Familiares das vítimas de Pedrógão acreditam que Estado os vai indemnizar

"Chegou o momento de ver como os responsáveis políticos se vão comportar. As pessoas estão fartas de declarações ruidosas e de mãos cheias de nada”, diz Nádia Piazza, que perdeu o filho de cinco anos na tragédia.

Foto
LUSA/PAULO NOVAIS

A presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande acredita que o Governo vai levar em conta as conclusões dos dois relatórios que encomendou a peritos e que o Estado assumirá as suas responsabilidades na tragédia e avançará com indemnizações. Se isso não acontecer, a associação irá para tribunal, mas por enquanto os seus promotores confiam que não será necessário ir tão longe.

“Os dois relatórios não deixam margens para dúvidas, são peremptórios, as conclusões são mesmo clamorosas: falhou tudo, desde a prevenção ao combate, até à protecção das aldeias e o socorro às vítimas, algumas das quais poderiam ter sobrevivido”, sintetiza Nádia Piazza, que perdeu o filho de cinco anos na tragédia de 17 de Junho.

Nádia e outros promotores desta associação vão ser recebidos nesta quarta-feira pelo primeiro-ministro, António Costa, naquela que é a primeira reunião com o governante. E vão para o encontro com “expectativas legítimas”, frisa.

“Fomos pacientes. Respeitamos as instituições e o Estado de Direito. Agora estamos na recta final e chegou o momento de ver como os responsáveis políticos se vão comportar. As pessoas estão fartas de declarações ruidosas e de mãos cheias de nada”, diz Nádia, que é jurista e defende que "não sobram dúvidas de que há aqui responsabilidade civil extracontratual do Estado" por "funcionamento anómalo”.

A protecção da população portuguesa contra os incêndios — e ao caso de Pedrógão juntou-se a tragédia dos últimos dias — é, diz, "uma questão de segurança nacional”. A jurista volta a afirmar, com ironia, que os promotores da associação foram demasiado “brandos”, por terem esperado meses pelos relatórios e conclusões dos peritos, "quando havia medidas que podiam e deviam ter sido tomadas de imediato" e era possível impedir novas desgraças.

Medidas que, crê, podiam ter evitado que se repetisse outra nova tragédia desta dimensão — os incêndios dos últimos dias que já vitimaram pelo menos 41 pessoas. "Já tínhamos vivido uma tragédia. Desta vez, já não éramos virgens inocentes. Passou o Verão, veio o Outono e não se aprendeu nada”, lamenta.

Sublinhando que a associação vai “apadrinhar” várias manifestações de protesto marcadas para os próximos dias um pouco por todo o país e que vai promover também uma manifestação na estrada onde morreram muitas das vítimas em 17 de Junho, quando tentavam escapar ao fogo, Nádia faz questão de acentuar que o que move os familiares é a necessidade de “mudar o actual estado das coisas”. 

“Promovemos um evento de auto-protecção e resistência [aos fogos] recentemente, em que participaram 22 aldeias, com o alto patrocínio do Presidente da República e o apoio da Fundação Gulbenkian. Agora, não se pode pedir no calor dos fogos à população que seja resiliente [como fizeram o secretário de Estado e a ministra da Administração Interna]. As pessoas não sabem o que fazer nestas situações, não estão treinadas, não têm pontos de encontro para se refugiar”, critica.