O revestimento do prédio de Londres é usado em Portugal? Não há certezas

“Não é ser optimista, um incêndio pode acontecer a qualquer altura mas mesmo que houvesse um incêndio cá em Portugal dificilmente teria aquela dimensão”, diz o bastonário da Ordem dos Engenheiros.

O revestimento usado em Londres era uma combinação de alumínio e de um plástico — e era uma versão mais barata e inflamável
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O revestimento usado em Londres era uma combinação de alumínio e de um plástico — e era uma versão mais barata e inflamável Reuters/HANNAH MCKAY

O incêndio que deflagrou na madrugada de quarta-feira em Londres, pela combustão do material de revestimento, causou estranheza entre os engenheiros. “Surpreende-me muito aquilo ter acontecido em Londres, não esperava”, diz o engenheiro António Segadães Tavares, considerando que “a Inglaterra tem um regime de normas de segurança que é bastante eficaz”. O bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, diz que “não é normal acontecer uma situação como a de Londres”, estranhando sobretudo o facto de o edifício ter sido, há pouco tempo, “objecto de uma remodelação”.

O prédio em Londres – que ao arder provocou 30 mortes e fez mais de 70 feridos – estava revestido por um compósito de alumínio com um núcleo de polietileno (um tipo de plástico). John Cowley, o director da Omnis Exteriors (a empresa fabricante), revelou à BBC que o revestimento do prédio no centro de Londres era uma versão mais barata e mais inflamável das duas opções disponíveis no mercado na altura. A empresa tem outro produto mais caro e resistente ao fogo, mas não está claro se já estava disponível quando a obra decorreu (os trabalhos terminaram em Maio do ano passado).

Não há certezas quanto à utilização deste tipo de material em Portugal. “Não posso afirmar a 100% que não existam em Portugal mas, se existirem, não será habitual a utilização desses materiais, até porque a legislação nacional é muito exigente nesta matéria”, diz Carlos Mineiro Aires.

O comandante do Regimento dos Sapadores Bombeiros (RSB) de Lisboa, Pedro Patrício, admite que se os materiais utilizados no edifício em Londres forem utilizados em Portugal, é possível que uma situação do género se possa verificar, ainda que caracterize o incêndio da Torre Grenfell como uma “situação atípica”.

António Segadães Tavares não acredita que uma “catástrofe como a de Londres” se replique em Portugal, a não ser que não sejam “cumpridas as disposições normativas e regulamentares e que não exista uma fiscalização adequada”.

O bastonário da Ordem dos Engenheiros concorda: “Não é ser optimista, um incêndio pode acontecer a qualquer altura mas mesmo que houvesse um incêndio cá em Portugal dificilmente teria aquela dimensão”, afirma. “A nossa legislação é muito exigente, há um investimento grande em Portugal nessa matéria e se as coisas acontecerem não é por falta de segurança ou falta de legislação”, conclui o bastonário.

Prevenção é a palavra-chave

O bastonário Mineiro Aires acredita que a aposta deveria ser feita na prevenção, nomeadamente no referente a simulacros – que acontecem em edifícios públicos mas não a nível habitacional – e deveria também haver vistorias para identificar dificuldades ou falhas nos sistemas de combate a incêndio. “É a melhor maneira: apostar na prevenção e garantir que cada um sabe como comportar-se”. “As coisas podem acontecer um dia e é bom que os cidadãos estejam informados para dar resposta a essa situação”, diz.

Em Portugal, garante ainda o bastonário, os aspectos relativos à segurança contra incêndio são tidos em conta quando os edifícios são remodelados. “Diria que é uma área em que estamos suficientemente tranquilos, mas isso não quer dizer que não aconteça”, avisa. Para o engenheiro António Segadães Tavares, não deveria ser sequer permitido que um revestimento habitacional fosse feito a partir de materiais combustíveis.

O comandante Pedro Patrício sublinha que deve haver uma “cultura da segurança” e indica algumas das medidas de prevenção que podem ser tomadas: os moradores devem preparar uma possível fuga, saber por onde vão, verificar se as escadas estão desobstruídas, se as portas corta-fogo estão funcionais e ver se o condomínio verifica que a ventilação das escadas está a ser feita, por exemplo.

As medidas de autoprotecção previstas no regulamento SCIE (Segurança Contra Incêndio em Edifícios) variam consoante a tipologia do edifício em causa (se for habitacional, comercial ou hospitalar, entre outros) e visam assegurar que possa ser dada uma resposta adequada no caso de haver um incêndio. Estas regras incluem, por exemplo, a existência de extintores e portas corta-fogo – sempre dependente do tipo de edifício.

É relatado que alguns dos habitantes do prédio em Londres foram aconselhados a permanecer dentro dos seus apartamentos. O comandante do RSB afirma que “se deram essa indicação é porque já era a melhor solução no momento. Mas quando chega a um ponto em que a saída põe em perigo a vida da pessoa, “é preferível estar numa caixa fechada de betão do que num corredor de fumo”, diz.