Entrevista

“Não há filmes a mais, não há é filmes bons que cheguem”

O suíço Michel Merkt produziu Miguel Gomes, Paul Verhoeven, David Cronenberg ou Xavier Dolan. Homenageado em Locarno, explica a sua política: fazer os filmes que os outros não fazem.

MARCO ABRAM/FESTIVAL DE LOCARNO
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MARCO ABRAM/FESTIVAL DE LOCARNO

O nome de Michel Merkt não dirá muito a muita gente. É normal, a dele "é uma profissão nas sombras”, explica na esplanada de um hotel de Locarno, pouco antes de cair uma daquelas cargas de água que marcam o Verão à beira do lago. “Não faço o que faço para ter protagonismo.” Mas a verdade é que o nome de Merkt (n. 1972) pode ser visto no genérico de filmes tão diferentes como Ela, de Paul Verhoeven, ou Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg, ou Toni Erdmann, de Maren Ade, A Minha Vida de Courgette, de Claude Barras, ou A Missão, de Walter Hill – e até de As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes e das Cartas da Guerra de Ivo Ferreira. Ao longo dos últimos dez anos, Merkt, nascido na Suíça e residente no Mónaco, tornou-se discretamente num dos produtores incontornáveis do cinema europeu, fugindo ao protagonismo de produtores “à antiga” como Dino de Laurentiis ou Carlo Ponti, e mantendo uma assinalável consistência nos autores que apoia.

“O meu pai perguntou-me um dia por que é que eu não fazia filmes como as outras pessoas”, diz Merkt, que começou como estagiário do Canal Plus e passou pelo marketing, pelo jornalismo, pelas finanças. “E respondi-lhe que havia uma razão muito simples: porque as outras pessoas já os fizeram. Não acho que haja filmes a mais, acho é que não há filmes bons que cheguem. Ponho de lado 80% dos filmes que me propõem não porque não sejam bons mas porque já os vi. Acontece-me querer trabalhar muito com alguns realizadores e dizer-lhes 'OK, mas não neste filme' – levou-me cinco anos a produzir o Xavier Dolan, até encontrarmos um projecto que me falasse ao coração.”

Talvez uma das marcas mais impressionantes do currículo de Merkt seja o modo como passa sem problemas de autores como Dolan, Gomes ou Philippe Garrel a realizadores como Hill ou Verhoeven. “Isso talvez faça parte do meu DNA suíço, com toda a diversidade que aqui temos”, propõe. “Mas é verdade que gosto de alargar essa diversidade à Europa e ao mundo. Pegue no Miguel: adorei Tabu, conheci o seu produtor Luís Urbano, disse-lhe que era urgente trabalharmos juntos, ele falou-me de As Mil e Uma Noites e eu disse que sim porque a Maren Ade [realizadora de Toni Erdmann] era co-produtora do projecto e também me apetecia trabalhar com ela… E o meu trabalho de produtor também é esse, reunir pessoas especiais para que dali saia um fogo-de-artifício, permitir a um realizador mostrar a sua visão ao maior público possível.”

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As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes DR

Mas sem nunca perder de vista que a produção é também uma questão de engenharia financeira. “Dá-se o caso de funcionar um pouco como mecenas em alguns projectos, tanto pelo filme como pelas pessoas que o fazem, porque o filme tem de existir. Nesses casos o objectivo não é forçosamente ganhar dinheiro, é mais não perder. Eu já produzia filmes há mais de dez anos, mas fazia-o por paixão, e a dada altura decidi transformar essa paixão numa profissão”, explica Merkt. O único meio de conseguir fazer essa “quadratura do círculo” é “produzir mais”: “Antes produzia para ajudar, que é uma coisa muito diferente de produzir como profissão. Para alguns filmes o objectivo é acabar nos Óscares, para outros é ter muitos espectadores, mas depende de cada filme e gosto de pensar a longo prazo, a uma média de dez anos após a estreia. Num projecto como o do Walter Hill, que foi feito com um orçamento muito limitado, optámos por exemplo por estrear em sala nos EUA e lançá-lo directamente em video-on-demand no resto do mundo.”

O que leva à questão que neste momento separa as águas no meio europeu do cinema – a chegada dos players do streaming como a Netflix e a Amazon, a polémica nascida no festival de Cannes e as recentes declarações de Roberto Olla, chefe do programa Eurimages, sobre o streaming como “prego no caixão” do cinema de autor europeu. Merkt não partilha desse negativismo: “Para mim, firmas como a Netflix e a Amazon são tanto concorrentes como parceiros, e vejo-os como uma enorme oportunidade. Obrigam-nos a reinventarmo-nos, a sermos flexíveis e criativos, a encontrar soluções. É uma oportunidade de repensar as coisas. A Netflix quer simplesmente aumentar o número de assinantes, e como estão a chegar ao limite nos EUA vão ter de se virar para outros territórios, e vão precisar de filmes. A princípio vão querer ir atrás de filmes que possam ser nomeados para o Óscar de melhor filme estrangeiro ou de melhor documentário, porque assim também os podem mostrar nos EUA. Tenho aqui em Locarno um documentário que foi comprado pela Netflix, Strong Island [sobre o racismo na América], que vai ter estreia em sala e passar em festivais. Mas tudo isso são discussões que vamos continuar a ter.”

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Michael Merkt com o prémio Raimondo Rezzonico SAILAS VANETTI/FESTIVAL DE LOCARNO

Em Locarno, Merkt veio receber o prémio Raimondo Rezzonico, entregue anualmente a um produtor independente e baptizado em honra do primeiro presidente do certame (o português Paulo Branco foi em 2002 o primeiro premiado com o galardão). Quatro produções suas foram exibidas no festival (entre eles The Song of Scorpions, de Anup Singh, e Frost, de Sharunas Bartas) num momento em que o produtor prepara os novos projectos de Paul Verhoeven, Miguel Gomes e Xavier Dolan e está a lançar os últimos filmes de Lucrecia Martel (Zuma), Philippe Garrel (L’amant d’un jour) ou Valeska Grisebach (Western). “O meu filme preferido é sempre o próximo”, ri-se, “mesmo sendo verdade que muitos dos filmes que fiz me dizem imenso": "Acima de tudo, não tenho remorsos nenhuns quanto aos filmes que deixei passar ou às experiências que correram mal.” Em palco na Piazza Grande para receber o prémio das mãos de Carlo Chatrian, Merkt fez uma pergunta: “Posso experimentar uma coisa?” E imitou ao microfone o rugido do leopardo que é o ex-libris do festival de Locarno. Para um homem tão discreto como ele, foi mais uma experiência que correu bem.