Em contramão com May, ministro das Finanças quer "Brexit" amigo da economia

Imprensa britânica sublinha capitulação de Londres na primeira ronda de negociações em Bruxelas. Phillip Hammond considera vital um acordo de transição.

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“Estou confiante que podemos chegar um acordo de ‘Brexit’ que coloque o emprego e o crescimento económico em primeiro lugar”, diz Hammond Eddie Keogh/Reuters

Um dia depois do início das negociações em Bruxelas – com Londres a aceitar um calendário que recusara durante meses –, o ministro das Finanças britânico, Phillip Hammond, defendeu que o país precisa de negociar um acordo de saída da União Europeia que defenda o crescimento e o emprego, distanciando-se claramente da retórica adoptada pela primeira-ministra e da sua máxima de que “nenhum acordo é melhor que um mau acordo”.

“Quando os eleitores votaram, em Junho do ano passado, eles não escolheram ficar mais pobres ou inseguros. Eles votaram para sair da UE e nós vamos sair da UE. Mas isso deve ser feito de uma forma que funcione para o Reino Unido”, disse Hammond, num discurso na City de Londres, afirmando que uma saída que não acautele a prosperidade do país “não cumprirá as instruções dadas pelo povo britânico”.

O ministro, que fez campanha pela permanência na UE, distanciou-se também de Theresa May ao afirmar que o país “quer gerir a imigração, mas não quer acabar com ela”, até porque “quer garantir que os empregadores continuam a ter acesso aos talentos que precisam”. E considera vital a negociação de um período de transição que enquadre as relações entre os dois blocos após a saída britânica, em Março de 2019, sugerindo que, mesmo deixando a união aduaneira (que garante um comércio livre de tarifas entre os países-membros), o país deverá manter durante alguns anos “o actual enquadramento alfandegário”, evitando assim o caos que uma saída desordenada provocaria.

“Estou confiante que podemos chegar um acordo de ‘Brexit’ que coloque o emprego e o crescimento económico em primeiro lugar”, afirmou Hammond.

“Apesar de tecnicamente não ter quebrado as posições colectivas assumidas pelo Governo sobre o ‘Brexit’ ou a economia, é inconcebível que o ministro das Finanças tivesse feito este discurso antes das falhadas eleições de há 15 dias”, escreveu o jornal The Times, lembrando que durante a campanha, quando as sondagens apontavam para uma vitória folgada dos conservadores, era dado como certo que Hammond seria substituído. “A queda em desgraça de May, que ainda não parou, deu-lhe um novo poder que ele está determinado a usar para impedir o que acredita serem erros catastróficos do ‘Brexit’”.

Essa é também a esperança de muitos empresários – ainda que Hammond não tenha alinhado com os que defendem um “soft Brexit”, mantendo o país no mercado único. Nesta terça-feira, foi a vez da indústria automóvel britânica exigir que Londres negoceie medidas transitórias que salvaguardem o comércio com a UE, dizendo não acreditar que May consiga, como prometeu, negociar um acordo de comércio antes da saída. “O nosso medo é o de cairmos num precipício dentro de dois anos – sem acordo, fora do mercado único e da união aduaneira”.

"Um país novo"

A esta pressão junta-se um início das conversações em Bruxelas que a imprensa britânica foi unânime em considerar pouco promissor para May – “rendição” e “capitulação” foram as palavras escolhidas.

David Davis, o ministro para o “Brexit”, aceitou que os próximos meses sejam dedicados a discutir os termos da saída britânica da UE e só quando houver “progressos suficientes” irão começar as negociações sobre um futuro acordo de comércio. Um recuo a que Michel Barnier, chefe dos negociadores europeus, deu mais peso ao afirmar que a UE não tem em mente fazer concessões. “Foi o Reino Unido que pediu para sair, não o contrário. Temos que assumir as consequências das nossas decisões e as consequências são substanciais.”

“Davis não foi batido num jogo de estratégia […] capitulou por causa da dinâmica de poder”, escreveu Ian Dunt, director do site Politics.uk, sublinhando que o ministro descobriu em Bruxelas aquilo que negou durantes meses – “O Reino Unido tem de fazer um país novo, quase do zero […]. Precisa de tempo e, pior do que isso, precisa de um acordo” com a UE que minimize o impacto da saída. “Esta dinâmica não vai mudar. Sair sem um acordo será um desastre. O Reino Unido tem de o evitar. E quanto mais próximos do abismo, mais poder a Europa tem”.