micro biografias, ou até traduções razoáveis de frases em chinês demora segundos. O motor de busca apresenta os resultados mais relevantes no topo de todos os resultados possíveis. Há casos, porém, em que traz à tona resultados com informação imprecisa, errada ou mesmo falsa. Particularmente, notícias.

“As pessoas têm expectativas elevadas em relação ao Google”, admite ao PÚBLICO Madhav Chinnappa, o responsável pela gestão das relações entre a empresa e os media na Europa. “E o desafio com expectativas elevadas é que nunca se vai conseguir atingi-las sempre.”

Num dos casos mais recentes, o motor de busca, no espaço dedicado a notícias, apresentou informação falsa sobre o responsável do massacre de Las Vegas. A informação era do 4Chan, um popular fórum online, e indicava a pessoa errada como o autor do ataque. A culpa foi atribuída a um erro no algoritmo, que dava mais privilégio a informação recente em vez de informação de fontes credíveis. Foi corrigido assim que foi detectado, mas Chinnappa reconhece que as pessoas esperam mais da empresa. Para isso contribui que, por exemplo, a empresa de inteligência artificial do grupo do Google – a Deep Mind – já crie programas capazes de competir contra humanos.

“Por vezes, porque o Google Deep Mind é capaz de vencer o mestre do Go, há a ideia de que o Google pode fazer absolutamente tudo. Esperamos evoluir em todas as áreas, mas são diferentes tipos de problemas”, diz Chinnappa.

No jornalismo, a estratégia é ajudar os jornalistas a contar histórias relevantes e fazê-las chegar ao maior número possível de pessoas. “Partilhamos muitos dos mesmos valores, em especial o acesso à informação”, diz Chinnappa, que se descreve a si próprio como “uma pessoa do mundo das notícias”. Trabalhou duas décadas para a agência de notícias Associated Press e para a BBC, nas áreas de gestão de negócios. “Quis vir para o Google porque via a tecnologia a afectar tudo o que se fazia”, recorda o director, que agora tenta construir pontes entre a multinacional e a indústria de notícias.

Uma das iniciativas da empresa neste sector é o fundo Digital News Initiative (DNI) – um projecto de financiamento que apoia inovações tecnológicas no jornalismo (o PÚBLICO tem três projectos co-financiados pelo DNI). O fundo destina-se às empresas de media na Europa, onde o Google enfrenta dificuldades de relações públicas. Desde acusações de abuso de posição dominante – em Junho recebeu a maior multa de sempre da Comissão Europeia por práticas anticoncorrenciais –, a legislação para multar conteúdo de ódio ou falso. Com o avançar do projecto, Chinnappa diz que as relações com os media europeus têm melhorado.

O Google também quer ajudar os sites de notícias a desenvolver sistemas simplificados de subscrição. “Quanto mais fricção há no sistema de subscrição menos provável é que as pessoas paguem,” explica Chinnappa, que diz ter encontrado sistemas de subscrição com mais de vinte etapas. “As pessoas que pagam depois desses passos todos deviam ter os editores a visitá-las em casa para lhes agradecer e dar um aperto de mão.” 

A empresa de tecnologia quer facilitar o processo, por exemplo, ao desenvolver algortimos que reconheçam possíveis subscritores nos leitores online para lhes apresentar um modelo de subscrição "no momento certo". Além disso, a empresa acabou com a política do "primeiro clique grátis", que permitia aos leitores evitarem as barreiras de pagamento de alguns sites de notícias.

Nos últimos anos, os órgãos de informação online têm enfrentado problemas financeiros com a diminuição da receita que vem da publicidade, em parte devido a sistemas de bloqueio de publicidade (que o Google também está a desenvolver), e ao Google e Facebook que têm grande parte do mercado da publicidade digital. Mas além de concorrente, o Google é um fornecedor de anúncios para os media. “Neste caso só fazemos dinheiro se os editores fizerem dinheiro”, frisa o responsável.

“E sim, precisamos de fazer mais, mas temos de o fazer em colaboração em vez de à maneira antiga em que os engenheiros do Google decidiam sozinhos", diz Chinnappa. Mesmo que, como em qualquer relação, existam alturas melhores e piores. “E eu prefiro viver com espectativas elevadas, porque isso obriga-nos a tentar ser melhores. É um bom problema para ter, certo?”