Opinião

Pulp fiction: a touça global que ameaça o património

É melhor mudar a agulha da discussão do eucalipto na minúscula portugalidade.

Dizia num artigo da Folha de S. Paulo, a propósito dos 356.000 hectares de terras de eucalipto que a Portucel começou a plantar em Moçambique, que era como Mato Grosso em África com fretes baratos para a China — a Portucel agora chama-se Navigator Company, que é mais condizente com o país dos navegantes, os mesmos que organizaram o comércio próspero dos escravos das Áfricas para as Américas. É feio dizer isto, mas é o que é. Nunca mais nos desfazemos da marca dos navigators, ora caravelas, ora negreiros.

O que o jornalista queria dizer era que, para além do Brasil — o segundo maior produtor mundial de pasta de papel com plantações imensas de eucalipto no Mato Grosso e uma imensidade com mais de sete milhões de hectares pelo país todo —, Moçambique e outros países africanos tinham todas as condições para disputar os grandes mercados asiáticos onde o crescimento do consumo de papel vai em modo foguete. É higiénico. Para garantir que o eucalipto segue o rumo da intensificação tecnológica que aquece esta era do capitalismoceno, o Brasil já usa variedades transgénicas que só precisam de pouco mais de cinco anos e meio para derreter na fábrica cheirosa da celulose. 

Claro que é tudo verde, sustentável, descarbonizante e isso. Os direitos de uso e aproveitamento de terra que muitos governos africanos disponibilizam para o agronegócio global (o Brasil, também) têm o nome incomodativo de land grabbing, que é a expressão estrangeira para denominar como é que se sacodem populações indígenas para deixarem as terras disponíveis para os novos colonos em troca de empregos mal pagos ou nem isso. Enfim, o mundo está assim, opaco e contraditório, uma embrulhada capaz de ensarilhar qualquer tema num novelo de histórias verdadeiras, mentiras e verdades e ficções ao mesmo tempo. Misturando o capitalismo global sem regras, os governos mais ou menos corruptos capturados por interesses do dinheiro que faz dinheiro e as populações pobres e desprotegidas, está o cenário montado para os jogos sem fronteiras.

Perante isto, é melhor mudar a agulha da discussão do eucalipto na minúscula portugalidade. A quem poderá interessar este negócio doméstico no meio de tão gigantesca maquinaria onde há terra barata, fértil, humidade, calor, liberdade para plantar OGMs, para desrespeitar normativas sobre poluição e política social abaixo de zero?

É melhor começar a pensar como arranjar dinheiro para arrancar a touça. É que ardido ou cortado, o eucalipto continua com a sua reserva vital pronta a ressuscitar sem que seja necessário que os humanos se preocupem com o assunto. Depois da touça ao fresco, terá ainda que se pensar que raio de paisagem económica vai funcionar em tanta terra despovoada, pedregosa, xistenta, seca, modelada aos papos acima e abaixo.

Queremos infestantes novas! Uma floresta verdadeiramente exótica, linda como as araras, cheia de frutos vermelhos, capuchinhos e lobos mansos, casas de chocolate, duendes e anões, muitos pirilampos para que não seja negra e o Robin, claro, o melhor gestor dos bosques em matéria de repartição da riqueza e de luta contra o enriquecimento ilícito. Isso sim.