Fornecedores admitem que revestimento da torre de Londres era o mais barato e inflamável

O Guardian falou com as empresas responsáveis pelo processo de recuperação da fachada da Grenfell Tower, que ardeu completamente na quarta-feira. Número de mortos subiu para 30.

Foto
Bombeiros já não esperam encontrar ninguém com vida nos escombros do prédio Reuters/HANNAH MCKAY

Na madrugada de quinta-feira, uma testemunha que pediu para se manter anónima relatou ao Guardian um dos primeiros índicios de que o revestimento da Grenfell Tower ardia mais rápido do que o normal. "Não havia alarme de incêndio no prédio, não temos um sistema de alarme de incêndio integrado. O revestimento do edifício parecia um fósforo", disse. Agora, o director da Omnis Exteriors, John Cowley, revela que o revestimento daquele prédio de 24 andares no centro de Londres era mesmo uma versão mais barata e mais inflamável das duas opções disponíveis no mercado.

A Omnis Exteriors é a fabricante do material composto de alumínio (ACM) usado no revestimento da Torre Grenfell. A empresa relata que lhe foi pedido o revestimento Reynobond PE, que é cerca de duas libras (2,29 euros) mais barato, por metro quadrado, do que a alternativa Reynobond FR, que é resistente ao fogo. "Nós fornecemos os componentes para o sistema criado pela equipa de design e construção do projecto [da Torre de Grenfell]", disse Cowley ao Guardian.

Uma outra empresa, a Harley Facades, confirma que instalou os painéis mais baratos — comprados à Omnis Exteriors — na reabilitação do edifício. A Omnis — que se descreve como “a fabricante líder e fornecedora de produtos e sistemas de construção exterior no Reino Unido” — confirma por sua vez, e também ao Guardian, que vendeu revestimento ACM para a Harley Facades, a empresa responsável por instalar o material composto de alumínio.

A construtora Rydon foi a empreiteira principal do projecto de reabilitação. Esta empresa subcontratou os trabalhos a outras entidades, incluindo a Harley Facades.

As empresas de construção alemãs, por exemplo, foram proibidas de usar revestimentos com componenetes de plástico, como o Reynobond PE, em torres com mais de 22 metros de altura desde a década de 1980, quando os regulamentos foram actualizados para melhorar a segurança contra incêndios em empreendimentos residenciais.

A preocupação com os painéis Reynobond PE reside na possibilidade de agravarem a propagação de incêndios. Por isso, só devem ser utilizados em edifícios que permitam que os bombeiros consigam chegar até ao topo dos edifícios com a escada de emergência totalmente distendida a partir do solo. Os edifícios com particularidades mais vulneráveis a incêndios, exigem painéis com um núcleo mais resistente ao fogo e escadas separadas do corpo dos edifícios para uso dos habitantes, em caso de evacuação.

O chefe dos bombeiros de Frankfurt, na Alemanha, Reinhard Ries, afirmou-se horrorizado com o incêndio na Grenfell Tower, ao Guardian. E afirma que as regras rígidas de segurança contra incêndios em prédios impossibilitam que, na Alemanha, um acontecimento do género aconteça. Os códigos de construção americanos também restringem o uso de painéis metálicos-compostos sem núcleos ignífugos em edifícios acima dos 15 metros de altura.

A Torre Grenfell era um bloco de apartamentos de habitação social do Norte de Kensignton, gerido pelo Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation (KCTMO), em nome do bairro de Kensington/Chelsea. Seraphima Kennedy trabalhou para a associação KCTMO, entre 2007 e inícios de 2016, e denuncia ao Guardian a falta de atenção do Estado em matéria de segurança nas habitações sociais. “Isto demonstra bem como o Estado vê os mais pobres na sociedade. Temos detectores de fumo no resto da sociedade, mas não os temos nos bairros sociais. Porque são demasiado caros? Porque seria perturbador? Quer dizer, isto realmente faz-nos questionar sobre como o Estado valoriza vidas e que vidas valoriza”, diz.

O ex-ministro da Habitação britânico, Gavin Barwell, não respondeu a questões sobre a Torre Grenfell.

O revestimento, colocado pela empresa Harley Facades, custou cerca de três milhões de euros. Trata-se de um revestimento polémico e já houve outros incêndios em edifícios que o usavam — por exemplo em 2015, no Dubai. Quando as placas de alumínio caem, por exemplo devido ao grande aumento de temperatura quando há fogos, o polietileno arde a grande velocidade. Estima-se que no Reino Unido sejam 30 mil os edifícios com este revestimento.

O comandante da polícia Metropolitana de Londres, Stuart Cundy, confirmou nesta sexta-feira que há "pelo menos" 30 vítimas mortais do incêndio da Torre Grenfell. Um dos mortos é uma pessoa que tinha sido transportada para o hospital, com ferimentos, após o incêndio.