Boris Johnson retoma estandarte do "Brexit" minando ainda mais autoridade de May

Tomada de posição surgiu a dias de discurso da primeira-ministra britânica à Europa e a duas semanas do congresso dos tories.

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Boris Johnson retomou uma das bandeiras desacreditadas do "Brexit" Mary Turner/REUTERS

A dias de um discurso sobre que está a gerar expectativa – a primeira-ministra britânica pode dar em Florença alguns sinais capazes de desbloquear o impasse em que caíram as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia –, Boris Johnson saiu da sombra num artigo em que reafirma a sua visão radical para o “Brexit”. Numa só penada, volta a pôr em causa a autoridade de Theresa May e a sua capacidade para fazer as cedências necessárias a um compromisso com os europeus.

O tumulto gerado pelo artigo de sábado no Telegraph foi tal que, nesta segunda-feira, Theresa May teve de garantir que o executivo está a ser conduzido “por quem está ao volante” e “vai todo na mesma direcção”. “O Boris é o Boris” limitou-se a afirmar, garantindo que o Governo está unido na necessidade de chegar ao “acordo certo para o ‘Brexit’”.

Uma afirmação que a realidade teima em contrariar, depois de um Verão em que a facção encabeçada pelo ministro das Finanças, Philip Hammond, se esforçou por demonstrar a inevitabilidade de negociar uma transição mais suave para fora da UE, mantendo alguns muitos dos mecanismos actuais, e os defensores “Brexit” insistiram que só um corte radical após Março de 2019 respeitará a decisão tomada pelos eleitores britânicos.

Pressentindo que a primeira-ministra, pressionada pelo impasse nas negociações, se aproxima da posição deste último grupo, Johnson despiu o fato de chefe da diplomacia e empunhou de novo o de líder da campanha pela saída da UE, num longo texto de opinião em que ataca os que receiam os efeitos do “Brexit”. Reafirmou que Londres vai recuperar “os 350 milhões de libras” que entrega semanalmente a Bruxelas (levando o chefe da autoridade estatística britânica a acusá-lo de insistir num valor que é errado), disse que continuar a contribuir para os cofres da UE em troca de um acesso ao mercado único (como sugere Hammond) seria “uma traição” ao resultado do referendo e omitiu qualquer referência a um período de transição após 2019.

Palavras que poderiam passar em claro não fosse o discurso que May agendou para sexta-feira em Florença. Não se sabe o que ela irá dizer, mas depois de três rondas de negociações em Bruxelas sem avanços visíveis, os europeus esperam que ela levante o véu sobre quanto pretende pagar dos compromissos financeiros já assumidos – sem um sinal nesse sentido é quase certo que o arranque da segunda fase das negociações seja adiado para o próximo ano.

Pior, o artigo surge duas semanas antes do congresso anual dos conservadores, que servirá de barómetro para perceber que poder ainda resta à fragilizada primeira-ministra depois da humilhante perda de maioria nas legislativas de Junho. Ninguém desafiou ainda abertamente a sua liderança, mas Johnson não desistiu ainda de tomar as rédeas do partido e, depois de uma sondagem ter colocado o muito conservador deputado Jacob Rees-Mogg como favorito dos militantes, o eterno rebelde viu-se obrigado a reclamar-se como porta-estandarte do “Brexit”. Uma jogada, dizem os comentadores, que agradará aos eleitores desencantados com o lento processo de saída da UE, mas que pelo caminho tornou ainda mais estreita a margem de acção da primeira-ministra numa quinzena que poderá ser decisiva.